Livros para o Natal

O mundo é vasto, variado e cheio de profissões inusitadas. Edmund De Waal, por exemplo, é ceramista – o mais conhecido dos ceramistas ingleses, e um dos expoentes mundiais do seu métier. Como não sei nada a respeito de cerâmica, só vim a descobri-lo como escritor. Ele é o autor de “A lebre com olhos de âmbar”, um dos melhores livros que li neste 2011 já por terminar (Intrínseca, tradução de Alexandre Barbosa). Mas o ceramista influencia muito o escritor: é pela sua atenção aos objetos, e à forma como são feitos e cuidados ao longo do tempo, que ele resolve investigar as origens dos 264 netsukes que herda do tio-avô.

Netsukes são esculturas japonesas de marfim ou madeira, não muito maiores do que uma noz.  Criados no século XVII para prender pequenas bolsas aos cintos dos quimonos, acabaram virando objetos de arte em si mesmos, e logo viraram febre entre os colecionadores europeus encantados por tudo o que vinha do Oriente.

É na Paris do século XIX, portanto, que começa a saga da coleção de De Waal, quando os netsukes são comprados, em lote, por um antigo parente seu, Charles Ephrussi. Apaixonado por arte, com muito dinheiro para gastar – pertencia ao clã dos Ephrussi, de riquíssimos banqueiros – Charles é um personagem melhor do que a encomenda; basta dizer que foi um dos modelos para o sofisticado Swann de Marcel Proust.

De Paris, os netsuke foram para Viena, como presente de casamento de Charles para o primo Viktor. Não havia lugar para eles nas áreas “chiques” do palácio, com seus mármores e dourados. Assim, eles foram parar numa saleta íntima de Emmy, mulher de Viktor, onde, com o tempo, viraram brinquedos para os seus filhos.

Quando a família é obrigada a fugir durante a Segunda Guerra, os netsukes (assim como todos os seus outros bens) ficam para trás; mas, contra todas as probabilidades, sobrevivem ao conflito, e são, anos mais tarde, levados para a Inglaterra pela avó de Edmund De Waal. De lá, partem para seu último pouso antes de chegarem às mãos do nosso ceramista, e vão para o seu Japão natal com o tio Iggie.

Tanto os parentes perdidos no tempo quanto as delicadas esculturinhas ganham vida nas mãos de De Waal. Terminamos seu livro comovidos com a saga da coleção, encantados por netsukes e, no mínimo, muito curiosos em relação à sua arte de ceramista.

Este é um livro para quem gosta de arte, de História e, principalmente, de uma boa leitura.

o O o

O livro mais comentado do ano merece todos os elogios: “Steve Jobs”, de Walter Isaacson (Companhia das letras, tradução de Pedro Maia Soares, Berilo Vargas e Denise Bottmann), é um modelo de biografia. Como a essa altura sabem até as pedras da rua, Isaacson foi convocado pelo próprio Jobs, que não impôs qualquer linha editorial ou restrição a fatos ou opiniões alheias. O resultado é o retrato de um ser humano muito imperfeito, ainda que genial, estendido por seiscentas e tantas páginas que se lêem sem parar, como um romance bem inventado e melhor urdido.

Este livro é para todo mundo que ainda não tem este livro.

o O o

Uma biografia menorzinha, em escopo e tamanho, mas não menos interessante ou bem pesquisada: “O mundo prodigioso que tenho na cabeça”, de Louis Begley, também lançada pela Companhia das Letras (tradução de Laura Teixeira Motta). Seu protagonista é um surpreendente Franz Kafka — trabalhador, cotidiano, tributável. Para quem se acostumou a ver no autor de “Metamorfose” uma criatura parecida com seus personagens, o enfoque pragmático e factual de Begley é uma revelação.

Este livro é para quem gosta de biografias e de boa literatura.

o O o

Do nascimento à morte nos velhos tempos, aos amores e à solidão de sempre, muita história passa pelos quartos de dormir; é mais que justo, então, que eles tenham, enfim, sua história contada. “A história dos quartos”, de Michelle Perrot (Paz e Terra, tradução de Alcida Brant), é um daqueles longos ensaios em que os franceses são especialistas. Do quarto do rei ao quarto do moribundo, do quarto de hotel ao quarto conjugal, nada escapa ao olhar analítico e certeiro da autora.

Este livro é para quem gosta de História, de ciências humanas e de livros que fazem pensar.

o O o

Entre os volumes que me esperavam na volta das férias havia um, da Intrínseca, encapado em vermelho, com cantos arredondados e letras douradas, muito engraçadinho. Chama-se “A parisiense”, e é o guia de estilo de Ines de La Fressange. Escrito com Sophie Gachet, jornalista de moda da Elle, e traduzido por Adalgisa Campos, ele é tão bom de ler quanto de olhar e ter em mãos – um livro deliciosamente mulherzinha, cheio de dicas sensatas e de bons conselhos. Por exemplo:

“Você nunca vai ouvir uma parisiense se queixar de que a saia está muito curta, o vestido muito apertado e os sapatos muito altos. Todas as garotas que entendem de estilo chegam à mesma conclusão: o segredo de um bom estilo é sentir-se bem dentro da roupa.”

Ninguém vai ficar da altura e do peso privilegiadíssimos da estonteante Ines por seguir suas recomendações, evidentemente, mas todas podem, guardadas as devidas proporções, poupar-se de pagar alguns micos.

 Este livro é para as mulheres da sua lista. Mesmo as mais estilosas, que não precisam de conselho algum, vão se divertir com a leitura.

 

(O Globo, Segundo Caderno, 15.12.2011)

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10 respostas em “Livros para o Natal

  1. Gostaria de saber se alguém conheceu esta coleção de netsuquês do Edmund de Waal pessoalmente?
    Gostaria de ver as fotos ou algumas peças.Obrigada
    Abraços Leda

  2. OI Cora adorei a Lebre com Olhos de Ambar, que mergulho na Historia e na Arte.
    Foi uma dica e tanto, sempre as procuro em suas crônicas para a certeza de uma boa leitura.
    Obrigada
    Márcia

  3. Olá Cora
    Falando em livros, estamos na segunda metade de Dezembro e eu não consegui sequer folhear dois dos três livros que comprei durante a viagem de Setembro passado. O terceiro, “Livro do desassossego”, segunda edição de Teresa Sobral Cunha, tem me acompanhado apesar do peso, mas não passei de 1/3 (mal) lido, o que significa que terei de comçar de novo. Fui e voltei de Itajaí esta semana, carreguei o peso, “li” nas salas de espera e nos voos…No entanto, com a cabeça carregada com o peso de desassossegos outros, não lograrei sintonizar-me no fluxo do pensamento de Pessoa. Bom fim de semana, Cora.

  4. Ando azedo, então lá vai: livro no Brasil é absurdamente caro. Por exemplo, a Cia das Letras tem uma coleção de bolso, livrinhos pequeninos, pouco mais que folhetos, a mais de vinte pratas. Comprei o calhamaço Anna Karenina em Inglês, na Travessa, por menos de quinze. Até dicionário de português custa uma baba. Será que livro paga o mesmo imposto que bebida e cigarro? Tem cada uma! E tem mais essa: se você procurar um corpus da língua portuguesa, vai encontrá-lo na universidade Bringham Young, em Utah, USA, precisamente em Provo, ciadezinha de menos de 200 mil almas, tudo isso privado e às custas da Igreja dos Santos dos Últimos Dias, os mórmons. Entrementes, a ABL sorve chá e o governo brasileiro cobra o imposto.

  5. Adoro netsuke 🙂
    diante de mim, na minha mesa de trabalho, um lindo cavalinho (reprodução da lojinha do Metropolitan) me faz companhia

    De La Fressange: a autora, o livro e a filha são a essência da elegância!

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