Impressões sobre o luxo (e o seu avesso)

É preciso ir à India para descobrir o significado da expressão “luxo oriental”. Ela se manifesta na esperada profusão de dourados, sedas e toda a sorte de materiais preciosos, mas também numa abundância de coisas mais simples. O café da manhã do hotel Taj, em Mumbai, é um típico exemplo disso: um restaurante servido com um bufê correspondente ao de um bom quilo carioca, mas só de comidinhas de café da manhã. Cheguei a contar dez frutas por dia, mais dois recipientes para ameixas e figos secos; seis espécies diferentes de sucrilhos; seis tipos de sucos frescos; ovos preparados de todas as maneiras; uma quantidade de queijos; uma profusão de pães.

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Nem na Suiça se vê tanta publicidade de relógio. É impossível abrir um jornal ou uma revista sem encontrar, de cara, anúncios de página inteira de relógios de luxo. Várias lojas especializadas têm vitrines mais sortidas do que as da Tourneau, de Nova York.

A ostentação faz parte do cotidiano. Os indianos não acreditam em low-profile. Andam em carros de luxo, usam muitas jóias e gastam feito… orientais, ça va sans dire.

É difícil interpretar tanta extravagância através dos nossos hábitos e condicionamentos ocidentais. As duas culturas são diferentes demais, e o que nos parece exagerado, para eles parece ser normal. Mais difícil ainda é aceitar o contraste entre a riqueza que não se envergonha e a pobreza que não se disfarça: tudo é muito, num desafio constante à nossa maneira de ser e de pensar.

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Contra todas as expectativas, adorei Mumbai, cidade de que mesmo os meus amigos indianófilos não gostam muito. Até entendo porquê. Mumbai é confusa, suja e muito barulhenta; para onde quer que se olhe, a qualquer hora do dia ou da noite, há gente, gente e mais gente, andando depressa, falando no celular, chamando taxis ou riquixás, gritando, gesticulando. O lado Nat Geo da história é que essa gente se veste das formas mais variadas, numa festa para quem gosta de observar seus semelhantes. Além disso, a confusão geral é, no fundo, sinônimo de grande vitalidade e efervescência, um prazer de se ver.

A cidade está caindo aos pedaços mas, ao mesmo tempo, cresce sem parar. Edifícios altíssimos e super luxuosos brotam ao lado de prédios que deveriam ter sido demolidos há anos. Mesmo nos bairros mais ricos há relativamente poucos edifícios antigos em boas condições. É como se ninguém se importasse mais com os prédios depois que ficam prontos.

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Comprei uma camiseta que diz “Mumbai, Bombaim – o que há num nome?” A frase é quase piada para iniciados, porque a forma como um mumbaikar chama a sua cidade é uma verdadeira declaração de princípios: o nome Bombay foi trocado para Mumbai, em 1995, por um governo nacionalista de extrema-direita, o que faz com que a elite cultural, de esquerda, continue usando Bombay.

 A idéia do governo era jogar no lixo da História uma herança duplamente colonial, já que Bombay, nome dado pelos ingleses, deriva do português Bombaim. Este, segundo a lenda, seria uma corruptela de “Bom baía”, que se auto-explica pela geografia local. Eu não concordo com esta etimologia, de resto desacreditada pelas fontes mais sérias: embora os portugueses tenham chamado a nossa baía de abril de rio de janeiro, duvido que se confundissem a ponto de chamar uma boa baía de um bom baía.

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Na volta para casa, a British Airways me marcou uma conexão impossível, com menos de uma hora de intervalo entre um vôo e outro. É claro que não deu certo, e acabei sendo obrigada a passar 24 horas em Londres. Isso seria ótimo se eu estivesse vestida como quem viaja para a Inglaterra no inverno, e não como quem sai da Índia para o Brasil; o resultado é que fiquei praticamente presa num quarto de hotel.

Pois durante esse tempo todo, só vi uma coisa no noticiário: a crise da zona do euro. Com isso, tive uma pequeníssima amostra do clima de fim-de-mundo que está acabando com os nervos dos europeus. Impossível não entrar em depressão quando o mundo, tal qual o conhecemos, ameaça implodir.

Para mim, porém, impossível foi não comparar o mundo de onde havia saído ao mundo ao qual chegara. Com todas as suas falhas, que não são poucas, a Índia é, hoje, um país colorido e cheio de vida, do qual se avista o futuro; a Europa é um continente cada vez mais acinzentado e melancólico, onde tudo está no passado.

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Quando saí de férias, a imprensa fervia com as primeiras denúncias de corrupção envolvendo o ministério do trabalho. Voltei, e o primeiro jornal que vi trazia a notícia da saída do ex-ministro Lupi. Por uns instantes, tive a sensação de ter entrado numa máquina do tempo, voltando ao ponto exato de partida: ali estavam causa e conseqüência, um dia depois do outro, numa ordem lógica e previsível.

Até agora continuo sem entender direito como é que couberam 30 dias nessa equação.

(O Globo, Segundo Caderno, 8.12.2011)

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17 respostas em “Impressões sobre o luxo (e o seu avesso)

  1. Tão ter você aqui, com suas crônicas maravilhosas!
    E, graças a você, ter conhecido o mundo do facebook, onde há muita informação e também é um grande blogtequim.
    Ah! Obrigado e anotado: seleções de dezembro com matéria com você!
    🙂

  2. E de todos esses paises que você visitou quais são suas impressões de como eles tratam os animais ?
    Parece que na Ásia eles tem uma relação muito utilitária com os bichos, que para eles não passam de máquinas para trabalhar ou mercadoria para comer , ou seja , não os tem como animais de estimação

    A China , por exemplo, é um pais que jamais poria os pés, pois que eles fazem com os animais por lá é puro filme de terror.

  3. As duas guerras mundiais, as maiores carnificinas do século XX, nasceram na Europa. Depois de ambas, vencedores e vencidos passaram fome e outras privações em Londres, Paris, Roma, Berlim, Moscou. Os anos 50 do apogeu americano foram os mesmos anos da Europa em reconstrução, do Plano Marshall, Wiederaufbau, muita pobreza. Aí veio a descolonização generalizada dos anos 60 e a Europa virou o que é hoje: a maior Áustria-Hungria do mundo. A grande novidade é ela estar sendo arrastada pela visível decadência do império americano, do qual, desde a tal reconstrução, ela é cliente preferencial.

    Quanto ao império, temos um presidente medíocre às voltas com enormes problemas paroquiais e candidatos republicanos de deixar o Tiririca boquiaberto.

    E nóis aqui chacoalhando na marolinha…

  4. “a Europa é um continente cada vez mais acinzentado e melancólico, onde tudo está no passado.”
    Ah,Corinha ,como vc descreveu bem esse lugar.Como pastora passo a vida levantando o astral das pessoas,mas esse ano definitivamente,quase apaga com o meu.
    Eu sei que pra vc o fim do ano e´simbólico,para mim nao,Nesses últimos dias de 2011 estou reavaliando as atitudes e decisoes que tive e me prosto diante de Deus para saber o resultado certo da equacao.Aff,ta´acabando!
    A igreja q minha família frequenta tem 4 orfanatos na India e o pastor acabou de voltar de la´.Com 50,00euros as criancas dos orfanatos podem ter um almoco festivo.E´ uma discrepância pagar entao 24,00 no Mac´s e nao ficar satisfeito com o hamburguer amassado e sem gosto.Essa relatividade das coisas me surpreende cada vez mais.A vida e´impressionante.Ja´escrevi na outra viagem e repito nessa daqui:muito obrigada por compartilhar os detalhes fascinantes desse lugar.Esse daí eu tenho certeza q nao irei visitar nessa vida terrena,entao me alegro demais em ver as fotos e crônicas.
    Que bom q vc chegou bem e esta´feliz.Era isso que estávamos todos desejando.
    Vc merece. Um abraco.

  5. Gente, esses comentários estão (quase) tão bons quanto a crônica! Gostei muito de saber as origens de cash e tomarei a hipótese refutada da boa baía como certa; é tão poética…

    • saboreio imensamente que a palavra ‘Cash’, tão importante na mentalidade angloparlante, tenha origem no nosso português

  6. caramba! que crônica mais bem-alinhavada, com direito ainda ao devastador ‘punch line’ final.

    Beleza, Corinha!

    É realmente perturbadora esta ostentação — quase obscena — dos endinheirados árabes, russos, indianos e chineses.

    Mas dou crédito à etimologia portuguesa de Bombaim. Repita em voz alta ‘boa baía, boa baía, boa baía’ e isso irá dar na corruptela ‘bô baim’, resultando em… 🙂

    Afinal de contas, ‘tempero’ virou ‘tempura’ e ‘caixa’ virou ‘cash’

    • fui pesquisar: Wikipedia Bombaim – Etimologia: “É consensual actualmente que o nome do local deriva da deusa adorada no templo de Mumbadevi, um dos mais antigos da ilha

      Sunny Kalara, advogado de Los Angeles, é um ávido colecionador e tem um site de Antique Indian Maps. Entre eles, o belíssimo Linschoten de 1596 (full map), onde encontramos já grafado ‘Bombaim’, à direita de Chaul, abaixo da I[lha] das Vacas; mais abaixo, temos Goa e diversos outros topônimos em bom português, neste mapa holandês, atestando a presença lusitana

  7. E você nem vai entender a equação, Cora. No Brasil cabem muitas equações em pouquíssimo ou em longo tempo, como é costume, e de acordo com a cara do “freguês”.

    • Tivesse a “Veja” duas edições semanais, no teu regresso verias uma Brasília tão modificada que imaginarias que o Niemeyer tivesse enlouquecido. Talvez, até, o Antonio Rogério Magri no Lugar do Lupi.

  8. A situação na Europa está muito dura mesmo. minha irmã disse que essa semana em Meadow Hall, o maior shopping do norte da Inglaterra, estava lotado como sempre, mas muito pouca gente com sacolas na mão ;-(

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