Diário de bordo — Impressões

É preciso vir à India para descobrir o significado da expressão “luxo oriental”. Há a esperada profusão de dourados, sedas e toda a sorte de materiais preciosos, mas há também uma abundância de coisas mais simples. O café da manhã do Taj é um típico exemplo disso: um restaurante servido com um bufê correspondente ao de um bom quilo carioca, mas só de comidas de café da manhã. Contei dez frutas por dia, mais dois recipientes para ameixas e figos secos; seis espécies diferentes de sucrilhos; seis tipos de sucos frescos; ovos preparados de todas as maneiras; uma quantidade de queijos.

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Nem na Suiça vejo tanta publicidade de relógio. É impossível abrir um jornal ou uma revista sem encontrar, de cara, anúncios de página inteira de relógios de luxo. Há lojas especializadas em relógios com vitrines mais cintilantes que as da Tourneau, em Nova York. Para completar, esses relógios circulam livremente no braço dos indianos abastados, que não precisam se preocupar com segurança e obviamente não se importam com bom gosto como o imaginamos.

A ostentação faz parte do cotidiano. Os indianos não acreditam em low-profile. Andam em carros de luxo, usam muitas jóias e gastam feito… orientais, ça va sans dire.

É difícil interpretar toda essa extravagância através dos nossos hábitos e condicionamentos ocidentais. As duas culturas são muito diferentes, e o que nos parece exagerado para eles é normal. Mais complicado ainda é aceitar o contraste entre uma riqueza que não se envergonha e a pobreza que não se disfarça: tudo é muito, num desafio constante à nossa maneira de ser e de pensar.

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A minha primeira viagem à Índia, em 2009, foi uma viagem de descoberta. Esta agora é uma viagem de reconhecimento, e de confirmação do que vi e do que me impressionou. Ficou óbvio para mim (e acho que para todo mundo que acompanha este blog) que eu gosto muito desse canto do planeta; gosto até do que muita gente detesta, como a confusão permanente das ruas.

A única coisa com a qual não consigo me acostumar é a ferocidade com que os indianos se dedicam a separar os firangs de suas rúpias. Todos os golpes valem para isso. Ontem, batendo perna no Gateway of India, uma moça me amarrou uma pulseirinha de flores no braço e antes que eu tivesse tempo de dizer “não!”, estava empenhada em me arrancar dinheiro. Levou dez rúpias, 30 centavos de real — muito contrariada com a quantia irrisória.

Hoje, indo para o museu, outra moça emparelhou comigo. Estava bem vestida e falava um ótimo italiano. Tentou me levar para a loja em que trabalha, recusei, e ela continuou me acompanhando; no museu, finalmente, me deu o golpe do leite para a filha. Queria 200 rúpias, levou 100: paguei para me livrar, ou ela ainda estaria na minha cola.

Argh!!!

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Nem toda água engarrafada dessas bandas é água mineral. Muitas — como, por exemplo, a que a Pepsi distribui no Nepal — são apenas águas processadas, ou seja, águas purificadas. É que as pessoas têm tanto medo de beber a água encanada normal que passa a ser um grande negócio vender água filtrada.

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12 respostas em “Diário de bordo — Impressões

  1. O simples fato de entrar em contato com os códigos dos cinco sentidos, totalmente diferentes dos nossos ocidentais, já justifica a experiência de viajar à Índia…Ajustá-los, acaba forçando(ou permitindo…)o cérebro, a implantar um novo sistema complexo porém fascinante, pq independente da pobreza,a explosão de cores e formas, promove uma espécie de torpor que só mesmo quem está de alma aberta, curtirá; Aí entendo, como a Cora deve ficar desesperada em traduzir esta emoção para todos nós,através do seu I PHONE…

    • Uma diferença fundamental: taxi em Mumbai é ridiculamente barato; já em São Paulo… Mumbai tem uma geografia mais bonita, e poderia ser mais bonita como um todo se os prédios tivessem um mínimo de conservação. Já o trânsito é mais caótico do que o de São Paulo e a frota é mais velha.

  2. Muito embora eu reconheça que cada cultura tem sua medida de insistencia e mesmo de distancia corporal, este tipo de assédio, como o da moça da pulserinha, me tira do sério. Detesto. Além do que é perigoso: estas pessoas nunca estão sozinhas e daí a dizerem que você roubou a pulseira e não quer pagar, reclamando no meio da rua, em lingua desconhecida(pelo turista), invocando a policia, aos gritos, é um pulo. Já me aconteceu. Se cuide.

  3. Eu tambem nao teria muta paciencia com esses vendedores sanguessugas,,,, Espantaria eles tal qual galinhas,,,,, com um ZOOOOOOOO Sai Dai Bem sonoro!!!

  4. adoro seus relatos, cora, mas acho que não gostaria da índia. essa coisa de vendedor chato, então… quando estou vendo uma vitrine e vejo que um vendedor vem em minha direção, bato em retirada.

    []’s

    • Faço exatamente a mesma coisa!! E qdo vc já disse que está só olhando e a vendedora diz: ” Pode experimentar se quiser”. Respondo: “É mesmo? Não sabia que podia experimentar”. Caraca!! É absolutamente irritante. rsrs

      • heliana, acho que minha ojeriza ao assédio me fez desenvolver um tipo de radar que detecta de longe o ataque do vendedor, então nem passo mais pela experiência do “precisa de ajuda?” ou “está procurando alguma coisa especial?” ou “qualquer coisa é só falar comigo”. me mando antes.

        []’s

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