Diário de bordo — Mumbai

Contra todas as expectativas, adorei Mumbai, cidade de que mesmo os meus amigos indianófilos não gostam muito. Mumbai é uma espécie de Delhi on steroids,confusa, suja e barulhenta. Aonde quer que se olhe, a qualquer hora do dia ou da noite, há gente, gente e mais gente, andando depressa, falando no celular, chamando taxis ou riquixás, gritando, gesticulando.

Detalhe: essa gente se veste das formas mais variadas. A maioria dos homens se veste à ocidental, mas as mulheres andam de sari ou de salwar kameez, conjunto de túnica longa e calça comprida. Há alguns homens usando kurtas, o traje tradicional mais comum, e outros, do interior, com turbantes. Os sikhs se vestem à ocidental mas não abrem mão dos turbantes, menores do que os dos camponeses que chegam à cidade grande. Há mulheres muçulmanas vestidas com toda a espécie de chador: morro de pena delas, que devem sofrer horrivelmente com o calor (pelo menos, não vi nenhuma de burca). No hotel há vários hóspedes árabes vestidos a caráter. A única coisa que não se vê, graças a todos os deuses do hinduísmo, é bermuda e top de lycra, aquele horrendo uniforme das gordinhas cariocas.

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Tudo é over em Mumbai, e tudo me parece extremamente divertido.

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Mumbai está caindo aos pedaços mas, ao mesmo tempo, cresce sem parar: há uma quantidade enorme de prédios altíssimos em construção. O shopping mall que visitei hoje, o High Street Phoenix, fica numa redondeza completamente detonada — e, no entanto, a maioria de suas lojas é de um luxo faraônico. Há Chanel, Armani e Yves Saint-Laurent por lá, entre dezenas de outras marcas caríssimas; há lojas inteiras da Clinique e da Estée Lauder, e griffes indianas de alto luxo.

Uma pecinha de roupa modesta em qualquer desses estabelecimentos dá muitas vezes o salário mensal dos vendedores.

Ao contrário dos shoppings que a gente conhece, o High Street não tem praça de alimentação, mas sim restaurantes elegantíssimos incrustados entre as lojas. É um conceito fino mas pouco prático para quem quer fazer um lanche rápido.

Aliás, todo o conceito de shopping não tem nada a ver com a Índia, país que tem mercados de rua fabulosos e não precisa importar modelos alienígenas de comércio.

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O comércio de Mumbai está entre as maravilhas do mundo. Encontra-se absolutamente de tudo na cidade, de jóias dignas de museu a produtinhos simples mas nem por isso menos interessantes, como sabonetes de açúcar ou de manteiga (comprei vários), incenso e perfumes para casa (idem) e écharpes coloridas (idem idem).

Os vendedores são insuportáveis ou excelentes, dependendo de como se os olhe. Um me abordou no meio da rua:

— Hello, your Excellency!

Não pude deixar de rir.

— Que coisa mais ridícula! Por que your Excellency?

— Porque estou falando com uma cliente em potencial, e os meus clientes são todos Excelências!

Diante disso, só me restou entrar na loja dele, um empório de artesanato local. Felizmente eu já tinha visto bastante coisa semelhante e não me apaixonei por nada, caso contrário ele teria me esfolado sem dó nem piedade.

Na loja seguinte, especializada em artigos do Kashmir (xales, pashminas e objetinhos de papier machê) o vendedor me falou longamente sobre a situação do Kashmir, que luta por independência e, depois, me convidou para jantar. O passo seguinte foi apertar a minha mão, dizer que agora eramos amigos e que, portanto, ele me faria um preço muito especial no que eu quisesse levar.

Acabei comprando um pequeno elefante esmaltado e um xale que só Deus sabe quando vou conseguir usar no Rio. Quanto a jantar com o vendedor ficará para as calendas.

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O serviço do Taj Mahal está entre os melhores que já vi. Hoje saí tarde do quarto e deixei o aviso de não perturbar na porta. Não é que às duas da tarde a gerência me ligou para saber se estava tudo bem?

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15 respostas em “Diário de bordo — Mumbai

  1. Cora, aqui tem tanto indiano que no primeiro ano eu fiquei tentando achar um americano branco de olhos azuis no meio de tanta mulher de sari, senhores de camisolão branco e programadores de turbante e sandálias no maior frio. Sair pra comer aqui é ter que escolher entre restaurantes indianos, tailandeses e viatnamitas. A comida tem tanta pimenta que ovo com arroz em casa parece muito bom!
    Acho que morar perto de Redmond já dá uma boa idéia da população, costumes e alimentação deste povo. Até demais! Alguém se habilita a abrir um quilo brasileiro aqui, peloamordedeus? Frango ensopadinho com batata, arroz à brasileira (que é o “fried rice” aqui), uma coxinha ou um pastel de vez enquando, coisas simples. Aí gente, invistam em um pé sujo em Redmond e Bellevue!

  2. amando os seus comentários, Cora! Comprou um lindo pashmina? são tão leves e delicados, vc vai bem conseguir usar no Rio! Ai, que saudades viajando junto com voce!!! bjs

  3. Cora,

    Gosto muito de ler suas descrições de viagem: são ótimas! Mas, realmente, acho que este canto do mundo seria o último que eu visitaria.

    Como conhecimento, me basta ler seus relatos.

  4. Tem certeza que é um dos melhor serviços? rssssssss

    se você coloca um aviso de “não perturbe” não deveriam nem passar perto do seu quarto.. a que passasse um dia inteiro, ai sim, realmente aconteceu algo rssssssss

    • Eu pensei um bocado sobre isso, e cheguei à conclusão de que é bom. Duas da tarde, em tese, todo mundo já acrdou. E se eu tivesse algum problema, era melhor que descobrissem em tempo de me levar para o hospital. Gostei da atenção.

      • Sim pela questão saúde e segurança é bom, mas pela privacidade é ruim, porém segurança e saúde ganham muito mais pontos… então com certeza é bom… nem se pode discutir.

        🙂

  5. Mumbai parece ser bem divertida…… Bollywood eh ai nao????????

    parece ser repleta de constrastes……. Voce ja foi ao museu::: Parece ser muito lindo e cheio de coisas para se ver,,,,,,, Eu tambem compraria as mesmas coisas que voce……. Estou adorando ver Mumbai!

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