Diário de bordo — Picadinho básico

O palácio Potala, única construção do Tibete que a maioria de nós reconhece em imagens, é mesmo uma beleza. Devia ser mais impressionante nos velhos tempos, quando estava cercado de casinhas miúdas; hoje fica ao lado de uma avenida larga, e de frente para uma praça de concreto, onde um monumento comemora a invasão do Tibete pelos chineses em 1959.

Com 13 andares de altura, eleva-se quase 120 metros acima do monte onde foi construído, num total de 300 metros que os pobres turistas devem escalar, joelho ou não joelho. Como todo mundo, eu também fui até o alto, até porque deixar de ver o que podia ser visto seria muito frustrante.

E o que há para ser visto? Apenas uma fração dos mil comodos e cerca de dez mil altares está disponível, mas mesmo assim o conjunto é impressionante. Os quartos mais antigos datam do século VII; em termos históricos mais recentes, vale ver os aposentos do Dalai Lama que, em tese, estão tal e qual ele os deixou.

Os quartos abrem-se um sobre o outro, numa sucessão labiríntica e, às vezes, bem cansativa. A maioria deles é mal iluminada, mas todos têm pinturas muito bonitas nas paredes.

Nada pode ser fotografado.

Entre os milhares de estátuas e objetos sagrados de todos os tipos destacam-se as stupas sagradas, que são as tumbas de oito Dalai Lamas, recobertas de ouro e de pedras preciosas.

Eu, que inocentemente imaginava o budismo como uma religião de desapego e humildade, fiquei pessimamente impressionada com tanto luxo. O Dalai Lama, originário desse sistema cruel que espoliava os pobres para cobrir de ouro meia dúzia de sacerdotes, caiu muito no meu conceito.

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Uma coisa a respeito da qual não falei: a altitude, que nos castigou durante toda a parte tibetana da viagem. Eu, que tive dor de cabeça durante dois dias, fui, felizmente, uma das pessoas menos afetadas pelo problema; outros ficaram realmente mal, com crises de tonteira e de enjôo insuportáveis. Uns poucos precisaram usar oxigênio.

O ponto mais alto que atingimos foi 5.200 metros. Eu me mexia com a velocidade de uma tartaruga e, ainda assim, sentia falta de ar.

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Nova Delhi continua uma beleza, cheia de árvores e pássaros. Ontem fui ao Kahn Market, o lugar onde mais gosto de fazer compras nessa vida, e que me foi apresentado pela Margarida na viagem passada.

O Khan Market é, para mim, a prova viva da relatividade das coisas. Quando o conheci, fiquei muito mal impressionada. Ele é um conjunto de lojas pequenas reunidas em blocos empoeirados. Não faria feio numa favela brasileira. Mas…

Pois é. Acontece que cada loja é mais sofisticada do que a outra. A biboca onde funciona a Bombay Tailors esconde um alfaite competentíssimo. A minha querida Bahri e Sons é uma livraria da pesada. A Mehra Bros vende as caixinhas e figurinhas de papier mache mais lindas do planeta. A loja de frutas tem toda a espécie de frutas, de abacates e carambolas a cerejas e mangas fora da estação, importadas sabe-se lá de onde.

Nessa loja, por sinal, trabalham dois gatos lindos, felizes e paparicados. Eles não são os únicos bichos do Khan Market. Uma quantidade de vira-latas muito sossegados divide o espaço com os humanos. Uma portentosa cadela branca dormia de patas cruzadas em frente à elegante loja da l’Ocittane; os clientes que desviassem para entrar. Por aí vai.

Quase chorei de felicidade ao rever o Khan Market. Hoje eu adoro o que ele é, e me sinto muito mais feliz percorrendo o seu espaço detonado do que o artificialíssimo chão de mármore dos shopping centers. O Khan Market é humano, e não tem pretensões à perfeição, mesmo sendo o metro quadrado mais caro de Nova Delhi.

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No momento, estou espichada na bergere azul que vocês viram na foto do meu quarto no Taj, em Mumbai. O Taj é um dos grandes hotéis do mundo e, pelo que percebi até agora, merece a fama que tem. As instalações são excelentes, mas o serviço é fora de série. Algo me diz que não terei motivos para rever esta opinião.

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18 respostas em “Diário de bordo — Picadinho básico

  1. Concordo (3). Estive um andar acima do famoso quarto de John Lennon e Yoko no Le Reina Elizabeth em Montreal e esqueci de ir ver o famoso quarto deles. A rede Fairmont está ótima e não tão cara.

  2. O.T. Os quero-queros do Estádio de Remo tiveram 4 filhotinhos…umas gracinhas, parecem uns pintinhos de tão miudinhos!

  3. Bem, não foi Dalai Lama quem fez as estupas, não é mesmo? E ele morou pouco tempo no Potala, precisou fugir ainda muito jovem do Tibete, para não ser morto pelos invasores chineses.
    Sistema cruel que espoliava os pobres? Isso é o que os chineses dizem para justificar a invasão e que matou mais de um milhão de tibetanos. E o que se vê hoje são cidadãos oprimidos e tornando-se minoria em seu próprio país, sem liberdade de expressão e de culto.
    Os templos tibetanos usam materiais simples e pouco dispendiosos, como madeira entalhada e colorida e pinturas nas paredes, além de tecidos variados e as estátuas são de bronze ou madeira.
    Sei que as expectativas costumam ser elevadas quando se trata de Tibete e budismo, mas não é justo fazermos generalizações apressadas.
    No mais, estou apreciando muito seu relato, Cora. É sempre um prazer ler seus posts.

    • Acho que os dois estão certos, tanto os tibetanos em relação aos chineses quanto os chineses em relação ao sistema feudal que existia no Tibete. Acho que o país merecia uma chance de sobreviver no mundo moderno sem uns e sem outro…

    • Seriam, com certeza. Mas o Galaxy está com o meu número brasileiro, e sairia uma fortuna mandar tudo via roaming e pacote de dados “made in Brasil”. Ao mesmo tempo, não posso transferir o simcard porque o iPhone usa aquele pequeno, e o Samsung usa o normal.

  4. Aproveita o shopping do Taj pra cortar o cabelo e tomar uma massagem muito louca no couro cabeludo, pescoço e ombros. Imperdível!

  5. é a necessidade da confirmação do eudeusamento – via a utilização de materiais nobres, como ouro e pedras preciosas. o homem e sua alma pequena.

  6. Porque não pode ser fotografado? Conservação das pinturas? que frustrante!
    Eu jamais poderei subir a 5.200m, para ver o que você viu, 4.000m foi o meu limite 😦

    Quanto ao budismo tibetano, Potala- como você sabe bem melhor do que eu- é uma espécie de Palácio do Vaticano, desta religião. E, ambas- cristianismo e budismo- pregam desapego e humildade. Mas, nada contra sua critica.

  7. Eu me lembro bem da sensação de falta de ar que voce menciona. Para quem sofre de asma e ou bronquite, a impressao que a gente tem eh que esta tendo uma crise, SO QUE sem o chiado tipico da asma ou o broncoespano tipico da Bronquite, Mas que o ar nao entra nos pulmoes , de uma maenira normal, nao entra nao. A gente jeh obrigada a se arrastar,,,,,

    E olha que voce fez uma boa aclimatização em Katmandu……. Se tivesse ido direto seria bem pior…..

    O Hotel ej maravilhoso, Tem gente que nao da a menor peteca pra hotel, Diz que vai ficar na rua o tempo todo e que so vai dormir no hotel. Eu ADORO um Hotel como esse ai…. Como durmo muito mal , preciso de todo o luxo para dorir, cons travesseiros e bons lencois, Alem disso, adoro um banheiro limpo e maravilhoso e grande, Ja efrentei muita espelunca em Malargue e ate em Mendoza, em que a gente ganhava, junto com a chave, um rodo para limpara o chao da inundação apos banho…… Alem dos quartos em que TODA a luz e força era deligada adas23 as 6, parar econimia de luz…… Foi ai que decidi me mudar para o Grand Hyatt Spa and Resort de Mendoza…..deizxando meus colaboradores nos muquifos….

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