Diário de bordo — Lhasa

A estrada entre Shigatse e Lhasa é provavelmente a mais alta do mundo e, com certeza, uma das mais impressionantes . Ela corta a cordilheira do Himalaia e, ao longo do caminho, passa por um deserto dourado, cercado de picos nevados. Há pontos estratégicos de onde se pode ver o Everest, ora de um lado ora de outro; a cada um deles, milhares de bandeirinhas coloridas tremulam orações ao vento.

Aqui e ali, perdidas na vastidão e desafiando a compreensão de bípedes metropolitanos, pequenas aldeias de umas poucas centenas de habitantes.

Essas pessoas das montanhas são pequenas, bonitas e conservadoras — as mulheres ainda se vestem à maneira tradicional, com saias compridas e aventais listados, e a maioria dos homens ainda usa o casaco vestido num braço só (em Lhasa, os mais jovens já se vestem de jeans, e usam cabelos pintados, como os jovens do mundo inteiro).

Todas, sem exceção, entoam o mesmo mantra — “money, money, money” — acompanhado do clássico gesto de dedos esfregados, para dirimir dúvidas.

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Lhasa é uma surpresa. Quem esperava uma pequena cidade perdida no Himalaia encontra uma cidade grande, moderna, muito limpa. Cada poste tem seu painel de energia solar, e não passa pela cabeça de ninguém danificar postes ou painéis, como, imagino, aconteceria em certa cidade ao Sul do Equador.

Como nas outras cidades que visitamos no Tibete, também em Lhasa a maioria dos letreiros é em chinês. Há muita polícia nas ruas e, em torno do palácio Potala, antiga residência do Dalai Lama, câmeras bastante ostensivas vigiam o movimento de turistas e peregrinos.

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Antigamente, em frente ao Potala, havia uma pequena aldeia cheia de árvores e ruas estreitas. A aldeia foi destruída pelos chineses, que construíram no local uma imensa praça, detestada pelos tibetanos. Esta, aliás, foi uma das poucas informações que consegui diretamente de um nativo: a repressão chinesa é dura e ninguém quer correr riscos.

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O hotel Tibet Minzu é um imponente cinco estrelas, cheio de mármores e dourados, inaugurado há dois anos e administrado por um grupo de chineses jovens e pouco experientes no trato com ocidentais. A maior parte do movimento é de turistas chineses, o que significa que coisas relativamente simples, como pedir um café ou a conta, podem se transformar em grandes complicações.

Até o cartão que a gerência gentilmente oferece aos hóspedes para evitar que se percam, e onde se lê “Por favor leve-me ao hotel Tibet Minzu”, não ajuda muito. É que ele vem em chinês e inglês, e os motoristas de taxi, em geral tibetanos, não conseguem entendê-lo.

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Esqueçam tudo o que eu disse a respeito da comida!

Depois de dois dias, ninguém aguenta mais o cheiro de manteiga de iaque, presente não só na comida, como em todos os templos, onde queima diante das estátuas. Essa manteiga é uma coisa amarela cortada em grandes blocos que, de longe, lembram queijo prato.

Só de longe.

Um dos nossos descobriu um café ocidental em pleno centro de Lhasa, o Summit Coffee, que imediatamente virou a Meca do grupo inteiro. Café com gosto de café! Pães e bolos variados! Pizza feita com muzzarela importada!

Pois foi nesse amável cantinho, que copia sem complexos os cafés da rede Starbucks, que aprendi uma nova lição tibetana, desta vez sobre a relatividade das coisas. Pedi um calzone que ficou tempo demais no micro-ondas, acabou borrachudo e, no Brasil, teria sido devolvido à primeira dentada: pois em Lhasa ele foi devorado como um manjar dos deuses, e ainda virou alvo da inveja geral, pois era o último da casa.

Vivendo (viajando) e aprendendo.

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O famoso chá tibetano, feito com chá, manteiga de iaque e sal, parece mais uma sopa do que um chá. Muito esquisito!

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Alguns preços:

Um calzone — 22 Yuan

Seis nuggets de frango — 12 Yuan

Uma pulseirinha de contas — 20 Yuan

Uma calça comprida de bicho grilo — 70 Yuan

Uma corrida de taxi entre o centro e o hotel — Qualquer coisa entre 10 e 50 Yuan, de acordo com a cara do freguês

Uma água mineral — 5 Yuan

Um chá — 3 Yuan

Um chá no hotel Tibet Minzu — 38 Yuan

Um saquinho de mandiopan de camarão — 7 Yuan

Para obter o preço em reais, basta dividir o preço em Yuan por 3.

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17 respostas em “Diário de bordo — Lhasa

  1. Que pena os chineses terem destruído a aldeia em frente ao Potala.Estão destruindo a cultura local, a começar pela língua tibetana.

  2. Muito Bom Mesmo!!! Adorei o relato…………. Imagino que a comida do restaurante nao seja la grandes coisas,,,,,,,,, Estamos amando seus relatos!!!

  3. Tudo baratim…voce está escrevendo um livro não é? Isso é um livro não é? Pelo amor de Deus…que seja. Vá guardando pedaços extras, não revele tudo. É um livro lindo com suas fotos e esses relatos, estou amando. podia ser tb uma aplicação porque como você atualiza muito teria sempre coisa nova pra ver. Beijos!!!

  4. Cora, uma viagem dessas, só mesmo em grupo. Puxa vida, atravessar as barreiras culturais é mais aventura que a geografia em si!

  5. Cora, tem fotos da estrada de Lhasa? em Lhasa tem cãezinhos Lhasa Apso?

    e agora uma observação pessoal. sei que é indecente e incorreto mas é o que sinto no fundo da minh´alma. se as baratas virassem gente acho que teriam civilização semelhante. os chineses me lembram baratas.

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