Diário de bordo — Tédio em Chiangse

O ser humano que tecla sozinho num lobby de hotel é um ser solitário. A situação se agrava se o hotel é o Chiangse, situado na província de mesmo nome. Falo de cadeira — bem desconfortável, por sinal. A chegada de quatro brasileiros desgarrados a este fim-de-mundo foi quase uma festa. Este é o primeiro momento de tédio desde que comecei a viagem.

Ontem paramos em Shigatse, a segunda maior cidade do Tibete. Não descobri ainda que posto ocupa Chiangse, mas a cidade, com avenidas largas e lojas padronizadas, parece um entreposto fantasma. Tirando o mosteiro que visitamos pela manhã, não tem nada para se ver, e menos ainda para se fazer.

Para o viajante que chega de fora, tudo parece muito normal nessas cidades, e não se percebe a inquietação que, sabemos, ferve nos subterrâneos do país dominado. Prestando um pouco de atenção, porém, os sinais da ocupação — para além da internet censurada — são óbvios. A moeda é o Yuan, com a indefectível fuça do Grande Timoneiro estampada. Há check points nas estradas, e muita polícia; os militares são sempre chineses. Além disso, os letreiros de todas as lojas estão em chinês. Só umas poucas trazem caracteres tibetanos, ainda assim sempre menores do que os ideogramas chineses. Nos hotéis, não há letreiros nem material impresso em tibetano. Tenho que perguntar ao guia se os funcionários pelo menos entendem a língua, mas imagino a resposta: hoje há mais chineses Han vivendo no Tibete do que tibetanos propriamente ditos. Desde que a estrada de ferro Pequim — Lhasa foi inaugurada, cerca de três mil chineses chegam por dia à cidade, em busca de oportunidades de emprego.

Paradoxalmente, a ocupação chinesa se nota também pela relativa prosperidade. As estradas estão bem conservadas, as construções são decentes e há ordem no país, especialmente quando se compara a situação daqui ao caos do vizinho Nepal.

o O o

Almoçamos e jantamos no Chiangse Kitchen, um restaurante “ocidental” recomendado pelo Lonely Planet. Tudo é feito na hora, inclusive a pizza (a partir da massa), mas tudo tem o indefectível gosto da manteiga de iaque, que sabe levemente a sabão. Aliás, manteiga de iaque não existe. A manteiga é de leite de dee, a fêmea do iaque.

No restaurante trabalha um simpaticíssimo gatão tigrado, muito mansinho e mal acostumado, que desprezou os pedacinhos de comida que ofereci.

o O o

Internet, na cidade, só em duas lan-houses sebosas e inabitáveis, onde rapazes chineses jogam video-games e fumam feito chaminés. Descobri que sou menos viciada em conexão do que imaginava: precisaria piorar muito para encarar este ambiente.

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16 respostas em “Diário de bordo — Tédio em Chiangse

  1. Hora de praticar o desapego e aproveitar umas horas em off. A gente não precisa estar fazendo coisas e nem estar conectado ininterruptamente.
    Acho que vou fazer uma mochila e voar praí.

  2. Caramba, Chiangse deve ser de cortar os pulsos: se a Cora (que tem a admirável capacidade de ‘tirar leite de pedra’) acha um tédio…

    lan-houses sebosas e inabitáveis” só mesmo para viciados irremediados

    falando em leite: de acordo com a Wikipedia – Yak: the female being called a dri or nak

    falando em manteiga: não devemos confundir com Ghee (manteiga clarificada); a nossa ‘manteiga de garrafa

    E, finalmente, tampouco aqui existe ‘mussarela de búfalo’; o que existe é ‘mussarela de búfala’ 😉

  3. Dependendo do estado de espírito, lugares tediosos não raramente me fascinam…temporariamente, bem entendido. Afinal, cemitérios desertos também me atraem, desde que tenham muitas lápides para eu ler!

  4. Acompanhar essa viagem sua, corinha, me ajuda a saber onde não pretendo ir nos próximos anos, pelo menos, porque acho que não tenho mais estrutura física para esse tipo de aventura, e admiro seu espírito aventureiro, espantoso ::)
    beijo, volte renovada e feliz,
    vera

  5. Nem acredito que vc está entediada!! rsrs
    Mas tenho certeza que em um segundo já não está mais, já eu…

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