Diário de bordo 6

O Tibete é uma terra espiritual onde os viajantes aprendem humildade antes de tudo. A primeira lição é que não se pode ter tudo, e as aulas são sabiamente ministradas nos hotéis onde nos hospedamos: um tem wi-fi, mas pouco mais que isso; o segundo tem água, mas não tem aquecimento; o terceiro tem aquecimento mas não tem água. Quando fiz contato pela última vez, estava no primeiro, um pequeno albergue a duzentos metros (e quatro ladeiras) do segundo, onde estava hospedada. Passeando pela cidade, vi o sinal de wi-fi e implorei por cinco minutos de conexão, que me foram depois de muita insistência cedidos ao preço módico de 5 yuan.

Como já contei, foi impossível acessar o blog. O padrão continua o mesmo da época em que visitei Xangai — não é proibido postar, até porque proibir a circulação de emails seria muito difícil, e hoje essa é uma forma corriqueira de publicação — mas o acesso a Blogspot, WordPress e outros sites de hospedagem é sumariamente vetado.

Os dois hotéis em que nos hospedamos até agora são do governo chinês. Ambos parecem caricaturas dos grandes hotéis cosmopolitas: as luzes se ligam e desligam no painel das camas, que têm cabeceira estofada e ficam de frente para conjuntos de comoda e escrivaninha onde há uma televisão. No banheiro, farta distribuição de pentes, escovas de dentes, shampoo, espuma de banho e até camisinhas. A qualidade de tudo, no entanto, é qualquer nota — e quando digo “tudo” é tudo mesmo, da construção aos sabonetes. Abundam em supérfluos, e carecem do essencial.

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Não consigo deixar de pensar no comitê de burocratas do Partido fazendo dever de casa em hotéis 5 estrelas em Londres, Paris e Nova York e, na sequência, escrevendo as instruções para a província. E, ça va sans dire, voltando a intervalos regulares aos grandes hotéis para temporadas de atualização.

Ninotchka puro.

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Os restaurantes, ao contrário, têm sido ótimos. A aparência nem sempre é das melhores, supérfluos como garfo e faca não são comuns, mas a comida é invariavelmente fresquinha e gostosa. No Nepal comiamos um misto de chinês e indiano light, e aqui no Tibete comemos a comida local, muito parecida com a chinesa. Há uma variedade de vegetais e de carnes picadinhas no meio das verduras ou do macarrão, sopas, batatinhas e arroz, muito arroz: sempre sem sal, no estilo “unidos venceremos”.

Numa viagem como a que estamos fazendo, porém, detalhes como a incompetência dos hotéis são irrelevantes — até porque ninguém espera encontrar um verdadeiro 5 estrelas no interior do Tibete. Entre Zhangmou e * * *, atravessamos uma das paisagens mais deslumbrantes do planeta, e vimos o Monte Everest de perto — tão de perto, aliás, que nem parecia muito alto. Pudera: estavamos a mais de cinco mil metros de altitude, nas verdadeiras montanhas da lua. Aonde a vista alcançava, terra e pedras douradas, enfeitadas aqui e ali pela neve.

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Uma boa estrada corta essa imensidão, mas mais impressionante do que ela é o fato de pessoas viverem na terra inóspita. O ar é rarefeito, o frio é penetrante e o vento enlouquecedor (acertei nos adjetivos?) mas pequenas aldeias de agricultores e pastores brotam do nada. Não descobri o que os agricultores cultivam, e não faço idéia do que alimenta as cabras e o gado — animais miúdos, de pelo mais ou menos longo, muito engraçadinho.

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Vocês talvez tenham reparado que tenho usado, continuamente, a primeira pessoa do plural. O motivo não é uma queda súbita pelo plural majestático; é que estou fazendo uma expedição fotográfica da Imagens e Aventuras, e somos mesmo vários, na verdade muitos entre guias, fotógrafos e simpatizantes. Nosso comboio tem nove carros 4 x 4 e fica lindo atravessando a imensidão da cordilheira.

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Vi iaques! São grandes, lindos e peludíssimos, com carinhas mansas e simpáticas. Vontade de levar um filhote para casa…

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29 respostas em “Diário de bordo 6

  1. Cora,vc e´de longe ,a pessoa mais corajosa que eu conheci até agora.
    Ok,tem umas pessoas que eu conheco que sao corajosas tb e vao pra cada canto desse mundo,mas elas sao pessoas completamente diferentes de vc.Vc e´ímpar na sua inquietude e aventurice.Nao tem como nao te amar ou nao querer estar perto.

  2. Que delícia de post! Adorei o ar é rarefeito, o frio é penetrante e o vento enlouquecedor .
    Essa sua viagem é uma sorte maravilhosa, aventura inesquecível, tesouro inestimável!
    bjos
    BP

  3. Deve estar legal essa viagem \o/

    viajar de comboio é legal.. todo mundo se ajudando… fora que se conhece mta gente.

    boas férias =D

  4. nossa intrépida aventureira, fazendo jus ao adjetivo, certamente não trepida

    mas acho que tem tiritado… 🙂

    ps: “Ninotchka” 😀 😀 😀

  5. acho que tem uma comida típica, chá com manteiga de iaque e mais um punhado de cereal, é o que comem nas montanhas

  6. Cora, adorei ler os seus textos.Impossivel nao embarcar na viagem com voce.As fotos estao lindas. Aproveite bastante!

  7. Adorei o texto com todas informações!
    Só fiquei um pouquinho preocupada com seu amor pelos iaques…
    Ver os iaques é bacana, só não pode ver os ietis, nem, tampouco, querer trazer para casa!rsrsrsr

  8. Que Bom que tudo esta bem e voce esta adorando!!!!!!! Ficamos felizes aqui com o sucesso de seu passeio….. Imagino as fotos que esta tirando!!!! Estamos aqui seguindo voce e vendo o Tibet atraves de seu olhar!!!!

  9. um grande prazer “te acompanhar” em mais esta viagem! te admiro muito e aprendo um pouquinho com tudo isso que vc vive tão natural e lindamente!

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