Steve Jobs

Ouvimos falar muito de Steve Jobs nos últimos dias, e ainda ouviremos muito, com certeza, pelo resto das nossas vidas. Ele foi um dos grandes gênios do nosso tempo, e teve a sorte de ser reconhecido como tal desde jovem. Mas nós compartilhamos essa sorte: há poucas coisas tão empolgantes quanto ver um gênio verdadeiro em ação, e várias gerações de usuários podem se gabar, hoje, de terem sido testemunhas oculares da História.

Assisti a algumas de suas apresentações. Para quem vinha do mundo PC, a recepção de astro de rock que recebia assim que pisava no palco era algo estranho e vagamente constrangedor; mas o culto a Jobs sempre fez parte da cultura Apple, e foi, aliás, muito bem capitalizado pela empresa.

Em 2002, durante o lançamento de um lindo modelo do iMac, que depois ficou conhecido como “abajour” por causa da semelhança com o Lux Junior (o mascote da Pixar), encontrei-o por acaso ao lado de um stand da MacWorld. Estava sozinho, olhando o movimento à sua volta. Aproximei-me dele, me apresentei e conversamos durante alguns minutos. Steve Jobs foi afável e gentil, e respondeu às perguntas que fiz até que outras pessoas descobriram que ele estava lá.

Acompanhei-o ainda por um bom tempo na companhia dos outros. Percorreu conosco uma parte do estande mostrando e explicando o computador recém-lançado. Foi paciente com todos, respondeu a várias outras perguntas e considerações. Estava obviamente feliz naquele papel, e com a atenção despertada pelo novo produto.

♦ ♦ ♦ ♦

Devemos a Jobs muita coisa além da Apple e da Pixar: cada vez que usamos um tablet, estamos usando uma idéia que ele tornou popular; cada vez que usamos um smartphone, lá estão traços do iPhone que todos tentaram copiar.

Na verdade, cada vez que usamos um computador, por PC que seja, muito do que Jobs imaginava que deveria ser um computador está embutido naquela máquina.

Não se fazem mais computadores como antigamente porque Steve Jobs nunca aceitou a forma antiga de se fazer nada — nem os próprios produtos da Apple.

Para quem viveu essa renovação constante, nem sempre isso foi uma boa notícia. Há muitas máquinas da Apple que encheram os olhos e que, afinal, deixaram a desejar em termos de uso. De modo geral, aliás, sempre achei que a empresa pecava exatamente por isso, por sacrificar a função em favor da forma; mas esses “pecados” foram essenciais para o desenvolvimento da indústria e, sobretudo, para a educação estética dos usuários.

Jobs mudou radicalmente a forma como trabalhamos, como nos comunicamos e como nos divertimos. Como li num post do Twitter – e como, mais tarde, o próprio presidente Obama lembrou — a notícia da sua morte foi conhecida, divulgada e comentada em aparelhos concebidos por ele.

Não poderia haver homenagem melhor ou mais apropriada.

(O Globo, Economia, 8.10.2011)

19 respostas em “Steve Jobs

  1. É tanto lugar chamando Jobs de inventor (o que é uma enorme mentira insuflada pela mídia), que tenho me controlado para não perder o respeito por ele.

  2. Júlio Mariano, a “pose” talvez seja muito menos importante que os resultados. Talvez porque a discordância — a “birra”, como a chamo — é recorrente. Por meu lado, descarto as broncas e me sirvo muito bem de produtos de hardware e software eficientes, confiáveis e menos “frágeis” que os concorrentes.

  3. Sei lá… Sempre torci o nariz para esse nariz-em-pé dos aficcionados do Macintoch. Acho que Jobs tinha uma mentalidade estritamente capitalista e uma filosofia elitista de marketing. Sua motivação para criar parecia ser muito mais municiar uma elite privilegiada do que oferecer soluções para o resto da humanidade.
    Minha bronca é porque essa postura se opõe frontalmente ao desprendimento idealizado pelos desenvolvedores iniciais da internet (o pessoal do movimento GNU, do software livre, Linux, etc.), que sempre inovaram visando a democratização do conhecimento através da informação.
    O cartunista Zope também comenta na contra-mão: http://a1.sphotos.ak.fbcdn.net/hphotos-ak-ash4/298713_260192104024442_100001009640916_727563_204998750_n.jpg

  4. Aquela maçã mordida… Steve foi fundo no fruto da árvore do conhecimento. Essa morte me dá medo.
    Se o paraíso não foi aqui, que ele esteja bem agora sem pensar em contagem de tempo algum. Que o Nada ou a Eternidade tenham formas suaves, leves e arredondadas.
    Pode me ouvir, Steve?!

  5. Steve com seus produtos me fez e faz sentir um a aposentada e avó participante da modernidade. Ele diminuiu a distância de comunicação entre a minha geração e a do meu neto.Estou,toda feliz, digitando no meu Ipad.Obrigada Steve e conto com vc para melhor a comunicação entre a nossa dimensão e a q vc está agora.

  6. Perfeito, Corinha!

    Dentro do clima hagiográfico reinante, gostei do que escreveu Mike Daisey, para o NY Times:

    “Because of its enormous strength in both music sales and mobile devices, Apple has more power than at any time in its history, and it is using that power to make the computing experience of its users less free, more locked down and more tightly regulated than ever before. All of Apple’s iDevices — the iPod, iPhone and iPad — use operating systems that deny the user access to their workings. Users cannot install programs themselves; they are downloaded from Apple’s servers, which Apple controls and curates, choosing at its whim what can and can’t be distributed, and where anything can be censored with little or no explanation.

    The Steve Jobs who founded Apple as an anarchic company promoting the message of freedom, whose first projects with Stephen Wozniak were pirate boxes and computers with open schematics, would be taken aback by the future that Apple is forging. Today there is no tech company that looks more like the Big Brother from Apple’s iconic 1984 commercial than Apple itself, a testament to how quickly power can corrupt.”

    NY Times: Steve Jobs, Enemy of Nostalgia

    • Estou no clima hagiográfico de louvar Santo Steve, padroeiro da Apple e da Hungria de Cora. De início, achei meio blasfemas as palavras do Mike Daisey, aí fui catar o cara pelo google: é autor/ator de famosos monólogos teatrais sobre a realidade/ficção americana atual. Se apresenta desde 2010, para lotações esgotadas, com ‘The Agony and the Ecstasy of Steve Jobs’. Mostra o Steve que todos amam e também o que fabrica maravilhas com trabalho infantil na China. Nosso Steve deve estar é no purgatório…

    • Mas esses produtos devem/precisam ser abertos assim ? Minha tv não é, meu som não é, meu videogame também não. Talvez eu gostasse deles abertos, mas não sei se escolheria um modelo por causa disso.

      • Questão de gosto. Prefiro poder ‘Abrir o Capô’ e mexer no motor. TV? Som?

        Minhas TVs e DVD-players sempre foram foram escolhidos justamente para me permitirem assistir filmes de qqr procedência (PAL-M, PAL-G/N, NTSC; DVDs de todas as regiões), são ‘abertos’, sem restrições diversas…

        Qdo escolhi um PMP (Portable Media Player, o ‘Walkman’ digital), eu tinha uma certeza: iPod de jeito nenhum! Pois não queria ser obrigado a fazer a sincronização sob a tutela do iTunes, acho um abuso ter que fornecer meu cartão de crédito a priori e, finalmente, ter que me submeter aos formatos de arquivo permitidos e monitorados pela Apple.

        Escolhi finalmente o excelente Archos, que basta plugar na porta USB de qqr computador que é ‘visto’ como um HD externo, para o qual posso arrastar ‘Drag & Drop’ arquivos de Imagens, Vídeos e Áudio de tudo quanto é formato, ou — se quiser, mas não é necessário — utilizar qqr Media Manager (seja o Windows Media Player, ou o excelente MediaMonkey, ou etc) à vontade. Totalmente ‘aberto’

        Minha TV, meu sistema Áudio/Vídeo, meu PMP, meu computador foram escolhidos por serem… abertos (não tenho videogame)

        Questão de gosto. Prefiro aberto, ou que eu possa abrir.

        Se vc está satisfeito com sua TV PAL-M, seu DVD-Player Reg.4 e às restrições impostas pela Apple, tb está no seu direito.

        Contanto que eu tenha a opção de não me sujeitar a isso

  7. Seria muito bom que houvesse pessoas criativas , brilhantes e idealistas –como ele– que se dedicassem apaixonadamente às ciências médica e farmacêutica : daí, talvez, se conseguissem vencer as barreiras das “forças ocultas” que impedem o avanço de pesquisas ou mesmo a divulgação de possíveis curas,mesmo para quadros tido como perdidos, como foi o dele.

    Imagino o seu prazer por tê-lo conhecido pessoalmente, Cora, e privado de um encontro que jamais será esquecido…

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