Lição de segurança

Escrevo sobre tecnologia – aquilo que antigamente chamávamos de informática – há exatos 25 anos. Um quarto de século bem contado, com a agravante de ter começado no milênio passado. Já era para ter aprendido a Lei Número Um do setor: o maior problema dos computadores é o bug gigante que senta na frente do teclado. Também já era para ter aprendido que o pior erro que podemos cometer (e não só nessa área!) é o excesso de autoconfiança. Pois essa semana, para me por no meu devido lugar, os deuses da computação me deram uma lição.

Começo do começo. Há muito tempo aboli dos meus procedimentos de segurança rotineiros o hábito saudável de não apagar os arquivos dos cartões de memória das câmeras; ao contrário, quando os copio para o computador (usando o Picasa) marco a opção “Excluir todo o conteúdo do cartão”. Por que viver tão perigosamente? No fundo, por preguiça. Tiro muito mais fotos do que aproveito: é normal passar mais de cem imagens para a máquina, das quais, depois de uma edição básica, sobram não mais que vinte. Nos tempos em que eu era uma senhora prudente, e conservava os arquivos no cartão até segunda ordem, o Picasa ignorava os meus esforços de desapego e copiava novamente para o computador todas as imagens que eu havia jogado fora na edição. Isso me aconteceu suficientes vezes para que eu adotasse a medida radical de limpar tudo do cartão a cada transferência de arquivos.

Eu sei, eu sei – há muitas maneiras de se transferir apenas as fotos que queremos para os diretórios. Também é possível limpar o cartão depois de verificar que todos os arquivos foram copiados sem problemas. Mas, como tanta gente, eu também gosto de soluções rápidas, imediatas, que não me dêem muito trabalho. Além disso, na maioria dos casos, as fotos dos meus cartões ou são fotos dos gatos ou dos meus passeios pela Lagoa, vale dizer  nada muito importante. É claro que, com o material de viagem, costumo ser mais cuidadosa.

Pois eis que fui à Vila Cruzeiro, há alguns dias, e fiz umas tantas fotos, importantes porque delas dependia a ilustração da crônica de quinta-feira. Na hora de transferi-las, caí na besteira de dar o comando de sempre: “Excluir todo o conteúdo do cartão”. O Picasa, prudentemente, me perguntou se eu tinha certeza do que estava fazendo; e, sem pensar – ou talvez pensando, mas me achando acima dos perrengues da vida tecnológica – disse que sim.

Bom. Entre o clique fatídico que dei nessa resposta, e o ato de transferência dos arquivos, um inseto começou a esvoaçar ao redor da lâmpada. Um dos meus gatos, que estava aparentemente adormecido em cima da escrivaninha, acordou de um salto, e pulou para pegar o dito inseto. No caminho, pisou numa tecla qualquer que interrompeu o trabalho do Picasa. Resultado: uma única foto copiada, e todas as demais sumidas no espaço.

Antes de brigar com o Toró ou de bater a cabeça na parede por causa da enorme besteira que tinha feito, fui atrás de um software que me salvou a vida quando um dos meus HDs faleceu inesperadamente. Ele chama-se “Get data back”, e faz o que o nome promete – recupera dados. Da época em que precisei dele para cá passaram-se uns dois, três anos; mudei de máquina, de sistema operacional e de discos rígidos. Numa dessas mudanças, ele deve ter acabado esquecido, pois não o encontrei mais. Resumo da história: o pulo do gato me custou R$ 145,52. Como da vez anterior, o “Get Data Back” funcionou a contento, e recuperou quase todo o conteúdo do cartão, inclusive fotos que já haviam sido apagadas há meses.

Como muitos dos programas de recuperação de dados, o “Get Data Back” permite que o usuário veja os arquivos que foi capaz de recuperar sem exigir pagamento; ativar a opção “copiar”, porém, requer o desembolso de US$ 79. É uma licença cara, mas, pelos resultados oferecidos, vale o investimento. Ao contrário de outros programas parecidos que experimentei, ele mantém a estrutura de diretórios e subdiretórios, o que nem era tão importante no caso do meu cartão, mas que é fundamental na recuperação de um disco com músicas, vídeos, fotos, documentos.

Hoje há tantos softwares de recuperação de dados que é virtualmente impossível saber qual é o melhor. Optei por usar o “Get Data Back” porque, apesar do preço alto, já tinha tido uma experiência muito positiva com ele, e não me senti tentada a viver aventuras desconhecidas diante do prazo de fechamento da coluna.

Para terminar, qual é a moral da história? Simples: Nunca, jamais, opte por apagar o conteúdo de um cartão ou de um pendrive antes de se certificar que os dados foram transferidos a contento para o computador…

(O Globo, Economia, 14.7.2012)