O assunto da semana entre as minhas amigas protetoras de animais foi a inauguração do gatil da prefeitura. Elas, porém, não estão nada satisfeitas, e têm sérias críticas ao projeto, a começar pela sua própria existência: a tendência mundial, hoje, é deixar as colônias de animais em seus locais de origem, controlando-as através de esterilização e fiscalização, para evitar o abandono de novos bichos na área. Outra crítica contundente diz respeito ao local, perto demais do sambódromo para garantir o sossego de que os bichinhos precisam, já que, durante o carnaval, os fogos dos desfiles vão deixar todos em pânico. Finalmente, há uma completa falta de confiança na prefeitura, que todas, sem exceção, julgam incapaz de cuidar dos animais como prometido.
Devo dizer que eu também não confio na competência da prefeitura, mas creio que é importante darmos um crédito de confiança aos nossos funcionários. Posso estar sendo excessivamente otimista, mas acho que partir do princípio de que nada vai funcionar, e que nada será feito com um mínimo de acerto, é jogar a toalha cedo demais.
A localização do gatil não é perfeita, mas o Campo de Santana, ao lado de um quartel dos bombeiros, também não é exatamente silencioso, e é péssimo para os gatos, que sofrem as piores violências nas mãos dos tipos sinistros que frequentam o espaço. O gatil é cercado, não é área de passagem, e tem guarita na porta. Nada disso vai desestimular ladrões profissionais de olho nos equipamentos, mas deve manter afastados os malfeitores que torturam e matam animais por esporte e/ou falta do que fazer. Em suma, acabarão os crimes de oportunidade.
Ao mesmo tempo, acho que, ao levar para lá os gatinhos do Campo, a prefeitura assume uma responsabilidade efetiva da qual não poderá fugir. Ao não zelar pelos felinos nas muitas colônias da cidade, a Secretaria especial de proteção e defesa dos animais (Sepda) pode alegar falta de gente, de recursos e de conhecimento das condições do local; nada disso será possível no Gatil São Francisco de Assis, onde cada gato será conhecido dos tratadores e dos veterinários. Além disso, a sua localização central permite que a sociedade fiscalize melhor o trabalho da secretaria. A minha torcida é para que a prefeitura aproveite essa chance e transforme o gatil num bom exemplo de trabalho, como os bichinhos merecem. Se não fizer isso, estará se passando o maior atestado de incompetência possível: afinal, um prefeito de megalópole incapaz de cuidar do bem estar de 300 gatos pingados é incapaz de qualquer coisa, e não merece nem consideração nem votos.
o O o
O que dizem as protetoras? Lilian Queiroz, da Ong Oito Vidas, está convencida de que não adianta remover colônias, ainda mais sem conhecer os gatos.
– Só quem já fez mudança de gatos sabe bem o que é. Eles brigam entre si, ficam totalmente desesperados, se machucam, os machucados dão bicheira, é um caos. A prefeitura não tem nenhum know-how para fazer esse tipo de mudança. Além disso, gatos de rua sobem aquelas grades brincando, e vão ser atropelados ali.
Lilian tem verdadeiro horror de abrigos públicos:
– Quando muda o governo não há comida, porque não tem como fazer licitação dos pedidos de ração. Já vi esse filme. Quantas vezes mandei ração para o CCZ, para os bichos não morrerem de fome! Um governante não continua o que o outro faz. Basta um corte na verba, e os animais ficam à mingua… Que façam um posto de castração com gaiolas para pós operatório, mas remover gatos de colônia realmente não funciona, estressa os gatos e, pior, a colônia em pouquíssimo tempo volta a se formar. A ignorância e abandono não saem junto com os gatos.
Ana Yates, um dos nomes mais respeitados da proteção animal no Rio, também não confia na prefeitura. Ela destaca a necessidade básica de uma infraestrutura de manutenção do gatil, com planejamento, orçamento, disponibilidade e comprometimento de verbas: uma série de medidas, em suma, que manteriam a integridade física e emocional dos bichanos.
– Quais as necessidades básicas, qual a infraestrutura mínima necessária que um abrigo precisa ter para garantir a integridade dos animais, e para que o local não se torne um campo de extermínio “natural”? Até os gatis criados e mantidos por protetores idôneos de animais, bem intencionados e com folga de verba, falem e submetem os animais a doenças infectocontagiosas, sofrimento e consequentes óbitos em massa. A Sepda tem doze anos de existência e continua — por falta de vontade política e comprometimento honesto dos políticos — uma secretaria “especial”, sem verba própria, sem planejamento, sem objetivos especificados. O chamado “centro de triagem” na Fazenda Modelo é mantido precariamente, não há pessoal capacitado para manuseio e trato dos animais, não há assistência veterinária consistente, não há medicamentos, sequer vacinas, a ração é de péssima qualidade e por aí vai. Como podemos esperar algo melhor para o tal gatil para os gatos do Campo de Santana – que, não nos iludamos, servirá para aprisionar outras colônias que o Parques e Jardins, Administrador do CASS ou outros amigos do Prefeito considerem inoportunas para Olimpíadas, Copa ou outras alegações? Bem, podem revestir todo esse “gatil” da prefeitura em ouro, porém, repito, o que manterá os animais sadios e vivos é a estrutura de manutenção!
(O Globo, Segundo Caderno, 5.7.2012)
