A vida online

 

Já disse isso algumas vezes, como sabem os meus proverbiais 17 leitores, e repito, mesmo correndo o risco de me tornar repetitiva: amo a internet. Muito. De paixão. Fico indignada quando a xingam e quando lhe atribuem males dos quais não é culpada. Se o lado ruim dos seres humanos se manifesta sem máscara online, o reverso é ainda mais verdadeiro. A rede nos permite ajudar pessoas distantes e acompanhar incontáveis boas ações pelo mundo afora.

No último dia 20 encerrou-se a campanha para levantar fundos para a inspetora de ônibus escolar Karen Klein, de Nova York, que foi humilhada por um bando de adolescentes cruéis. O bullying, postado por um dos bullies sem noção, revoltou a quem o assistiu, e levou Max Sidorov, do Canadá, a abrir uma página propondo a criação do fundo para que ela pudesse tirar férias daqueles garotos horríveis. Pois a campanha foi muito além do que qualquer um pudesse imaginar, e fechou em US$ 703.873 – o suficiente para que Karen, que aos 68 anos ganha pouco mais de US$ 15 mil anuais, possa, finalmente, se aposentar.

Se não fosse pela internet, o bullying sofrido pela inspetora teria ficado por isso mesmo; os bullies não teriam tido nenhum castigo; e as 32.271 pessoas que contribuíram para o fundo não teriam a satisfação de poder ajudar a uma velha senhora injustiçada. Mais importante ainda foi, certamente, a repercussão do episódio, que faz com que outros jovens cretinos pensem duas vezes antes de tripudiar dos outros.

Já no dia 23 registrou-se o primeiro ano da morte de Rachel Beckwith, uma menina de Seattle que, pouco antes do seu nono aniversário, criou uma página pedindo a amigos e parentes que não lhe comprassem presentes, mas, em vez disso, contribuíssem com a ONG charity:water, que leva água potável a comunidades de países em desenvolvimento (história completa em bit.ly/PF7ynd).

O objetivo de Rachel era conseguir US$ 300, para ajudar 15 pessoas. Ela conseguiu US$ 220. Cerca de um mês depois do aniversário, Rachel foi vítima de um acidente de trânsito. Nas notícias sobre sua morte, a página para a charity:water foi mencionada. A história se espalhou pela internet. Resultado: 31.997 doações, totalizando US$ 1.265.823, que beneficiaram, até agora, mais de 63 mil pessoas em 149 comunidades no norte da Etiópia.

A mãe de Rachel, Samantha, continua a campanha, agora em nome da outra filha, Sienna, que faz três anos no dia 22 de agosto. Seu objetivo é levantar US$ 90 mil. Acabo de olhar a página e, até agora, ela já conseguiu US$ 18.399.

Perguntei ainda agora, no Twitter, como vivíamos sem a internet.

‏@marco_azambuja: Aquilo era vida?

@rizzomiranda: Ué!?? A gente vivia? :) )

‏@Mendelski: Lendo mais, conversando mais com as pessoas próximas?

‏@pepecapacia: Jogávamos cartas, brinquedos da Estrela, visitávamos mais os amigos… essas coisas, que deixam saudades!

‏‏@arthurstorino: Acho que não vivíamos…

@Panelaterapia: #Enciclopediafeelings

‏@donalilian: Para receitas: vivíamos das costas da embalagem de creme de leite. :-P

‏@CindyValerious: Indo à biblioteca, usando o correio, lendo livros, usando o telefone, visitando os amigos. Hoje ninguém mais sabe fazer isso.

‏@adrianahora: Nós VIVIAMOS! rs

@kibeloco: Melhor?

@carolsimoes: Quando terminei a faculdade, em 2005, não tinha Youtube! Perdi registros de todas as entrevistas que fiz. A vida c/ web é mais legal.

‏@joseanibal_7: Certamente vivíamos um pouco pior… Hoje temos o mundo ao nosso alcance, on line e on time… Sensacional!

‏@MiriamGMendes: Diria que vivíamos menos estressados. Se por conta da ausência da avalanche de informações, não sei. Eram tempos mais calmos.

‏@codhec: Você ficava duas horas na fila do banco…

‏@zelblog: Com mais tempo livre.

‏@samegui: Mas acho que gastávamos este tempo livre ligando ou escrevendo pra amigos e procurando notícias.

Simocca ‏@Simocca37

@Simocca37: Não podemos e não devemos comparar as épocas. Ambas são especiais para quem continua vivendo…

As ilustrações vêm do Instagram: são desenhos de @ashley_623, de Beijing, China, para o Draw Something.

(O Globo, Economia, 28.7.2012)

Matilda e os cigarros

Não conheço a minha comadre Matilda Penna em pessoa. Faz tempo que não vou a Salvador, onde ela mora, e faz tempo que ela não vem ao Rio, onde moro eu. Nós nos conhecemos de blog, como acontece tanto hoje em dia, passamos a nos querer bem e viramos comadres porque a minha gata Matilda ganhou o nome dela. Minha comadre tem uma alma bonita, brasileira e delicada, que se revela quando ela escreve – e, embora não tenha escrito muito ultimamente, a alma continua lá, linda como sempre. Na semana passada, por causa da crônica em que lembrei o fumacê do século vinte, ela postou um longo comentário no internetc.:

“Ah! Cigarros…!

Comecei a fumar com treze anos (por que eu quis, ninguém influenciou, ao que me lembre), em mil novecentos e sessenta e sete, ano em que filmaram “Bonnie and Clyde”, “Belle de jour”, “Casino Royale”, “The graduate”, “You only live twice”, “Lo straniero”,”Todas as mulheres do mundo” e, principalmente, “Terra em transe”.

Ano tão lindo, Matilda tão linda, loura, jovem e baiana, fumava cigarros Elle, longos, dourados, tinha cigarreiras lindas, isqueiro Zippo dourado, que quase não usava, acendiam nossos cigarros, é, acendiam sim, naqueles anos enfumaçados, ao som de “Penny Lane”, “All you need is Love”, “To Sir, with love”, “There’s a kind of hush”, “Can’t take my eyes off you”, “I say a little prayer”, “San Francisco (be sure to wear flowers in your hair)”, “Somethin’ stupid”, but I love cigarros, o cheiro, a fumaça, o pegar entre os dedos e pensar, o segurar com os cotovelos juntos ao corpo e deixar queimar, era bom, fumar é bom, foi bom, se não fumasse nem tinha chance comigo, o cheiro era estranho, não seduzia, mas cigarro misturado com whisky (era assim que se escrevia, uísque ainda não existia) era altamente afrodisíaco, e eu gostava de cigarro, de fumar, afinal, num ano em que fizeram o primeiro transplante de coração, qualquer coisa que tivesse, mas ninguém falava ainda em ter, era só trocar, o mundo evoluia, e fumar era bom e Matilda era jovem e tudo era belo, eram anos lindos, altamente coloridos, pernas de fora, barrigas de fora, minhas lembranças são boas, coloridas, enfumaçadas, distaaantes….

Deixei de fumar em dois mil e dez, com cinqüenta e cinco anos (também porque eu quis, de repente, na virada do ano resolvi que não fumaria mais, e não fumei), foi o ano de “Comer, rezar, amar”, “Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1”, “Toy Story 3”, enfim, não lembro bem de outros, estava mal, enfartei por falta de cigarro, perdi o que rolava pelo mundo, enfim, lembro de Justin Bieber (só do nome, acho que nunca ouvi nada e se ouvi, não guardei), restart das calças coloridas e acho que só, esse ano foi tumultuado para mim, descobri DPOC, descobri diabetes, menopausa, parei de comer açucares, gorduras, agora só como verduras, frutas, grelhados, cozidos, vinho sem álcool, parei de escrever, foi feito o primeiro transplante de cara do mundo, foi o ano do apagão no Nordeste, teve eclipse total do sol, eclipse lunar, Mario Vargas Llosa ganhou o Nobel, teve “Dalva e Herivelto: uma canção de amor” na televisão, eu enfumaçava os olhos às vezes de dor, às vezes de saudades, às vezes por nada mesmo, chorei muito, nunca mais fumei, foi difícil, foi duro, devia ter tomada algum remédio, foi na tora que comecei, foi na tora que deixei, começar foi fácil e prazeroso, deixar foi difícil, doido, conquistado.

Ainda gosto de cigarro, do cheiro, do cheiro de charutos, da fumaça, do ritual, do gestual, só não fumo mais, mas podem fumar perto de mim, não me incomoda, só não posso acender, sou viciada, não posso fazer isso, assim como podem comer feijoadas e broinhas e pães e bolos e brigadeiros junto de mim, só não posso comer nada disso, também sou viciada e comida, assim como cigarro, virou veneno para mim, o corvo gritou nunca mais e eu ouvi.

Agora sou avó de um e meio (outro ou outra para fim de fevereiro), agora uso pernas escondidas, nem sei onde fica a barriga (nem tento saber), cabelos grisalhos (não uso tinturas), mais magra, aprendendo a andar de novo, fazendo pilates, só sinto falta do escrever, que perdi, mas perdi a juventude também e não sinto falta dela. Agora está bom, mas está bom pelo passado, quer dizer, o que passei fez de mim isso, não me arrependo do cigarro, era outra época, outros costumes, outra Matilda.”

o O o

Várias pessoas falaram da sua relação com o cigarro lá no blog. Lilly, que fumou durante 45 anos, largou o fumo pela causa mais inusitada e engraçadinha:

“No dia 1° de junho de 2008 a gatinha de minha vizinha, de uns cinco meses, sumiu. Primeiro, procuramos na casa dela. Nada. Fomos para a rua debaixo de chuva, perguntando a todos que encontrávamos se tinham visto uma gatinha branca e preta… mas nada da Pitty. Fiz uma promessa a mim mesma que, se encontrássemos a gatinha, largaria de fumar no mesmo instante. Quando a minha amiga voltou para casa, revirou tudo e… achou a gatinha, dormindo numa gaveta que revistáramos milhões de vezes! Eram 17h30. Contente e já calma, fumei o último cigarro da minha vida. Presenteei a dona da gatinha com os maços intactos e uma porção de isqueiros.”

(O Globo, Segundo Caderno, 26.7.2012)

Lytro: a nova novidade

Image

Há alguns anos, fala-se numa nova tecnologia de imagem digital que, em vez de registrar pixels, registraria informações sobre o campo de luz visto pela objetiva. A vantagem disso seria dar ao usuário a possibilidade de reproduzir, na tela do computador, a exata cena vista pela câmera. Aí ele poderia tratá-la da mesma forma que tratamos a imagem que ainda não capturamos, decidindo onde fechar o foco. Em outras palavras, pela nova tecnologia o foco seria uma preocupação do passado, já que poderia ser ajustado a posteriori. No começo desse ano, uma câmera com essa tecnologia, a Lytro, foi apresentada à imprensa norte-americana. Ela chegou ao mercado em fins de março e agora, finalmente, seus primeiros resultados começam a aparecer no Instagram e no Flickr.

A Lytro é uma câmera diferente de todas as outras. Seu formato lembra uma barra de margarina. Numa das pontas fica a lente, na outra uma telinha touch-screen onde se pode ver o enquadramento e definir alguns ajustes. No meio do caminho, na parte de cima, o botão para disparar. Por trás dela está Ye-Ren Ng, que nasceu na Malásia há 32 anos, formou-se em Stanford e conseguiu atrair a atenção do falecido Steve Jobs com a sua visão radical da captura de imagens, primeira revolução real na forma como as lentes vêem o mundo em mais de cem anos. A tese de doutorado em que expunha a tecnologia que se transformou na Lytro ganhou um premio mundial da Associação de equipamentos de computação e permitiu a Ng que captasse mais de US$ 50 milhões para sua startup.

Assim que as vendas foram anunciadas, fiquei louca para comprar uma para mim. Por enquanto, a Lytro vem em duas configurações, com 16Gb ou 8Gb, a US$ 499 e US$ 399, respectivamente. O modelo mais caro é vermelho, e o mais barato vem em azul e cinza. Felizmente a loja online não faz postagem internacional, o que me poupou um bom dinheirinho e uma amarga decepção: com resolução de 1080 x 1080, muito grão e desempenho fraco em condições menos do que excelentes de luz, as imagens da Lytro ainda deixam muito a desejar. No momento em que mesmo as câmeras dos celulares baratos já oferecem ótimos resultados, é incompreensível que fotos feitas por uma câmera se apresentem tão fraquinhas.

Como conceito, a Lytro é interessantíssima. No dia em que a sua tecnologia for adotada por um dos grandes fabricantes de câmeras, ou mesmo por um dos grandes fabricantes de celulares, teremos um produto de fato cobiçável. Por enquanto, ela deve conquistar sobretudo amantes de gadgets que não imaginam a vida sem o último brinquedinho, ou apaixonados por cameras que curtem mais o equipamento do que o produto final.

(O Globo, Economia, 21.7.2012)

Esquadrilha da fumaça

Era assim: não havia lugar onde não se pudesse fumar. Médicos e pacientes fumavam nos consultórios, funcionários fumavam nas repartições públicas, professores e alunos fumavam nas salas de aula das universidades e, nas mesas dos restaurantes, cinzeiros faziam conjunto com a pimenta e o sal – que ainda tinha dignidade e não vinha nos pacotinhos absurdos aos quais foi hoje confinado. Apesar disso, havia fumantes que cultivavam o hábito repulsivo de apagar o cigarro na xícara de cafezinho. Em alguns bares e boates fumava-se tanto que o ar podia ser cortado com faca.

Nas redações todo mundo fumava, e praticamente não existia mesa que não tivesse as beiradinhas queimadas. Fumava-se nos ônibus e nos ônibus interestaduais, na barca de Niterói e nos aviões. Os bancos dos táxis ostentavam furinhos causados por brasas. Os cigarros permanentemente acessos dos personagens de “Mad Men” não são licença poética ou caricatura do passado, mas perfeita reconstituição de época. Nesse mundo coberto de fumaça, o estranho no ninho era o não-fumante, que estava em minoria e que, se tivesse a falta de juízo de reclamar do cigarro alheio, perigava ser visto como bicho do mato.

Afinal, fumar era uma atividade social. As pessoas fumavam juntas enquanto bebiam, enquanto conversavam e depois do jantar. O cigarro servia para começar uma conversa, passar uma cantada, fazer as pazes. Cada fumante tinha um isqueiro mais bonito do que o outro, e mesmo os que não usavam isqueiro, mas saiam com uma caixinha de fósforos boa para a batucada, mandavam um recado para os circunstantes. Por falar nisso, todos os hotéis, bares e restaurantes distribuíam caixas de fósforos, que muitas crianças (inclusive a vossa cronista) colecionavam.

Além disso, o que seria de Hollywood sem o cigarro? Mulheres fatais fumavam para realçar o charme; jovens fumavam para mostrar rebeldia; cowboys, gangsters e heróis fumavam, e a maneira como o faziam sublinhava o seu comportamento e as suas aspirações (com ou sem trocadilho). Desde o começo do século, o cigarro era — literalmente — cantado em prosa e verso. Um dos exemplos máximos das letras fumegantes é “Fumando espero”, tango dos anos 20 de Viladomat Masanas e Félix Garzó, que fez tanto sucesso na voz de Carlos Gardel que acabou ganhando versões pelo mundo todo, inclusive Brasil, na voz de Dalva de Oliveira.

A letra, hoje, é quase surrealista. “Fumar es un placer, genial, sensual…” Difícil imaginar que tenha sido escrita sem patrocínio da indústria! “Fumando espero a la que tanto quiero, tras los cristales de alegres ventanales, y mientras fumo mi vida no consumo, porque flotando el humo me suelo adormecer.” E o final, apoteótico: “Dame el humo de tu boca, dame que en mí, pasión provoca, corre que quiero enloquecer de placer, sintiendo ese calor del humo embriagador, que acaba por prender la llama ardiente del amor”.  A quem não conhece a música, recomendo uma busca no You Tube. Além de ser o retrato de uma época, o tango é uma beleza. Procurem também a interpretação preciosa de Sarita Montiel.

Suponho que o olfato de todos, fumantes e não-fumantes, era um sentido prejudicado. Só isso explica como suportávamos o fedor universal que nos cercava. Às vezes, tínhamos uns breves momentos de revelação catinguenta. Os meus aconteciam quando voltava do jornal, e entrava na minha casa cheirosinha. Em contraste, o cabelo e as roupas pareciam cinzeiros: até o interior das bolsas fedia, e eu precisava deixá-las ao sol para que não ficassem excessivamente ofensivas.

O jornalista italiano Giacomo Papi, autor de “Viver sem cigarro é possível, se você souber como” (Editora Objetiva, tradução de Joana Angélica d`Avila Melo) sustenta que, num futuro não muito distante, historiadores tentarão definir o século XX à luz dos cigarros acesos: “Não há dúvida de que, na longa lista das invenções e descobertas que modelaram o século, os cigarros ocupam um lugar fundamental, ao lado da eletricidade, do telefone, da televisão, do cinema, da energia atômica e da penicilina. E de que, mais ainda, a influência deles foi até mais profunda, impregnados como estavam nos mínimos hábitos, nos gestos cotidianos, nas ações e reações aos fatos comuns da vida. Os dedos do século XX são todos amarelados”.

Papi também prevê que, dentro de 50 anos, a memória do tabaco se perderá. Parecerá incrível, às pessoas de então, que tantas vidas tenham se perdido por causa do fumo, assim como hoje nos parece incrível que, antigamente, se usassem rapé e escarradeiras (eca!). A humanidade sempre teve um grande talento para o ridículo, e os bastõezinhos brancos através do qual encheu os pulmões de fumaça durante tanto tempo são apenas um capítulo a mais numa longa história.

“Viver sem cigarro é possível…” é um livro fininho e despretensioso, que peguei por acaso e sem muita fé. Não fumo, nunca fumei e, consequentemente, nunca tive qualquer dificuldade de viver sem cigarro – muito antes pelo contrário. Mas ao descrever as agruras dos fumantes, os párias do novo século, e contar como tentou abandonar o vício, Giacomo Papi acabou criando uma leitura leve, simpática e cheia de informações curiosas sobre o tabaco.

(O Globo, Segundo Caderno, 20.7.2012)

Lição de segurança

Escrevo sobre tecnologia – aquilo que antigamente chamávamos de informática – há exatos 25 anos. Um quarto de século bem contado, com a agravante de ter começado no milênio passado. Já era para ter aprendido a Lei Número Um do setor: o maior problema dos computadores é o bug gigante que senta na frente do teclado. Também já era para ter aprendido que o pior erro que podemos cometer (e não só nessa área!) é o excesso de autoconfiança. Pois essa semana, para me por no meu devido lugar, os deuses da computação me deram uma lição.

Começo do começo. Há muito tempo aboli dos meus procedimentos de segurança rotineiros o hábito saudável de não apagar os arquivos dos cartões de memória das câmeras; ao contrário, quando os copio para o computador (usando o Picasa) marco a opção “Excluir todo o conteúdo do cartão”. Por que viver tão perigosamente? No fundo, por preguiça. Tiro muito mais fotos do que aproveito: é normal passar mais de cem imagens para a máquina, das quais, depois de uma edição básica, sobram não mais que vinte. Nos tempos em que eu era uma senhora prudente, e conservava os arquivos no cartão até segunda ordem, o Picasa ignorava os meus esforços de desapego e copiava novamente para o computador todas as imagens que eu havia jogado fora na edição. Isso me aconteceu suficientes vezes para que eu adotasse a medida radical de limpar tudo do cartão a cada transferência de arquivos.

Eu sei, eu sei – há muitas maneiras de se transferir apenas as fotos que queremos para os diretórios. Também é possível limpar o cartão depois de verificar que todos os arquivos foram copiados sem problemas. Mas, como tanta gente, eu também gosto de soluções rápidas, imediatas, que não me dêem muito trabalho. Além disso, na maioria dos casos, as fotos dos meus cartões ou são fotos dos gatos ou dos meus passeios pela Lagoa, vale dizer  nada muito importante. É claro que, com o material de viagem, costumo ser mais cuidadosa.

Pois eis que fui à Vila Cruzeiro, há alguns dias, e fiz umas tantas fotos, importantes porque delas dependia a ilustração da crônica de quinta-feira. Na hora de transferi-las, caí na besteira de dar o comando de sempre: “Excluir todo o conteúdo do cartão”. O Picasa, prudentemente, me perguntou se eu tinha certeza do que estava fazendo; e, sem pensar – ou talvez pensando, mas me achando acima dos perrengues da vida tecnológica – disse que sim.

Bom. Entre o clique fatídico que dei nessa resposta, e o ato de transferência dos arquivos, um inseto começou a esvoaçar ao redor da lâmpada. Um dos meus gatos, que estava aparentemente adormecido em cima da escrivaninha, acordou de um salto, e pulou para pegar o dito inseto. No caminho, pisou numa tecla qualquer que interrompeu o trabalho do Picasa. Resultado: uma única foto copiada, e todas as demais sumidas no espaço.

Antes de brigar com o Toró ou de bater a cabeça na parede por causa da enorme besteira que tinha feito, fui atrás de um software que me salvou a vida quando um dos meus HDs faleceu inesperadamente. Ele chama-se “Get data back”, e faz o que o nome promete – recupera dados. Da época em que precisei dele para cá passaram-se uns dois, três anos; mudei de máquina, de sistema operacional e de discos rígidos. Numa dessas mudanças, ele deve ter acabado esquecido, pois não o encontrei mais. Resumo da história: o pulo do gato me custou R$ 145,52. Como da vez anterior, o “Get Data Back” funcionou a contento, e recuperou quase todo o conteúdo do cartão, inclusive fotos que já haviam sido apagadas há meses.

Como muitos dos programas de recuperação de dados, o “Get Data Back” permite que o usuário veja os arquivos que foi capaz de recuperar sem exigir pagamento; ativar a opção “copiar”, porém, requer o desembolso de US$ 79. É uma licença cara, mas, pelos resultados oferecidos, vale o investimento. Ao contrário de outros programas parecidos que experimentei, ele mantém a estrutura de diretórios e subdiretórios, o que nem era tão importante no caso do meu cartão, mas que é fundamental na recuperação de um disco com músicas, vídeos, fotos, documentos.

Hoje há tantos softwares de recuperação de dados que é virtualmente impossível saber qual é o melhor. Optei por usar o “Get Data Back” porque, apesar do preço alto, já tinha tido uma experiência muito positiva com ele, e não me senti tentada a viver aventuras desconhecidas diante do prazo de fechamento da coluna.

Para terminar, qual é a moral da história? Simples: Nunca, jamais, opte por apagar o conteúdo de um cartão ou de um pendrive antes de se certificar que os dados foram transferidos a contento para o computador…

(O Globo, Economia, 14.7.2012)

Uma tarde no Complexo da Penha

Quando alguém diz que sente inveja do Complexo do Alemão por causa de tudo o que está acontecendo lá, é hora de parar e prestar atenção. Eu estava conversando com Antonio Tiburcio, diretor da Atitude Social, morador e grande ativista da Vila Cruzeiro, quando ouvi isso. Estávamos na sede da sua ONG, ao lado do famoso campo de futebol de onde saiu o jogador Adriano, e onde centenas de garotos jogam com a maior seriedade para ver se têm sorte igual.

– Mataram o Tim Lopes em 2002, — disse ele. – Pois a partir daquele momento, a Penha perdeu tudo, investimentos, voluntários, tudo o que havíamos a duras penas conquistado, e que nem era muito. Nós não tínhamos contatos, não estávamos conectados à internet, não podíamos gritar para o mundo que o crime não havia sido cometido pela comunidade. Você sabe o que é assistir a um jornal de televisão que mostra a tua vizinhança dizendo que lá só moram bandidos? Pois nós vivemos isso, e vivemos as conseqüências disso: quando vamos procurar emprego e as pessoas vêem o nosso endereço, acabou, esquece aquela vaga. Você sabe o que é sentir vergonha do seu endereço? Enquanto isso, no Alemão, que é aqui do lado, há milhões de investimentos! Até a novela “Salve Jorge” está sendo filmada lá. No nosso Complexo da Penha, nada. Não é justo, não merecemos isso, não merecemos tanto castigo.

Tiburcio, que é alegre e bem humorado, se transforma e fica visivelmente emocionado quando fala dos dez anos de ostracismo sofridos por sua comunidade. É emoção contagiosa, sobretudo para quem vem de um passeio pela Vila. Os moradores são gentis, fazem questão de receber bem quem vem de fora e manifestam esperança de que a presença do visitante seja o prenuncio de mudanças. O complexo, onde a PM acaba de substituir o exército, há um ano e meio na área, está livre de traficantes — ou, pelo menos, das gangs de traficantes armados. As lajes foram retomadas pelos garotos que soltam pipas. Há tantas delas, por sinal, que diversos motoqueiros andam com a mão no pescoço, para não serem degolados por algum cerol desgovernado.

Converso também com as diretoras de duas das cinco escolas da comunidade, Telma da Silva Teixeira, da Joracy Camargo, e Ana Paula Batista Lima, do Ciep José Carlos Brandão Monteiro. São duas heroínas, que lutam contra dificuldades que nem nos passam pela cabeça. Na época da guerra, que é como os moradores se referem aos tempos dos traficantes, as escolas foram frequentemente fechadas por causa de tiroteios; mas guerra maior, que dura até hoje e que não acaba tão cedo, é manter os alunos estudando. Muitos precisam trabalhar. É uma situação cruel, porque, inúmeras vezes, eles sequer trabalham para comprar comida, mas sim para sustentar o vício dos pais alcoólatras ou dependentes químicos. Essas são crianças que chegam com tanta fome à escola que não rendem nada antes da merenda.

– Antigamente nós educavamos junto com as famílias, — dizem as professoras. – Hoje as crianças vêm à escola por vontade própria, e não necessariamente porque têm pais que cobram isso delas. É preciso então que as escolas daqui sejam muito atraentes, mais atraentes até do que as escolas do asfalto, mas a realidade é outra.

As diretoras fazem o que podem. Na Joracy Camargo os cadernos de empregos dos jornais são pendurados em varais, para que os pais, que não têm dinheiro para comprá-los, possam consultá-los gratuitamente. Agora, graças a uma parceria com a Ericsson e com a Vivo, que há um mês trouxe internet para a Joracy Camargo e para o Ciep, será criado um banco de empregos. Antes mesmo disso, porém, a internet já está mostrando a que veio: graças ao wi-fi, as escolas estão virando points para as famílias e, na próxima festa junina, haverá uma barraquinha para apresentar os netbooks às mães que quiserem conhece-los. E a vida das professoras, que sequer tinham telefone, e que precisavam ir a uma escola na Penha para trocar emails com a prefeitura ou requisitar merenda escolar, melhorou muito.

A parceria com a Ericsson e com a Vivo é, curiosamente, motivo de orgulho geral. Nos bairros de classe média, a presença de qualquer empresa é, na melhor das hipóteses, vista com indiferença; o excesso de outdoors e de logomarcas chega a provocar hostilidade. Na Vila Cruzeiro, contudo, os outdoors da Vivo, estrelados por pessoas da comunidade, são vistos como uma conquista. Eles são um sinal de pertencimento, a prova cabal de que a vida está entrando nos eixos.

Na sede da Atitude Social, vi várias crianças usando a web – que, até outro dia, mal conheciam. É impossível avaliar o tamanho da janela que se abre para uma criança dessas com uma simples conexão. Muitas nunca saíram da Vila Cruzeiro, e só conhecem o Pão-de-açúcar e o Corcovado da televisão. Na primeira excursão que uma das escolas promoveu a um museu, os alunos ficaram deslumbrados por estar num lugar “igualzinho ao Rio”.

Tiburcio comemora os computadores e a internet, mas ainda vê um longo, longuíssimo caminho pela frente:

– Os fuzis trocaram de lado. Antes estavam com os traficantes, hoje estão com o Bope. As crianças, porém, continuam convivendo com fuzis. O meu sonho é que a gente tenha, um dia, uma comunidade livre de fuzis.

(O Globo, Segundo Caderno, 12.7.2012)

Daniel de Plá: morros, o novo foco na era digital

A história de Daniel de Plá começa, a bem dizer, no dia em que Pedro Plá precisou tirar retrato para um documento no Centro do Rio. O garboso catalão entrou no primeiro estúdio que encontrou, onde foi fotografado pela galega Lola, filha do dono do estabelecimento. Revelação vai, cópia vem, os dois descobriram que tinham vários pontos em comum além da origem espanhola. Apaixonaram-se, casaram-se e foram morar na Urca, onde nasceu Daniel. Um ano depois, a pequena família mudou-se para Niterói, impulsionada pelo sonho do estúdio próprio. Daniel cresceu entre câmeras, rolos de filme, cópias. Ainda pequeno, tinha a missão de entreter os filhos dos clientes, para que saíssem sorridentes nas fotos. De lá para cá estudou economia e direito, fez mestrado nos Estados Unidos e prepara-se para um doutorado em educação, mas nunca abandonou a primeira profissão. A fotografia, que seu bisavô já exercia na Galícia há cem anos, é o fio condutor da sua vida, o métier que lhe deu, aos 19 anos, a cobertura em que mora até hoje em Ipanema.

– Com as câmeras digitais e com os celulares todos viraram fotógrafos. Mas, naquele tempo, não havia tantos fotógrafos assim. Um bom álbum de casamento custava caro, e eu fiz muitos e muitos álbuns.

Daniel gostava de remar contra a corrente, e fazia disso uma ferramenta de marketing. Quando todo mundo ainda fotografava com 6 x 6, ele adotou uma câmera de 35mm, e não hesitava em usar o autofoco, para horror da geração mais velha. Destacava, então, a modernidade do equipamento. Quando todo mundo adotou as câmeras de 35mm, ele passou a usar uma Hasselblad 6 x 6, louvando a qualidade dos negativos maiores. As noivas e suas famílias ficavam muito contentes com o serviço diferenciado.

– O estúdio dos meus pais era o mais requisitado de Niterói, — lembra Daniel. – Além de produzir boas fotos, os dois faziam coisas muito avançadas em termos de marketing – coisa que mal e mal existia na época e da qual, naturalmente, nunca tinham ouvido falar. Agiam intuitivamente. Por exemplo, depois de fotografados, os clientes deviam voltar à loja para escolher as fotos que queriam ampliadas. Pois mamãe marcava todos no mesmo dia, mais ou menos no mesmo horário, para dar impressão de grande movimento. Essa técnica, que hoje em dia se chama crowding, é considerada muito sofisticada pelos livros de marketing, que garantem que só as grandes empresas sabem usa-la com eficicácia…

O estúdio de Niterói consolidou-se e prosperou. Através de franquias, chegou a se tornar, na década de 1990, a maior rede mundial de lojas de fotografia numa mesma cidade, com 150 lojas, e chamava a atenção de colegas em outros países. Daniel apresentou o “case” em incontáveis feiras de fotografia. Elas lhe permitiram juntar o útil à vontade de viajar que quase o levou à diplomacia, da qual desistiu quando descobriu quanto era o salário de um diplomata.

Tudo ia muito bem até que, do dia para a noite, a fotografia digital se popularizou. Como tantas e tantas outras empresas que estavam no ramo da fotografia tradicional, a De Plá também foi varrida pela nova onda.

– Onda não, — corrige. – Tsunami!

A rede encolheu e se adaptou à demanda: as três lojas que sobraram atendem atualmente a 20% do mercado carioca. A essa altura, contudo, ele já estava tendo novas idéias. Quando terminou o ciclo de graduação e pós graduação em economia, teve vontade de fazer direito. Os amigos que estavam na área não recomendaram: “Deixe para fazer isso quando tiver 50 anos!”.

Daniel seguiu o conselho. Há cinco anos, quando alcançou a fatídica marca dos 50, matriculou-se na Candido Mendes. No primeiro dia de aula, já tinha lido a constituição e o código civil. Foi no decorrer dessa leitura que descobriu uma causa, personificada no terceiro parágrafo do artigo 183, que reza: “Os imóveis públicos não serão adquiridos por usucapião”. Ali estava um dos maiores problemas dos seus vizinhos do Cantagalo, Pavão e Pavãozinho.

– Esse parágrafo significa que os moradores de favelas erguidas em terrenos públicos jamais terão qualquer segurança jurídica. Precisamos de uma emenda constitucional que resolva isso. Se o morro fosse da tua avó, a situação estaria resolvida. Você iria a um juiz, dizendo que o morro era da família; o juiz estudaria o caso e diria sinto muito, vocês ficaram sem mexer na terra, essas pessoas foram lá e construíram as suas casas, não há nada a fazer. Isso é correto. O uso social é mais importante do que a economia de uma família displicente. Mas quando as terras são públicas, o usucapião não vale. Isso perpetua os currais eleitorais, a vulnerabilidade dos habitantes dessas terras e, em última instância, um círculo vicioso de estagnação econômica.

Ele logo encontrou outras pessoas que pensavam da mesma forma, como Marcílio Marques Moreira, Joaquim Falcão, da Fundação Getúlio Vargas, ou Luiz Roberto Cunha, decano de ciências sociais da PUC. Mas encontrou também gente que discordava, e que afirmava que os moradores das comunidades não pagariam os impostos e venderiam as casas.

– Bom, em princípios de 2007 eu cansei da teoria e fui ver o que o pessoal do morro tinha a dizer em relação ao assunto. Fui levado por uma amiga que tinha fortes vínculos com a comunidade e conversei com muita gente. E fiquei sabendo que eles queriam os títulos de propriedade, e que estavam dispostos a arcar com as obrigações decorrentes disso. É lógico que você não vai cobrar de uma casa no Cantagalo o mesmo imposto que se cobra na Vieira Souto. Num primeiro momento, o imposto deve ser simbólico. Mas, a partir do momento em que uma pessoa de mais posses compra uma propriedade dessas, o valor pode ser aumentado de acordo com a transação imobiliária. Com a existência de títulos de propriedade, por sinal, o governo passa a ter conhecimento desse mercado. Há um aquecimento natural a partir dos títulos. Casas que hoje valem 50 mil reais passariam a valer três ou quatro vezes isso, por causa da segurança jurídica. Hoje, pelo que conheço do morro, tenho certeza de que mais de um terço dos moradores não sairia, nem venderia suas casas. Eles têm uma história lá, têm um profundo amor pelo que construíram.

Daniel descobriu um novo guru, o economista peruano Hernando de Soto, cujo Instituto de Liberdade e Democracia elaborou as reformas administrativas que deram títulos de propriedade a mais de um milhão de famílias no Peru. De Soto, que a revista Time apontou como um dos cinco principais inovadores da America Latina, defende a idéia de que o título de propriedade é o primeiro passo para o progresso econômico. Com ele, o morador de comunidade transforma-se em proprietário, e passa a ter algo para dar como garantia de empréstimos.

– Ele passa a poder levantar dinheiro para montar o seu negócio: pode chegar no banco, provar que tem uma casa, e pedir dinheiro para abrir um restaurante, — empolga-se Daniel. — Assim, aos poucos, a favela deixa de ser favela, porque passa a ter uma integração real com a cidade.

Àquela primeira visita seguiram-se outra e mais outra e outra, e logo Daniel virou habitué. Mais do que respostas à sua pergunta, descobriu todo um universo de novidades – e de fotos maravilhosas.

– Subi pela primeira vez para conversar sobre a questão dos títulos de propriedade, mas, quando cheguei lá, me senti como um autêntico gringo no morro, com vontade de fotografar tudo. Senti o encanto que os gringos devem sentir diante de toda aquela criatividade. Digo “gringos” porque a maioria dos brasileiros não vê isso. Sem falar na educação das pessoas, que passam por você e dão bom dia e boa tarde. Você é muito bem recebido, o tempo todo.

Antes que 2007 terminasse, Daniel de Plá já tinha feito mais de cinco mil fotos das comunidades do Cantagalo, Pavão e Pavãozinho, e foi convidado a fazer uma exposição na Casa de Cultura Laura Alvim.

– A fotografia me abriu as portas do morro. Comecei a fotografar regularmente, e a levar cópias das fotos para as pessoas que fotografava. As crianças ficavam fascinadas e colavam as fotos nas portas, nas paredes.

Professor de marketing de varejo na Fundação Getúlio Vargas, ele sempre levou seus alunos para os shoppings, para estudarem as lojas e as suas características. Quando descobriu o morro, Daniel descobriu simultaneamente as biroscas, que muitas vezes não passam de uma janelinha numa casa. Daí a levar os alunos ao morro foi um pulo. Desde 2008, ele leva também grupos de estudantes estrangeiros para conhecer a realidade das comunidades. Os grupos, que têm entre 15 e 30 jovens, passam seis horas na favela. Conversam com os moradores, soltam pipa com as crianças, comem bolo e tomam cafezinho. Os depoimentos que deixam são cheios de entusiasmo: todos são unânimes em dizer que a visita mudou a idéia que faziam das comunidades, e a maioria diz que a experiência foi a mais bonita vivida no Brasil.

A grande experiência de Daniel aconteceu no final de 2007, quando foi convidado, pela primeira vez, a passar o réveillon no morro (desde então, nunca mais virou o ano em qualquer outro lugar).

– É o réveillon mais bonito do mundo, e não só pela vista completa dos fogos. Você sobe e as pessoas só te dizem uma coisa: “Paz”. É muito emocionante. Naquele primeiro ano, quando os fogos terminaram, pedi à pessoa que tinha me acompanhado até lá em cima para me acompanhar na descida, porque eu tinha outra festa para ir. E ouvi: “O que é isso, Daniel, você não precisa de ninguém, você já é da comunidade”. Foi o maior prêmio da minha vida.

(O Globo, Rio, 8.7.2012)

Suketu Mehta: “Eu queria louvar Bombaim”

É impossível falar de “Bombaim: cidade máxima” (Companhia das Letras, tradução de Berilo Vargas) sem recorrer a mais adjetivos e superlativos do que recomendam os manuais da boa escrita. O livro, não-ficção que se lê como romance extraordinário, foi sucesso em todos os países onde foi lançado, emplacando uma lista de “melhores do ano” atrás da outra. No processo, acabou por transformar o autor, Suketu Mehta, no escritor de quem todos se lembram quando o assunto é a gigantesca metrópole indiana. Mehta, que nasceu em Calcutá, cresceu em Bombaim e mora em Nova York, onde ensina jornalismo, é regularmente convocado a escrever sobre a cidade nas principais revistas de língua inglesa. Aos 49 anos, ele anda às voltas com uma nova missão: traduzir em livro a sua cidade de adoção, assim como fez com a sua cidade natal. Conversamos por email, pouco antes da sua viagem para o Brasil. Ele veio para a Flip e participa, hoje, da mesa “Cidade e democracia”, com Roberto DaMatta.

 – O que o levou a escrever “Cidade máxima”, e quanto tempo levou na empreitada?

Eu queria contar a história da grande cidade através de pequenas histórias. E a história que conecta todas as outras é a minha – a da minha busca à resposta da eterna pergunta, “É possível voltar para casa?” Eu não tinha modelo para esse livro, que é em partes iguais memória, jornalismo, história oral, ensaio, descrição de viagem. Queria apresentar meus personagens por inteiro, em toda a sua complexidade, como acontece com os personagens de ficção. Joseph Mitchell e A. J. Liebling, do “New Yorker”, foram os escritores que mais se aproximaram do que eu tinha em mente. Eu queria louvar Bombaim como eles louvaram Nova York.

Voltei para Bombaim por dois anos e meio, para recolher material. Aí precisei tomar distancia da cidade, e voltei para Nova York, aquela cidade tão Bombaim, e passei quatro anos escrevendo o livro – no todo, sete anos de trabalho.

– Seus filhos sentem saudades da vida em Bombaim?

Nesse exato momento, meu filho mais velho está estagiando numa revista em Nova Delhi. Eu os levo de volta à Índia regularmente. Do jeito que a economia vai nos Estados Unidos, encaro a possibilidade de que, ao começar a procurar por emprego, eles tenham que voltar ao país que o seu avô deixou, em busca de oportunidade econômica.

– Você está trabalhando num livro sobre Nova York. Entre Bombaim e Nova York, qual é a melhor personagem literária?

Escrever sobre Nova York está sendo formidável. O livro tem uma estrutura parecida com a de “Cidade máxima”: começa com a minha chegada à cidade, aos 14 anos, e continua com a minha vida até os dias de hoje. É a história de pessoas recém-chegadas à Nova York contemporanea. Dois em cada três nova-iorquinos são imigrantes ou filhos de imigrantes. Meu livro conta suas histórias, entrelaçadas com a minha própria experiência. Em “Cidade máxima”, eu estava de olho nas gigantescas megacidades do mundo em desenvolvimento, que se caracterizam pela migração em massa do campo, pela paisagem urbana caótica e por uma sensação de liberdade que não existe no resto dos seus países. No livro sobre Nova York, olho para o que está acontecendo com as cidades dos países ricos, que alcançaram um grau de maturidade e estabilidade, mas enfrentam grandes desafios para assimilar imigrantes do mundo inteiro.

– Você encontrou personagens fantásticos quando escreveu “Cidade máxima”. Continua em contato com eles? Algum se queixou do tratamento recebido no livro?

Continuo em contato com muitos deles, e os vejo sempre que vou a Bombaim. Apenas um reclamou do livro: um cineasta de Bollywood que achou que não foi suficientemente elogiado. Ele ameaçou me pegar quando eu for à Índia, e pediu para o livro ser proibido – muito embora tenha confessado que nunca o leu.

– Como os mumbaikars, os habitants de Bombaim, reagiram ao livro?

O maior elogio ao meu livro é que ele tem sido amplamente pirateado nas ruas da cidade. Crianças o vendem nos sinais. Uma vez um menino desses veio até o meu taxi com uma pilha de livros, e o meu era o que estava por cima. “Toda Bombaim está nesse livro!” me explicou. “Quanto é?” perguntei. “Quatrocentas rúpias”, ele respondeu. “Você sabe que eu sou o autor desse livro?” “Ah, é? Então pode levar por duzentas!”

– Oito anos se passaram desde a publicação de “Cidade máxima”. A Índia mudou, de lá para cá?

A Índia é um país muito mais confiante hoje em dia, confiante no seu lugar no mundo e na sua posição de superpotência do século XXI. As cidades vivem uma explosão de consumo, com shoppings, carros, roupas de grife; este não é mais o país de Gandhi. Os últimos 65 anos, desde a independência da Inglaterra, viram a maior transferência de poder da história mundial, de uma pequena classe dominante para a efetiva maioria do bilhão de pessoas que vive lá – uma maioria que havia sido alijada do poder político ao longo dos cinco milhões de anos da história indiana. O grande desafio que o país enfrenta é fazer com que a essa transferência política siga-se também uma transferência econômica. Caso contrário, haverá uma explosão, porque as massas indianas não acreditam mais, como costumavam acreditar, que são pobres por causa de pecados cometidos em encarnações anteriores. Elas querem ser ricas, ou pelo menos pertencer à classe média, no seu tempo de vida.

– Os direitos de filmagem do seu livro foram adquiridos em 2009. Quando assistiremos ao filme?

Danny Boyle usou meu livro para filmar “Quem quer ser um milionário?” e acabou comprando os direitos depois do filme estar pronto. Mas eu adoraria receber propostas de cineastas brasileiros. Dois dos filmes de que mais gostei ultimamente foram “Cidade de Deus” e “Tropa de elite”. Com ligeiras modificações, eles poderiam se passar em Bombaim em vez do Rio.

– Você foi co-autor de “Missão Kashmir”, filme de sucesso na Índia. Tem planos de escrever outros roteiros para Bollywood?

Este roteiro, de “Missão Kashmir”, foi parte da pesquisa para o livro. Cresci com os filmes de Bollywood; cantarolo as suas músicas para me reconfortar em países frios. Eu queria saber como eles eram feitos, conhecer os seus bastidores. De modo que me encontrei com todo mundo, das estrelas aos dublês, e acompanhei o filme do conceito à distribuição. Acho que há uma enorme vitalidade nesse meio: a cada ano, Bollywood vende um bilhão a mais de ingressos do que Hollywood, o que faz dos filmes indianos a forma de diversão mais popular do planeta. Bollywood enfrenta o monólito da cultura de massa norte-americana de cima para baixo. Eu adoraria escrever um novo roteiro. É tão divertido!

– A India e o Brasil fazem parte dos BRICs. Você acha que essa parceria faz sentido?

Andei viajando um bocado para o Brasil nos últimos tempos. Passei uma semana nas favelas cariocas em dezembro passado, observando o programa das UPPs. Vejo muitos, muitos pontos em comum entre as nossas cidades, e acho que temos muito a aprender uns com os outros – apesar das enormes diferenças. Somos dois países que sentem que este será o seu século, quando emergirmos das sombras das nossas desafortunadas histórias, e tomarmos, enfim, os nossos lugares no palco mundial. O maior perigo que enfrentamos é um excesso de autoconfiança. Eu adoraria ver encontros, não só de intelectuais, mas de gente comum – uma delegação da Rocinha, por exemplo, visitando Dharavi, em Bombaim, e comendo e bebendo e rindo junto. Eu adoraria ver casamentos entre brasileiros e indianos: produziríamos as crianças mais afetuosas do planeta.

– Mumbai ou Bombaim? Ainda faz diferença?

Não havia nenhuma razão para mudar o nome. É besteira dizer que Mumbai era o nome original – Bombaim foi criada pelos portugueses e ingleses a partir de um grupo de ilhotas cheias de malária, e eles deveriam conservar o privilégio do batismo. Nós do Gujarat e de Maharashtra sempre a chamamos “Mumbai” quando falamos em gujarati ou marathi, e Bombaim (Bombay) falando inglês. Não havia necessidade alguma de escolher um nome só. Em 1995, o partido nativista Shiv Sena exigiu que usássemos “Mumbai” em todas as nossas línguas. Eu me oponho ao privilégio de um nome sobre todos os outros nomes.

(O Globo, Prosa e Verso, 7.7.2012)

25 anos de GIFs

Comemoraram-se, mês passado, os 25 anos do formato GIF (abreviação de Graphics Interchange Format). O GIF merece: apesar da idade provecta, continua bombando na internet. Para quem não está ligando o nome à pessoa, este é o formato das figurinhas animadas que se espalham por toda a parte, de avatares (irritantes) a logos variados, passando por “papéis de carta” para emails (ainda mais irritantes do que os avatares) e fotos sensacionais em que apenas um detalhe se mexe, discretamente. Ainda que você não se lembre de nada disso, acredite: é impossível se conectar e passar cinco minutos online sem topar com inúmeros GIFs.

O formato foi criado pela CompuServe em 1987 para resolver um típico problema da época: a impossibilidade de transmissão de imagens a cores em redes. É que os formatos que existiam então eram pesados demais para os modems. O GIF resolveu isso através de uma poderosa compressão de dados e de uma técnica chamada interlacing, que intercala as linhas da imagem – e que, mais tarde, possibilitou a criação das figurinhas animadas. Naquele tempo, contudo, o que estava em jogo era coisa mais simples. Uma imagem GIF não precisava ser inteiramente transmitida para que o usuário visse se era ou não o que queria. Isso fazia muita diferença quando o tempo de carregamento dos arquivos não se contava em segundos, mas em minutos.

Da CompuServe o GIF passou, pouco depois, para a internet. Estamos falando dos anos pré-web, em que não existiam browsers e toda a navegação – se é que se pode chama-la assim – era feita em interface de caracteres, através de comandos abstrusos. Nos anos 90, quando a web se popularizou, o GIF continuou na crista da onda, porque era universalmente reconhecido e porque, àquela altura, era a única forma de reproduzir imagens em movimento nas páginas da rede.

Quando o novo século começou, tudo indicava que o GIF animado iria para a lixeira da história. Com a banda larga, transmitir vídeos e imagens grandes deixou de ser problema. Ao mesmo tempo, as figurinhas cafonas e manjadas eram tão anos 90 que não tinham mais lugar nos sites chiques dos novos tempos. Mas a vida dos GIFs passou por uma reviravolta aí por 2005, 2006. É que, nesse momento, surgiu a febre das reaction images, aquelas figuras que lembram emoticons ampliados: trechos de filmes, desenhos ou fotos expressivas, com ou sem legendas, reproduzindo diferentes emoções. Moeda corrente no Tumblr, as reaction images, quando animadas, são gravadas em GIF.

Finalmente, no ano passado, a fotógrafa  inventaram uma espécie de misto de vídeo e de foto a que deram o nome de cinemagraph — e que, desde então, é um sucesso retumbante na rede e em galerias de arte. Para ter idéia das possibilidades dessa arte, dê uma olhada em cinemagraphs.com.

Se sentir vontade de fazer algo parecido, há uma enorme quantidade de aplicativos de animação de GIFs na rede, para todas as plataformas existentes.

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Um GIF ou uma GIF? E como se pronuncia isso? Como dizia Jack, o estripador, vamos por partes: um GIF, no masculino, quando a referência for ao formato; uma GIF, no feminino, quando a referência for à imagem. Por exemplo: “O GIF foi fundamental para a popularização da web”, mas “Vi umas GIFs animadas pavorosas!” A pronúncia mais usada, em português, é “guif”; em inglês, tanto “guif” (com o g de great) quanto “jif” (com o g de gin) são considerados corretos.

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Há muitas e muitas luas, me apaixonei por um joguinho chamado “Bejeweled” que, salvo engano, cheguei a recomendar aqui. Brinquei muito com ele, depois cansei e, numa faxina de aplicativos, apaguei-o do celular. Dia desses, procurando coisas na Appstore, encontrei-o de novo e tive a infeliz idéia de baixá-lo para o iPad. De lá para cá, já perdi 19 horas, um minuto e 42 segundos. Uma das novidades da nova versão é que, agora, o perverso brinquedo salva o tempo de uso que fazemos dele.

Se você tem trabalhos urgentes para entregar, prazos para cumprir, passeios para fazer e bons livros para ler, nem pense em baixá-lo; mas, se quiser um passatempo garantido, conheço poucos com o poder de distração do “Bejeweled”. Ele está disponível para PC, Mac, Android, Windows Phone, iOS e consoles variados, em versões gratuitas e pagas. Há até uma versão bastante boa para adicionar ao Chrome.

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Outro brinquedinho antigo que voltou às paradas é o Photofunia, que encaixa fotos comuns de iPhone em cartazes de rua, aparelhos de televisão e incontáveis outros cenários bem bolados e bem executados. O Photofunia foi um dos primeiros aplicativos a fazer sucesso no Instagram; andou meio sumido, mas está de volta. É muito divertido, e dá um trato engraçado às fotos mais banais.

(O Globo, Economia, 9.7.2012)

Ainda o gatil

O assunto da semana entre as minhas amigas protetoras de animais foi a inauguração do gatil da prefeitura. Elas, porém, não estão nada satisfeitas, e têm sérias críticas ao projeto, a começar pela sua própria existência: a tendência mundial, hoje, é deixar as colônias de animais em seus locais de origem, controlando-as através de esterilização e fiscalização, para evitar o abandono de novos bichos na área. Outra crítica contundente diz respeito ao local, perto demais do sambódromo para garantir o sossego de que os bichinhos precisam, já que, durante o carnaval, os fogos dos desfiles vão deixar todos em pânico. Finalmente, há uma completa falta de confiança na prefeitura, que todas, sem exceção, julgam incapaz de cuidar dos animais como prometido.

Devo dizer que eu também não confio na competência da prefeitura, mas creio que é importante darmos um crédito de confiança aos nossos funcionários. Posso estar sendo excessivamente otimista, mas acho que partir do princípio de que nada vai funcionar, e que nada será feito com um mínimo de acerto, é jogar a toalha cedo demais.

A localização do gatil não é perfeita, mas o Campo de Santana, ao lado de um quartel dos bombeiros, também não é exatamente silencioso, e é péssimo para os gatos, que sofrem as piores violências nas mãos dos tipos sinistros que frequentam o espaço. O gatil é cercado, não é área de passagem, e tem guarita na porta. Nada disso vai desestimular ladrões profissionais de olho nos equipamentos, mas deve manter afastados os malfeitores que torturam e matam animais por esporte e/ou falta do que fazer. Em suma, acabarão os crimes de oportunidade.

Ao mesmo tempo, acho que, ao levar para lá os gatinhos do Campo, a prefeitura assume uma responsabilidade efetiva da qual não poderá fugir. Ao não zelar pelos felinos nas muitas colônias da cidade, a Secretaria especial de proteção e defesa dos animais (Sepda) pode alegar falta de gente, de recursos e de conhecimento das condições do local; nada disso será possível no Gatil São Francisco de Assis, onde cada gato será conhecido dos tratadores e dos veterinários. Além disso, a sua localização central permite que a sociedade fiscalize melhor o trabalho da secretaria. A minha torcida é para que a prefeitura aproveite essa chance e transforme o gatil num bom exemplo de trabalho, como os bichinhos merecem. Se não fizer isso, estará se passando o maior atestado de incompetência possível: afinal, um prefeito de megalópole incapaz de cuidar do bem estar de 300 gatos pingados é incapaz de qualquer coisa, e não merece nem consideração nem votos.

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O que dizem as protetoras? Lilian Queiroz, da Ong Oito Vidas, está convencida de que não adianta remover colônias, ainda mais sem conhecer os gatos.

– Só quem já fez mudança de gatos sabe bem o que é. Eles brigam entre si, ficam totalmente desesperados, se machucam, os machucados dão bicheira, é um caos. A prefeitura não tem nenhum know-how para fazer esse tipo de mudança. Além disso, gatos de rua sobem aquelas grades brincando, e vão ser atropelados ali.

Lilian tem verdadeiro horror de abrigos públicos:

– Quando muda o governo não há comida, porque não tem como fazer licitação dos pedidos de ração. Já vi esse filme. Quantas vezes mandei ração para o CCZ, para os bichos não morrerem de fome! Um governante não continua o que o outro faz. Basta um corte na verba, e os animais ficam à mingua… Que façam um posto de castração com gaiolas para pós operatório, mas remover gatos de colônia realmente não funciona, estressa os gatos e, pior, a colônia em pouquíssimo tempo volta a se formar. A ignorância e abandono não saem junto com os gatos.

Ana Yates, um dos nomes mais respeitados da proteção animal no Rio, também não confia na prefeitura. Ela destaca a necessidade básica de uma infraestrutura de manutenção do gatil, com planejamento, orçamento, disponibilidade e comprometimento de verbas: uma série de medidas, em suma, que manteriam a integridade física e emocional dos bichanos.

– Quais as necessidades básicas, qual a infraestrutura mínima necessária que um abrigo precisa ter para garantir a integridade dos animais, e para que o local não se torne um campo de extermínio “natural”?  Até os gatis criados e mantidos por protetores idôneos de animais, bem intencionados e com folga de verba, falem e submetem os animais a doenças infectocontagiosas, sofrimento e consequentes óbitos em massa. A Sepda tem doze anos de existência e continua — por falta de vontade política e comprometimento honesto dos políticos — uma secretaria “especial”, sem verba própria, sem planejamento, sem objetivos especificados. O chamado “centro de triagem” na Fazenda Modelo é mantido precariamente, não há pessoal capacitado para manuseio e trato dos animais, não há assistência veterinária consistente, não há medicamentos, sequer vacinas, a ração é de péssima qualidade e por aí vai. Como podemos esperar algo melhor para o tal gatil para os gatos do Campo de Santana – que, não nos iludamos, servirá para aprisionar outras colônias que o Parques e Jardins, Administrador do CASS ou outros amigos do Prefeito considerem inoportunas para Olimpíadas, Copa ou outras alegações? Bem, podem revestir todo esse “gatil” da prefeitura em ouro, porém, repito, o que manterá os animais sadios e vivos é a estrutura de manutenção!

 

(O Globo, Segundo Caderno, 5.7.2012)