E os blogs pessoais, hein?

– Você abandonou o blog! — cobrou um leitor das antigas.

– Não é bem isso, — desconversei. — Só mudei de ritmo, deixei de fazer atualizações diárias, ponho menos fotos…

– Justamente: você abandonou o blog.

Não se pode discutir contra evidências: eu abandonei o blog, embora me custe reconhecê-lo e, ainda mais, confessá-lo. O “internetc.”, que nasceu em 2001, e que eu não conseguia explicar para ninguém naqueles tempos em que as pessoas já sabiam o que era um site, mas ainda não compreendiam o conceito do blog pessoal, é hoje apenas um repositório das colunas que escrevo para o jornal, uma forma simples de manter à mão textos dos quais eventualmente venha a precisar. Os mesmos textos existem no OneDrive e no Dropbox, mas, bem ou mal, ainda há resquícios de caixas de diálogos no blog, onde um que outro leitor deixa o seu recado.

o O o

Fazer um blog em 2001 exigia certa determinação. Eu escrevia para onze pessoas, em dias de muita repercussão dezenove. Nenhum dos meus amigos entendia o que eu queria com aquilo, já que eu assinava coluna no Globo e editava todo um caderno de tecnologia. Para que é que alguém com tantos leitores se dava ao trabalho de escrever para meia dúzia de gatos pingados?

Nem eu sabia muito bem.

O que me entusiasmava era a ideia da comunicação instantânea, mas como às vezes ninguém aparecia no blog, ficava no ar uma pergunta bastante pertinente: comunicação com quem, cara pálida?

Na melhor das hipóteses, com os outros autores de blogs. A comunidade era pequena, todos nos conhecíamos, e era de bom tom fazermos visitas uns aos outros. Até hoje tenho ótimos amigos desses tempos pioneiros.

Depois do fatídico 11 de setembro, que revelou ao mundo a existência dos blogs, veio uma época de ouro, em que muitas pessoas — mesmo algumas que nem tinham blog! — apareciam regularmente, liam, davam palpite, trocavam ideias entre si nas caixas de comentários.

Essas caixas eram todo um outro capítulo, porque não faziam parte integrante dos aplicativos. Eram bacalhaus escritos e mantidos por voluntários, que contribuíam para a “causa” pela mesma razão pela qual nós, blogueiros, escrevíamos: o prazer da experiência. Às caíam, às vezes nem entravam no ar, às vezes davam defeitos esquisitíssimos. Ninguém reclamava; fazia parte. Mas era graças a elas que a comunidade vicejava.

O “internetc.” tinha leitores tão simpáticos que passou a ser chamado de “blogtequim” nas internas; era um ponto de encontro e de boa conversa, onde valia qualquer coisa, menos gente agressiva e mal educada. Uma das regras básicas da casa, porém, é que as discussões tinham que ser pertinentes ao assunto em pauta, para não virarem uma completa bagunça. A exceção eram as fotos de gato, em cujos comentários o tema era livre. Nessas áreas é que, por vezes, rolavam os melhores papos, que iam de discussões filosóficas a reclamações sobre calçadas esburacadas, passando por indicações de profissionais especializados e receitas de bolo.

Nessa época, o cérebro dos blogueiros da ativa funcionava de modo curioso: em primeiro plano, realizava as funções habituais de qualquer ser humano; mas, por trás, só pensava no que daria ou não daria um bom post. Uma flor amarela! Um guarda multando um carro! Um assalto! Uma briga na esquina! Uma viagem! Um livro! Um filme! Uma topada! Um sorvete de caramelo! Tudo era virado, revirado e eventualmente aproveitado. Ou não.

o O o

Com o tempo, os blogs pessoais migraram, num movimento quase imperceptível, para o Facebook. Um dia um post que normalmente iria para o blog acabava no FB; no outro dia, mais um ou dois. Assim, antes que nos déssemos conta, o que antes chamávamos de blogosfera passou a ser rede social. O Facebook tem a vantagem de reunir, sob o mesmo teto, por assim dizer, todos os blogueiros que, nos velhos tempos, estavam espalhados pelos seus diversos blogs. Ninguém precisa mais sair à cata dos blogs alheios para ler o que andam pensando os amigos; basta ir para a página principal. Valeu a troca?

Mais sobre isso na semana que vem.

(O Globo, Sociedade, 18.4.2014)

Pesadelos chineses

Comprei uns brincos no Marrocos. O vendedor, lá no meio da medina milenar de Fez, os embrulhou num saquinho de pano que tirou de uma pilha enorme de saquinhos de pano. Todos nós os conhecemos: são aqueles saquinhos chineses que se encontram por toda a parte, e que guardam coisinhas miúdas e brilhantes compradas no Egito, na Colômbia, no Nepal, em Manaus ou na Rua da Alfândega.

Que porcaria de mundo globalizado!

E que país tenebroso, a China, que consegue produzir uma coisa de tão pouco valor que sai ainda mais barata, com transporte, imposto e intermediários, do que o que se faria na esquina! O Marrocos tem pano e tem mão de obra sobrando. Quanto custaria a um comerciante um saquinho de pano local? 20 centavos? 30 centavos? Em vez disso, ele compra o produto chinês, que provavelmente sai a dez centavos. A dúzia.

Imagino uma cidade na China onde todo mundo vive de fazer saquinhos de pano. De manhã à noite, chova ou faça sol, lá estão milhares de chineses, coitados, de todas as idades, fazendo a droga dos saquinhos que serão espalhados pelo mundo, tirando o emprego de pessoas que poderiam fazê-los à sua maneira e a alegria de quem curte o sabor do que vai buscar pelo mundo.

Imagino também uma pessoa, que como todas as outras pessoas do mundo só ganhou uma vida, tendo que gastá-la inteira na costura de saquinhos, em condições miseráveis, ao lado de outras pessoas nas mesmas circunstâncias.

E aí agradeço à imensa sorte que eu tive de não ser essa pessoa.

o O o

A China tem, segundo a Wikipedia, mais de um 1,36 bilhão de habitantes. É muita gente, e essa gente precisa viver de alguma coisa — nem que seja de fazer saquinhos de pano para espalhar pelo mundo. Os saquinhos que roubaram a identidade nacional das embalagens miudinhas do planeta inteiro são só uma das muitas pontas soltas de um iceberg de complicações que não tenho qualquer esperança de compreender. Há de tudo no miolo deste iceberg, que pode ser visto pelo angulo que o interlocutor quiser.

A cidade de Guiyu, por exemplo, até pequena pelos padrões chineses — tem apenas 150 mil habitantes — vive quase que exclusivamente de desmantelar aparelhos eletroeletrônicos. As 5.500 empresas da cidade dedicam-se a desmontar lixo eletrônico do mundo inteiro para garimpar o que há de materiais nobres nas placas e conectores. Os níveis de contaminação de níquel, chumbo, cobre e zinco da região são assustadores, centenas de vezes superiores aos que se consideram universalmente “normais”. Mas o mundo continua produzindo lixo eletrônico, e em algum lugar este lixo tem que ser processado; se não importasse essa porcaria toda, Guiyu não teria como manter seus 150 mil habitantes. Para eles, fazer saquinhos de pano a vida inteira deve parecer um trabalho fantástico, um sonho inatingível.

o O o

No ano de 2010, Ai Weiwei, provavelmente o mais famoso artista chinês contemporâneo, inaugurou, no Turbine Hall da Tate Modern Gallery, em Londres, uma instalação chamada “Sementes de girassol”. A instalação consistia em cem milhões de unidades, pesando ao todo uma tonelada e meia, cobrindo a superfície de mil metros quadrados da galeria até uma altura de dez centímetros. Mas aquelas sementes de girassol não eram de verdade; eram réplicas de cerâmica, individualmente moldadas e pintadas.

Jingdezhen, que tem dez vezes mais habitantes do que a desgraçada Guiyu, é famosa pela sua cerâmica desde o Século IV. Atualmente é uma cidade grande, com indústria e empresas de vários tipos, mas, durante séculos, foi, como Guiyu, uma cidade dedicada a uma única atividade. Durante a Dinastia Song (960 a 1279) ficou conhecida por um espetacular tipo de cerâmica delicadamente esverdeado chamado Qingbai; mais tarde, durante a Dinastia Ming (1368–1644), produziu a tradicional porcelana branca e azul que até hoje tira o fôlego de quem a vê.

Foi nessa cidade extraordinária, de onde ao longo dos séculos saíram maravilhas, que Ai Weiwei foi buscar a matéria prima para sua instalação. Durante mais de dois anos, 1.600 ceramistas dedicaram-se, dia e noite, a moldar e a pintar, uma por uma, cem milhões de esculturinhas minúsculas e monótonas, em forma de semente de girassol. Vi um documentário no YouTube em que alguns deles agradeciam pela oportunidade de trabalho.

O que significam cem milhões de sementes de girassol de cerâmica? Segundo Ai Weiwei, elas são uma referência a Mao Tse-Tung, tradicionalmente representado na arte governista cercado de girassóis: o ditador seria o sol, para o qual estaria voltado, feliz, o povo chinês em forma de flor. As sementes falsas, não comestíveis, seriam uma alegoria à propaganda política, na contramão da fome que vitimou milhões de pessoas durante o seu calamitoso governo.

Depois da desmontagem da instalação, Ai Weiwei a transformou numa série de obras “menores”, de apenas cem mil sementes cada. Uma foi leiloada pela Sotheby’s de Londres em fins de 2011, alcançando £ 349.250, ou cerca de £ 3,50 por semente. Talvez tenha sido um bom negócio no atacado, mas no varejo foi um grande prejuízo: hoje, no eBay, é possível encontrar as sementes de girassol falsas a partir de £ 0,43 a unidade. Claro que, sendo o mundo o que é, ninguém garante a sua autenticidade: é perfeitamente possível que as peças, postas à venda por negociantes de Hong-Kong, sejam falsas sementes de girassol falsas.

Não está fácil para ninguém.
(O Globo, Segundo Caderno, 17.4.2014)

 

Tuitando música

(A minha coluna que antes saía aos sábados, na Economia, passa agora a sair às sextas, na nova editoria Sociedade.)

Gilberto Gil me convidou para tuitar o seu show hoje à noite, à partir das 21hs. Aceitei na hora, mas agora estou cheia de dúvidas: como é que se tuita um show? Honestamente? Não faço a menor ideia! Já tuitei muitos espetáculos a que assisti — na verdade, quase não vou mais a espetáculos (ou a qualquer outra coisa) sem soltar dois ou três pios, passarinho solto no mundão da internet — mas esses foram tuites, se não roubados, pelo menos muito envergonhados. Até aqui, havia sempre um vizinho de poltrona que olhava cruzado para o smartphone ligado, um segurança que mandava desligar o aparelho e, acima de tudo, a minha própria consciência, cobrando mais atenção ao palco e menos atenção à telinha. Agora não. Nenhuma dessas restrições se aplica, antes pelo contrário: a ideia é, justamente, prestar tanta atenção à telinha quanto ao palco. Vocês podem sintonizar logo mais em http://www.twitter.com/gilbertogil, buscar o handle @gilbertogil ou acompanhar a hashtag #GilporCora.

Tuitar um show é, em última instância, contar a quem não está no teatro o que está acontecendo lá; transmitir, por escrito, o que rola em música. Contando assim pode parecer esquisito, e é mesmo. Mas tenho um bom precedente em termos de esquisitice, e este aconteceu neste mesmo show — Gilbertos Samba — no dia em que o assisti pela primeira vez, na estréia, no último dia 4. Gil está se apresentando no Theatro Net Rio, que se orgulha de ser uma casa cem por cento acessível, que recebe a todos com igual atenção. Num canto do palco, portanto, estava um intérprete de Libras, a Linguagem brasileira de Sinais, traduzindo as músicas para os não-ouvintes.

Oi?

Pois é. Oi? foi a minha primeira reação ao ver os intérpretes — eram dois, Jadson Abraão e Davi de Jesus, que se revezavam, e que deram um show dentro do show, cheios de ginga e de simpatia, verdadeiros virtuoses dos sinais. Surdos vão a shows de música? Como assim? Fazer o quê? Mas a verdade é que, num palco ocupado por um ídolo como Gilberto Gil, há muito além da música. Há a sua presença, há os instrumentos insólitos da banda, há luz e sombra, há movimento e muito o que ver. E, pensando nisso, conclui que tuitar o show também não deixa de ser uma maneira de fazer a sua tradução para quem não pode ouvi-lo; uma maneira de levar o que acontece para além dos limites imediatos do palco e do teatro.

Mais tarde, procurando informações sobre os intérpretes do Theatro Net, descobri um depoimento emocionante de Moira Braga, deficiente visual que também assistiu ao show naquele dia da estréia, e que se beneficiou da presença de uma outra espécie de tradutora, a audiodescritora Nara Monteiro:

“Vocês devem estar se perguntando: Audiodescrição? Num show de música? Mas precisa? O importante num show não é ouvir a música? Sim, vou a um show para ouvir a música. (…) O grande barato de assistir um show ao vivo é sentir a energia dos músicos, os seus improvisos, a troca com a plateia… Mas ontem, para mim, foi muito mais que isso. Para quem enxerga, pode parecer óbvio, mas foi tão especial poder saber como era o cenário e a iluminação; saber que Gil ficou sozinho no palco e trocou de violão para tocar “Ladeira da preguiça”; quando e como se comunicava com os músicos; e estes, multiinstrumentistas, saber quando eles trocavam de instrumento e quem estava tocando o quê; sem falar que os instrumentos tradicionais eu até identifico com certa facilidade, mas, e quando o músico toca duas folhas de lixa… ou uma faca raspando e batucando num prato de louça… Isso eu jamais poderia imaginar! Nara Monteiro, minha amiga e audiodescritora preferida, foi precisa, como sempre. Sem interferir no espetáculo e aproveitando os momentos oportunos, mas sem perder também o instante, ela audiodescreveu lindamente o show. Acho que foi uma noite inesquecível para todos que estavam no teatro”
(O Globo, Sociedade, 11.4.2014)

Uma noite no Saara

Acordei só assim, do nada, no meio da noite. Eram 3h44. Cama quentinha, silêncio absoluto e muita vontade de virar para o outro lado e continuar dormindo; mas lá fora havia o Saara. Levantei, acendi a lanterna do celular, vesti o casaco por cima da camisola comprida e saí da tenda. A areia estava tão fria que quase tive a sensação de pisar na neve; voltei para pegar as sandálias e arrisquei uns passos para além dos limites do meu confortável casulo.

Sempre ouvi falar nas noites amplas, geladas e cheias de estrelas do deserto. Confirmo a amplidão e o gelo, mas nada posso dizer sobre as estrelas. Na noite em que dormi no Saara o mundo que os meus olhos alcançavam estava iluminado por uma lua cheia esplendorosa, brilhando através do ar mais puro e seco que se possa imaginar; e entendi, retrospectivamente, o que os personagens de tantas histórias que li diziam quando se propunham a aproveitar a lua cheia para levantar acampamento de madrugada.

Permaneci alguns minutos parada, muito quieta, admirando a imensidão e tentando absorver o fato extraordinário de estar onde estava, no deserto dos desertos, no cenário de livros e filmes que me encantaram a vida inteira. Olhei a noite, igual às noites que viram milhares de caravanas ao longo do tempo; tentei discernir algum barulho, por mínimo que fosse; mas a noite do deserto não é só ampla e gelada, é muito, muito silenciosa. E é também destituída de qualquer cheiro — perfume, ranço ou fedor — qualquer coisa, enfim, que se comunique com as narinas humanas.

Voltei para a tenda vencida pelo frio. Antes de adormecer de novo, sonhei acordada com T. E. Lawrence, com tuaregues e beduínos, com a Legião Estrangeira, com as Mil e uma noites. Dormi assombrada com o Grande Mar de Areia e tudo o que ele representa, na História e na lenda, mal acreditando que estava mesmo lá.

o O o

Desde criança eu tinha a curiosidade de saber como se chega ao deserto. Camelos e homens não aparecem do nada nas dunas de areia; eles saem de algum lugar, percorrem caminhos, atravessam cidades… Onde termina o mundo habitável e começa o deserto? Como é essa fronteira?

A primeira coisa que descobri é que, ao contrário do que eu imaginava, o deserto não é feito unicamente de dunas. Na verdade, elas cobrem apenas 15% da sua extensão — mas 15% de uma extensão como a do Saara, comparável em seu total à da China, ainda é muita coisa. A maior parte do deserto é feita de um solo árido, coberto de pedras: uma paisagem agressiva, sem o esplendor, o colorido ou o ondulado das areias. Nessa paisagem despontam, aqui e ali, uns arbustos e árvores retorcidas, e encontram-se leitos de antigos rios hoje desaparecidos. Muito de vez em quando, saídos sabe-se lá de onde, há pastores de cabras com pequenos rebanhos, que acenam quando os jipes passam, levantando poeira.

Para chegar ao deserto com que sonhamos, àquelas dunas que através dos séculos encantaram e apavoraram viajantes em igual medida, é preciso percorrer muito chão. O Marrocos tem ótimas estradas, mas elas acabam nos limites do razoável, nas pequenas cidades erguidas às margens do Saara; dessas aldeias saem estradas de terra que correm por algumas dezenas de quilômetros, e que aos poucos desaparecem na vastidão lunar que — subitamente percebemos — já é o deserto.

Num determinado momento, indo em direção ao acampamento, o motorista do nosso 4 x 4 fez meia volta. Perguntamos o que havia acontecido, e ele explicou que havia pegado o caminho errado. Olhamos em volta, perplexos: que caminho? Tudo o que os nossos olhos destreinados viam era um mundaréu de chão e pedra, chão e pedra, chão e pedra. Os guias que vivem na beira do Saara, os tropeiros de dromedários e os motoristas de jipes ganham um bom dinheiro resgatando turistas idiotas que acham que podem dirigir sozinhos até os seus bivouacs.

Alguns quilômetros e horas depois, chegamos finalmente ao Saara tal como o vimos em “Lawrence da Arábia” e em “O céu que nos protege”, para mim os dois filmes que têm as mais lindas cenas de deserto da história do cinema. O sol já ia baixo quando saltei do jipe, descalça, sentindo a areia fina e ainda morna na sola dos pés.

o O o

Há acampamentos para todos os gostos e bolsos no Saara do Século XXI. Nossas tendas, com o chão forrado de tapetes e lindas como quartos de luxo, tinham água corrente (trazida por caminhões-pipa) e luz elétrica (fornecida por geradores movidos a energia solar). Dizem que na Líbia e na Jordânia há acampamentos que têm até sinal de celular e acesso à internet, mas gostei do “meu” deserto estar de fato isolado do mundo.

Tomamos chá, conversamos sentados em pufes dispostos sobre tapetes e, mais tarde, depois de um jantar simples mas delicioso, nos reunimos em torno da fogueira, ouvindo os quatro guardiões do acampamento cantarem músicas berberes que falavam de viagens e de longas separações. Ali no escuro, entre o nada e o lugar nenhum, percebi, mais do que em qualquer outra ocasião, o valor de um bom músico ou contador de histórias; e imaginei a mesma cena, repetida do mesmo jeito, na longa noite dos tempos.

o O o

Trouxe garrafinhas da areia fina e avermelhada do Saara para a família. Nina, que vai fazer cinco anos em agosto, estendeu a mãozinha. Bia derramou um pouco do deserto na palma aberta. Nina olhou, mexeu, revirou:

– Nossa, mamãe! Como é leve!
(O Globo, Segundo Caderno, 10.4.2014)

Baterias inchadas: perigo!

Meu amigo Rafa apareceu lá em casa com um problema muito esquisito: a bateria do seu Galaxy S2 estava tão inchada que ele não conseguia fechar a tampa traseira do aparelho. Não sou especialista em baterias, nem precisaria ser, para perceber que algo ali estava muito, mas muito errado: como assim, uma bateria inchada?!

A primeira coisa que notei, assim que vi a famigerada peça: era uma falsificação. A cor, a tipologia e as características gerais coincidiam com as das baterias da Samsung, mas os números de modelo e série estavam borrados e ilegíveis. Rafa encontrou a bateria a um “preço camarada” no MercadoLivre; tive a triste missão de informar a ele que não existem baterias a “preços camaradas”. Baterias são sempre caras, no Brasil mais do que em qualquer outro lugar do mundo, mas este é um caro com o qual não convém negociar. Diga-se a favor do Rafa que, antes de partir para o mercado cinza, ele tentou comprar uma bateria original — mas a autorizada da Samsung não dispunha mais do modelo para o seu Galaxy S2.

Postei a foto da bateria na internet, com uma advertência contra os perigos das falsificações, e fiquei surpresa com a quantidade de pessoas que me contou que passou pela mesma coisa… com as baterias que vieram nos seus aparelhos, portanto originais de fábrica!

Eu sabia que baterias pegam fogo do nada e que às vezes até explodem, mas nunca soube que baterias incham.

Pois incham.

Pesquisando o assunto na web, encontrei alguns casos, todos descritos por usuários manifestando o mesmo grau de surpresa que me causou a bateria do celular do Rafa. Até mesmo baterias de MacBooks podem inchar, se ficarem ligadas direto na corrente: meu colega Rafe Needleman, editor da antiga revista Byte hoje escrevendo para o Yahoo Tech, descobriu isso há dois meses, quando sua mãe lhe pediu para dar um jeito no computador, que não estava funcionando. O motivo? Uma bateria tão inchada que chegou a deformar o chassis da máquina…

O curioso é que este assunto, digamos, explosivo, ainda não ganhou a atenção que merece. Há mais perguntas do que respostas e, perigo!, muitas dicas do que fazer para “dar jeito” em baterias inchadas — quando o único jeito seguro é substituí-las o mais rápido possível.

(Em tempo: baterias usadas não se jogam no lixo! Recomenda-se levá-las às lojas de operadoras, que as recebem e enviam para a reciclagem apropriada.)

As baterias incham, basicamente, por três motivos:

– Excesso de carga. Um cenário típico é ir dormir e deixar o celular espetado no carregador a noite inteira. Na vastíssima maioria dos casos não acontece nada. Mas carregadores defeituosos, inadequados, com amperagem ou voltagem diferente do carregador original do aparelho podem prejudicar a bateria. A regra de ouro é ter sempre carregadores de boa qualidade, em boas condições de funcionamento. Vale lembrar ainda que nenhum aparelho portátil, que usa bateria — notebooks, tablets, smartphones — foi feito para ficar permanentemente conectado à corrente elétrica; esta foi a causa mortis da bateria do notebook da mãe do Rafe Needleman.

– Calor. Se a bateria esquenta muito rapidamente, seja por exposição ao sol e outras fontes de calor, seja por excesso de carga ou por uso intenso, pode, eventualmente, inchar.

– Defeito de fabricação. Aí, claro, não há nada a fazer — exceto se precaver contra a compra de baterias falsificadas, que são, mesmo quando não incham, uma garantia de dor de cabeça. Se você encontrar a bateria de que precisa a um preço muito mais barato do que o cobrado habitualmente, desconfie. Não há milagres no mundo das baterias. Encare o custo Brasil, e exija o selo da Anatel. Com certas coisas, convém não facilitar — e as baterias estão, certamente, entre essas tais coisas.

(O Globo, Economia, 5.4.2014)

A verdadeira dor de cotovelo

Dizem que a medina de Fez, declarada Patrimônio da Humanidade em 1981 pela Unesco, tem mais de 9.500 ruas e vielas, das quais mais de mil sem saída (e inúmeras com menos de um metro de largura). Eu mal percorri 95 e fiz um estrago considerável nas minhas finanças. É que nesta extraordinária cidade do Século IX encontra-se de tudo, de bumpers para iPhone vindos da China por 15 dirhans (menos de cinco reais) a tapetes extraordinários, tecidos de acordo com técnicas milenares, por dezenas de milhares de dólares.

o O o

Medina, palavra que em árabe significa cidade, é o nome que se dá, na África do Norte, às antigas cidades muradas. Ficar dentro ou fora da medina significa ficar dentro ou fora dos limites das muralhas.

o O o

Ao contrário das medinas de Marrakech e de Essaouira, mais voltadas para o comércio com turistas, a medina de Fez é um entreposto essencialmente local, onde marroquinos fazem negócio entre si como vêm fazendo desde o começo dos tempos. Há antiquários e vendedores de bugigangas e lojinhas de souvenirs, mas há ainda mais alfaiates, armarinhos, açougueiros e verdureiros; há biroscas que vendem petiscos deliciosos por nada, e copos do melhor suco de laranja do mundo a meros três dirhans, equivalentes a alguns centavos de real. Há jarras de carne de camelo cozida e conservada em gordura que Ibn Battuta, o grande viajante marroquino do século XIV, não estranharia; e mais cabeças de carneiro assadas, queijos de cabra embrulhados em folhas de palmeira, doces cobertos de mel e do zumbido de abelhas. Há homens que trazem sacos de chinelas que produziram em casa para vender no atacado para os comerciantes, há serralheiros, tecelões e marceneiros. Há também rapazes que, a cada esquina, me perguntavam quanto custou o meu telefone e quanto eu queria por ele; sabiam tudo a seu respeito, mas ficavam encantados por encontrá-lo ao vivo e a cores, porque este modelo ainda não chegou ao Marrocos. Eu mostrava o aparelho e tirava uma ou outra dúvida dos garotos, mas me sentia como uma viajante do futuro perdida num warp esquisito do tempo.

No meio da caminhada, depois de atravessar um túnel mais baixo do que eu, dei de cara com um palácio de mosaicos fantásticos com um pé direito de quase 20 metros de altura, onde funciona uma cooperativa de tapeceiros e onde ninguém sabe dizer exatamente quantas centenas de milhares de peças estão abrigadas. Na saída, virando à esquerda numa ruazinha onde mal cabem duas pessoas lado a lado, fica uma das mesquitas mais antigas da África, um esplendor escondido por uma parede sem importância, mais ou menos como se a entrada da Candelária ficasse por trás de uma portinhola irrelevante na Rua Senhor dos Passos. No primeiro degrau, uma velhinha berbere de rosto tatuado pedia esmola com dois gatos no colo. E eu pensando que os mendigos que vi em São Francisco, pedindo uns trocados para os seus gatinhos, estavam revolucionando a mendicância…!

Fiquei apenas três dias em Fez, mas poderia ter passado uma vida explorando os seus labirintos. Com exceção de Varanasi, na Índia, nunca toquei no passado tão de perto, e nunca senti, de forma tão absoluta, que o tempo não existe.

o O o

De modo geral, as ruas das cidades marroquinas são bem calçadas. De modo geral. Em Essaouira, delicioso posto à beira mar que os portugueses chamavam de Mogador, uma delas não era. E foi nela, no segundo dia de viagem, que eu tropecei, perdi o equilíbrio e levei um tombo patético e ridículo, como soem ser os tombos. Caí, como dizem os ortopedistas, da minha própria altura, o que não chega a ser grande coisa. Na hora, salvo o orgulho, nada ficou ferido, não me cortei, não ralei nada. Mas, pouco depois, braço e tornozelo começaram a doer horrivelmente.

Resultado: na volta a Marrakech, no fim da tarde, fui direto para a Clinique Internationale, onde me examinaram e me mandaram radiografar o pé. O braço sequer chegou a impressionar a médica que me atendeu primeiro. Nada foi constatado além de uma entorse no tornozelo; o médico que me atendeu em seguida queria por gesso, mas odiei a ideia e, sobretudo, odiei o médico, que além de estar todo vestido de preto ficava coçando uma caspa incongruente na cabeça careca que me encheu de nojo e aflição. Diante da recusa, ele receitou um analgésico básico, uma pomada anti inflamatória e um curativo com álcool, que se desfez assim que deixei o hospital.

Quando cheguei ao hotel, convoquei a Junta Médica do Facebook, que riu do analgésico, deu gargalhadas da pomada e me recomendou o uso de uma boa tornozeleira, mesmo conselho do fisioterapeuta que me atendeu em Rabat dias depois. Passei as duas semanas seguintes com ela no pé, e o tornozelo sarou.

Foi preciso voltar ao Brasil, porém, para descobrir que, além de quebrar o cotovelo, consegui fazer várias coisas sinistras com os músculos e tendões do braço direito — agora já bem tratado e atendido, mas ainda muito dolorido.

Minha primeira reação retroativa foi de irritação com a medicina marroquina. A segunda foi de agradecimento. Se o braço lascado tivesse sido imediatamente diagnosticado, eu não teria como deixar de imobilizá-lo; teria também ficado assustada com o seu estado, e teria evitado fazer muitas coisas interessantes, de fotografar a andar de dromedário no Saara.

A sorte tem formas bem esquisitas de se manifestar.

(O Globo, Segundo Caderno, 3.4.2014)