Xperia Z2: sonho de consumo

Na semana passada, escrevi sobre a SmartBand, pulseirinha de fitness que acompanha a edição brasileira do Xperia Z2. E que tal o novo topo de linha da Sony? A primeira coisa que chama a atenção nele — como já chamava no seu irmão mais velho Z1 — é o visual clean: duas placas de vidro, frente e verso, com uma estreita barra de alumínio nas laterais, emoldurando a tela Full HD de 5,2 polegadas. Isso faz do Z2, pelo menos para mim, o mais bonito e elegante dentre todos os aparelhos Android; mas, sendo um Sony, é claro que tem bem mais do que beleza a oferecer.

Como o seu antecessor Z1, ele também é a prova d’água. Realmente à prova d’água, ou seja, pode ser utilizado numa piscina durante cerca de 30 minutos, a um metro e meio de profundidade, categoria IP 58.

Parênteses para uma explicação: o código IP, ou International Protection Marking, é um padrão estabelecido pela IEC (International Electrotechnical Commission) para disciplinar a descrição dos níveis de proteção de aparelhos mecânicos e eletroeletrônicos. Afinal, expressões como “à prova d’água” ou “à prova de poeira” são termos vagos, mais apropriados ao marketing do que à engenharia de produtos. As tabelas do código IP estabelecem valores de proteção bastante claros para cada algarismo. Fecha parênteses.

O que se faz com um smartphone debaixo d’água? Fotos subaquáticas, naturalmente, já que bater papo a um metro e meio da superfície não é prática recomendável. O X2 está muito bem equipado para isso. Tem uma ótima câmera de 20.7 megapixels e, detalhe importante para quem gosta de fotografia, um botão dedicado, que desperta a câmera quando pressionado, mesmo que o telefone esteja dormindo. Os controles manuais deixam um pouco a desejar justamente onde são mais necessários, no foco, que não pode ser inteiramente ajustado pelo usuário, como no Lumia 1020, ainda o padrão pelo qual se medem todas as câmeras de smartphones. Por outro lado, o modo Superior Auto do X2 produz excelentes imagens, embora limitando o seu tamanho a 8 megapixels. Como de costume, a câmera tem vários modos pré-definidos. Um deles, que usa efeitos de realidade aumentada, é particularmente engraçadinho, e adiciona dinossauros, elementos de festas e uma quantidade de temas que podem ser baixados da Playstore ao que capturamos: uma brincadeira simpática, que vai fazer sucesso com as crianças.

Na área de vídeo, o novo topo de linha da Sony, que tem estabilizador de imagem e recursos de câmera lenta, é um aparelho à frente do seu tempo: ele faz filminhos em 4K. Para apreciá-los plenamente, porém, é preciso ter uma TV 4K, por enquanto coisa para poucos. Em compensação, graças a esse detalhe, o aparelho vem com impressionantes 3Gb de RAM; há outros 16Gb para armazenagem, expansíveis a 128Gb com cartão micro SD. O som estéreo, com cancelamento de ruídos, é muito bom.

Seu concorrente direto é o Samsung Galaxy S5, que vem com configurações igualmente avançadas. O Galaxy S5 tem leitor de digitais, como o iPhone 5S, e bateria removível, duas indiscutíveis vantagens; já o Xperia Z2 tem um grande trunfo na televisão digital. O S5 é menos anfíbio (é apenas resistente a água, e não deve ser submerso) mas, por outro lado, tem um ótimo sensor de batimentos cardíacos. A interface do Xperia Z2 é mais ágil, consome menos memória e é mais bonita; o acabamento do aparelho da Sony também ganha do da Samsung mas, até por ser vidro, esquenta mais do que o S5. Os dois estão na mesma rarefeita faixa de preço, em torno dos R$ 2.500, mas o Sony se sai melhor também nesse quesito por trazer a SmartBand incluída na caixa; a Gear Fit da Samsung, que deve ser comprada separadamente, custa cerca de R$ 650.

(O Globo, Sociedade, 18.7.2014)

Tudo parado

Houve um tempo em que ir à Barra era tão fácil que a Bia até estudou lá quando criança. A mãe de uma coleguinha vizinha nossa levava as meninas de manhã, eu buscava; era gostoso pegar o carro e ter uma distância boa para percorrer sem pressa e sem trânsito, ouvindo música e arrumando as ideias na cabeça, ao sabor do vento temperado de maresia que entrava pela janela. Mais gostoso ainda era voltar com as meninas no banco de trás, tagarelando sobre as novidades da escola.

Naquela época ainda fazia sentido ter carro no Rio. Também fazia sentido ir eventualmente à Barra, escola da Bia à parte. Fazíamos compras no Carrefour, íamos ao cinema ou às compras no Barra Shopping, às vezes almoçávamos no Ettore ou, aventura das aventuras, ainda mais longe, em Pedra de Guaratiba. Num que outro fim de semana frequentávamos a Prainha. Também íamos comer bacalhau no Encantado e empadinhas de camarão na Tijuca. As distâncias, contadas em quilômetros e não em horas, faziam parte de um hábito que morreu em algum momento do século passado, e que se chamava “passear de carro”.

Eu adorava passear de carro! Quando estava sozinha e tinha uma folga no trabalho, saía de casa sem destino definido, e ia aonde o dia me levasse. Explorava ruas que não conhecia, subia ladeiras, rodava por Santa Teresa, pela Muda, pelo Grajaú. Havia sempre uma surpresa interessante pelo caminho, uma casa simpática, uma árvore bonita. O Centro, engarrafado desde sempre, era um dos poucos lugares que não me atraía: era impossível passear de carro onde o trânsito exigia tanta atenção. Eu não gostava muito de dirigir, nem gostava particularmente de carros, mas a sensação de liberdade que sentia ao rodar sem destino, ampliada pela alegria de descobrir os cantinhos secretos da minha cidade, não tinha preço.

o O o

Na sexta-feira retrasada peguei um táxi em frente de casa, na altura do Corte de Cantagalo, para ir à Fonte da Saudade — uma corrida boba que, normalmente, leva cerca de dez minutos, e custa uns 12 ou 13 reais. Pois levei uma hora e meia e paguei 40 reais. Em vários momentos tive vontade de descer do carro e seguir a pé, mas fazia um calor insuportável, eu estava com uma roupa pouco apropriada para derreter ao sol e, além disso, seria covardia abandonar o motorista sozinho com o prejuízo.

Na segunda-feira passada tive que ir à Barra. A corrida, se é que se pode chamá-la assim, levou duas horas. O percurso, que antes me dava tanto prazer, há tempos se tornou um suplício; hoje só vou à Barra por absoluta necessidade, e faço o que posso para que essa necessidade seja cada vez menor. Não há comércio, restaurante ou espetáculo que justifique tanto tempo perdido.

O horrendo trânsito do Rio, que já ultrapassou São Paulo como cidade mais engarrafada do Brasil — e que ostenta o tristíssimo título de terceira cidade mais engarrafada do mundo — acaba com a alegria de qualquer um. Não é só o tempo perdido, o estresse sem fim; ficamos cada vez mais confinados aos nossos bairros, perdemos o prazer de percorrer e de descobrir a nossa cidade. A vida fica menor.

o O o

Em plena época de internet banking preciso pagar a taxa de um visto no HSBC no caixa, em dinheiro vivo. Passa um pouco das três, e há uma fila monstruosa no banco. Há também um clima de revolta, porque os caixas batem papo entre si, tranquilamente, diante da multidão que só faz crescer.

Clientes aos berros, uma criancinha histérica, vida selvagem total.

A tela que mostra o número do atendimento não funciona: desde que eu cheguei está no 133.

Um rapaz diz que está lá desde o meio-dia. Quando lembro que há legislação obrigando os bancos a atenderem em 20 minutos, no máximo 30 em véspera de feriado, todo mundo cai na gargalhada.

– A senhora não costuma ir muito a banco não, né? — pergunta o rapaz.
Não, não costumo. Faço saques e depósitos em caixas eletrônicos, e resolvo o resto da minha vida bancária pela internet. Não me lembro quando foi a última vez que tive que ir a uma agência, e sou muito grata a Vint Cerf e a todos os magos da rede por isso.

Os clientes que vêm da área dos caixas, escondida por um biombo, gritam para os que estão na fila os números liberados. Uma senhora engraçada vai além, e fica um tempo entre a área dos caixas e a área onde estamos berrando os números, como se estivéssemos num bingo. A ideia, me parece, é não só prestar um serviço aos demais, como constranger os caixas. No fim acabamos todos rindo juntos, xingando os bancos e o governo, brasileiros irmanados no descaso com que somos tratados.

o O o

As crianças, que fazem cinco anos daqui a duas semanas, descobriram a morte. Assistiram a “Thriller”, do Michael Jackson, e ficaram muito impressionadas. Querem saber o que acontece com as pessoas e com os bichos, pedem aos familiares que prometam não morrer tão cedo e estão com pavor de cemitério. Passando por acaso em frente ao São João Batista, a Bia tentou desfazer um pouco do medo:

– Olha o cemitério! Vocês estão vendo? Não tem nada de assustador, é até bonito.

Nina olhou, olhou, olhou.

– Quando as pessoas morrem viram estátuas, mamãe?
(O Globo, Segundo Caderno, 17.7.2014)

O autoconhecimento numa tira de plástico

Elas ainda são relativamente novas por aqui, mas começam a aparecer cada vez mais nos pulsos de quem curte atividades físicas e/ou tecnologia: são as pulseirinhas de fitness, como a Fitbit, a Jawbone Up ou a Nike Fuel, para ficar só nas mais populares. A mais nova da turma atende por SmartBand SWR10, é fabricada pela Sony e vem junto com o smartphone Xperia Z2, um dos mais interessantes topos de linha Android, num casamento bastante competente de tecnologias. Ela também pode ser comprada separadamente, mas convém conferir antes se é compatível com o seu celular.
Como a Fitbit, a SmartBand é uma discreta tirinha de plástico que abriga um pequeno computador. A Sony o chama de Core; ele pesa seis gramas, resiste a água e a poeira e é carregado através de uma entrada USB, em geral por uma ou duas horas a cada quatro ou cinco dias. O Core se conecta com o Xperia Z2 através de NFC ou Bluetooth.

A simbiose com o aparelho é, por sinal, o grande ponto de diferença da SmartBand em relação à concorrência: ela se comunica com o usuário através de vibrações no pulso, e pode avisá-lo quando se afasta demais do smartphone (perfeito para pessoas esquecidas) ou quando o aparelho está tocando (ideal para quem carrega o celular na bolsa e não escuta o toque quando está em lugares barulhentos). Através da pulseira também é possível silenciar o toque do Xperia Z2, ajudar a encontrá-lo fazendo-o tocar e até mesmo controlar alguns apps de música.

Outra ótima função exclusiva da pulseirinha da Sony é o despertador inteligente, que permite programá-la para entrar em ação no momento em que o nosso sono está menos pesado. Assim acordamos mais suavemente e mais bem humorados, para alegria de nossas caras metades.

Como toda pulseira de fitness, é no registro das atividades físicas que está o forte da SmartBand. Ela registra número de passos, horas de caminhada, de bicicleta e de corrida, quantidade de calorias queimadas, horas de sono — e, ao contrário da Fitbit e da Up, percebe sozinha quando vamos dormir. Por outro lado, a SmartBand não informa quando alcançamos a meta que nos propusemos, o que é uma pena; eu, pelo menos, fico muito feliz quando a Fitbit me avisa que já caminhei o suficiente para um dia.

Mas as pretensões da SmartBand vão além do simples relatório físico. Sua interface com o usuário se faz através de um app chamado Lifelog, e lá ficam registradas praticamente todas as nossas atividades diárias. O Lifelog marca quanto tempo perdemos no trânsito, quanto gastamos com telefonemas, redes sociais e com a internet, quanto jogamos videogames, ouvimos música ou assistimos a vídeos e televisão. Ele marca até quanto tempo lemos, desde que o façamos através de aplicativos de leitura. Há ainda uma função de marcador, ativada por meio de um toque no botão da SmartBand: uma janelinha a ser preenchida se abre automaticamente no celular, muito prática para registrar encontros ou momentos especiais. Imagino que em futuras atualizações possa vir a ganhar contornos de diário ou álbum de recordações.

As informações colhidas pela pulseira são cruzadas com o Google Maps e com programas de meteorologia, de modo que, quando o Lifelog nos apresenta seu relatório final do dia, em forma de filminho, ele ainda nos mostra sol ou chuva no plano de fundo. É fofo.

Infelizmente tudo isso só funciona, por enquanto, quando concentramos as nossas atividades no smartphone. Falta uma extensão web ao Lifelog, ou um app para PC, para que ele possa registrar as nossas atividades também quando estamos no computador.

(O Globo, Sociedade, 11.7.2014)

Dias horríveis

“Nossa, que bosta” escreveu a Clarah Averbuck, ainda agora, no Twitter. “Humilhação em copa dói mesmo no coração.” São dez da noite de terça-feira, e ainda não consegui digerir o que aconteceu, há poucas horas, no Mineirão. Escrevi muitos tuites, postei um lindo filme sobre Barcelona no Facebook para desanuviar, seguido de uma ótima piadinha de engenheiro e de umas fotos dos gatos, mas é como se estivesse fazendo tudo isso em piloto automático. Concordei com a Clarah. “Jamais senti isso!”, me disse ela. Eu também não. Sempre achei o drama de 1950 um exagero, uma espécie de lenda urbana da psique nacional, mas agora, pela primeira vez na vida, entendo o que os espectadores daquela partida sentiram: uma tristeza profunda atravessada pela perplexidade e por um sentimento de humilhação dolorido e inexplicável.

A palavra chave é essa mesmo: inexplicável. Não há explicação lógica para esse sentimento malsão. Afinal, eu não estava jogando, não estava no estádio, sequer gosto de futebol… Como na velha piada, não me chamo Joaquim nem moro em Niterói, então o que é que eu tenho a ver com isso? Com um jogo que assisti pela televisão? Em tese nada, na verdade tudo. Vá entender. Rimos muito da goleada que a Espanha levou, e talvez um dia venhamos a rir da goleada que levamos, mas agora, nessa noite apropriadamente chuvosa, não consigo achar a menor graça em nada.

Vi o Brasil perder da França em 2006 ao vivo, na Alemanha, nas quartas de final, e, como todo mundo, fiquei muito triste — mas um a zero é resultado que não envergonha ninguém. Aí é possível dizer, como tantas vezes repetiram os comentaristas hoje, “que é do esporte”. Um dia a gente ganha, um dia a gente perde, normal. Perder de sete a um numa semifinal jogada em casa, porém, pode ser tudo, menos normal.
Não sei como se sente uma torcedora no dia seguinte a uma derrota tão estrepitosa. Vou descobrir amanhã. Mas tenho certeza, de antemão, que esse jogo nunca mais me sairá da memória.

o O o

O outro choque do dia aconteceu mais cedo, quando fiquei sabendo que a Arquidiocese, aparentemente dona dos direitos de imagem do Cristo Redentor, censurou o episódio do José Padilha no filme “Rio, eu te amo”. Como assim?! Em que mundo nós estamos?! Como é que, em pleno ano de 2014, ainda aceitamos que a Igreja tenha o poder de vetar o que quer que seja?! O Cristo não é, não pode ser, de ninguém, muito menos de uma entidade tão retrógrada! Ele é um dos principais símbolos do Rio, transcende a religião e, como tal, pertence a todos nós, à cidade inteira, sem qualquer distinção de credo.

O arquiteto Miguel Pinto Guimarães tem toda a razão quando propõe que os cidadãos cariocas movam uma ação popular para a retomada do Cristo. Ele é importante demais para ficar em mãos tão obscurantistas.

o O o

Na sexta-feira passada, dia de jogo do Brasil, dia de jogo no Maracanã, feriado, véspera de fim de semana, quando não havia ninguém olhando e as atenções do país estavam todas na Copa, a prefeitura removeu parte dos gatinhos do CASS para o Gatil São Francisco de Assis. A operação começou antes das seis da manhã, quando ainda estava escuro, e foi um perfeito exemplo de covardia e falta de transparência.

A Secretaria Especial de Proteção e Defesa dos Animais, que deveria ter tomado a defesa dos bichos, curvou-se sem tugir nem mugir às ordens superiores. Num bate boca por WhatsApp com uma conhecida protetora, o secretário nem tentou disfarçar: “Fui “convocado” para dar apoio à operação. A ordem não foi revogada pelos de “cima” até agora.”

No meio da tarde de segunda-feira, depois de receber milhares de emails, o prefeito finalmente se manifestou a respeito do assunto. Postou uma nota em tom meigo na sua página do Facebook, falou em “gatinhos” e “bichinhos” no diminutivo, mas não ofereceu qualquer explicação aceitável para a ação, a não ser a eterna e furada desculpa de que animais oferecem riscos à saúde da população.

Ora, se o secretário Rafael Aloisio Freitas e o prefeito Eduardo Paes estão tão convencidos de que fizeram a coisa certa, por que não convocaram a imprensa, antecipadamente, para explicar a remoção dos gatos? Por que não ouviram ninguém? Por que não fizeram uma ou duas feiras de adoção antes de condenar os bichanos? Por que não realizaram toda esta operação na segunda-feira, num horário compatível com a honestidade e com as boas intenções?

Não acho que o CASS seja um lugar ideal para os gatinhos; não é. Áreas urbanas, em geral, não costumam ser locais seguros para eles, as verdadeiras vítimas do convívio entre humanos e felinos, ao contrário do que quer fazer crer a Vigilância Sanitária. Mas a remoção de colônias é um método ultrapassado, hoje condenado por sociedades protetoras de animais em todas as partes do mundo.

Administradores de fato interessados no bem-estar dos bichos fazem campanhas educativas para a população, punem com rigor o abandono e diminuem as colônias através da castração. Juntá-los em depósitos de bichos que nunca têm funcionários suficientes, e onde animais sadios misturam-se a animais doentes, está longe de ser uma solução.

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Enquanto isso, em Santa Catarina, a cidade de Araquari dá exemplo de como se comporta uma comunidade verdadeiramente comprometida com a sorte dos animais de rua: uma nova lei municipal dá descontos no IPTU para quem adotar e mantiver em sua posse um gato ou cachorro abandonado.

(O Globo, Segundo Caderno, 10.7.2014)

Meus aplicativos Windows Phone favoritos

Volto ao tema da semana passada, o mundo dos aplicativos para Windows Phone, atendendo ao pedido de leitores que me perguntam quais são os meus favoritos e quais recomendo para quem acaba de comprar um aparelho com este sistema operacional. Na verdade, não há diferença entre as duas listas. Tanto as pessoas que usam o WP há tempos como as que estão começando querem, basicamente, a mesma coisa: aplicativos práticos, úteis, bem resolvidos e fáceis de usar.
Como escrevi na sexta passada, descobri, para minha surpresa, que tenho nada mais nada menos do que 126 aplicativos. Alguns dos meus favoritos já vieram pré-instalados no Lumia 1020:

– Here Maps, competentíssima reposta da Nokia ao Google Maps;

– Nokia Beamer, que transforma o aparelho em projetor, mostrando a sua tela em qualquer TV;

– Nokia Creative Studio, que além de alguns filtros prontos, oferece recursos muito interessantes para o tratamento de imagem, como o desfoque de áreas determinadas ou cor seletiva (em que, numa foto em preto e branco, se podem destacar elementos de uma única cor), além de ajustes para equilíbrio de cores, contraste, brilho e claridade.

Outros bons aplicativos:

– Background Designer, como o nome diz, ferramenta para criar papéis de parede. Custa R$ 3,99, mas vale a despesa, não só pela beleza dos abstratos que se podem fazer com ele, como pelo divertido da brincadeira;

– Transparency Tiles, complemento perfeito para o Background Designer, que cria blocos transparentes para substituir as cores sólidas originais dos ícones dos aplicativos;

– Evernote, velho favorito que cuida do armazenamento de tudo o que precisamos online, de notas rápidas a longos textos que encontramos na web e guardamos para ler depois;

– Cloud6, cliente para Dropbox. Muita gente, aliás, acha que o Evernote e o Dropbox são a mesma coisa, mas os dois são animais distintos. O Evernote salva tudo em forma de notas, que podem ser consultadas visualmente, como se fosse um grande álbum de recortes; já o Dropbox salva arquivos, como se fosse um armário onde se guardam caixas, sendo ideal para manter álbuns de fotos e vídeos. É importante notar que ambos são ferramentas de nuvem, ou seja, só funcionam quando há uma conexão internet disponível;

– Bing Translator, tradutor imprescindível para quem viaja. Os textos (ou palavras isoladas) podem ser digitados, fotografados ou falados; o aplicativo trabalha com mais de 40 idiomas, e tem alguns pacotes de línguas prontos que podem ser baixados para uso offline;

– MetroTube, excelente substituto para o YouTube, que ainda não fez versão oficial para o Windows Phone;

– MoliPlayer Pro, indispensável para quem gosta de assistir vídeos no smartphone. Ele lê praticamente todos os formatos de vídeo existentes, dos mais simples mp4 e AVi a RMVB, MKV, FLV, FLAC, APE, OGG… enfim, deem-lhe qualquer sopa de letrinhas que ele traça. Vale cada centavo dos R$ 5,99 do preço;

– Netflix, outra necessidade básica para quem assiste vídeo. O download é grátis, mas é necessário ter assinatura do serviço, que põe milhares de filmes e seriados ao alcance do espectador;

– Kindle, o leitor da amazon.com;

– WhatsApp, claro: hoje não há mais quem não viva sem essa esperta ferramenta de comunicação;

– Facebook, a razão número para conexão de muita gente;

– Twitter, a aldeia global;

– 6Tag, substituto do Instagram melhor do que o original;

– MixRadio, maravilhoso streamer de música gratuito da Nokia, que funciona também offline. Está passando por dores de crescimento: a última atualização veio com alguns bugs, mas isso deve ser resolvido logo;

– CamCard, scanner de cartões de visita que, através da câmera, os transfere rapidamente para a lista de contatos;

– OfficeLens, scanner de documentos muito eficiente da própria Microsoft.

(O Globo, Sociedade, 4.7.2014)

Crônica de várias mortes anunciadas

E, mais uma vez, os gatinhos do CASS (Centro de Administração São Sebastião), o centro administrativo da prefeitura, estão ameaçados. As protetoras locais foram informadas de que os cerca de 150 bichinhos serão transferidos amanhã, dia de jogo do Brasil, quando o mundo inteiro estará de olho na televisão — momento ideal, portanto, para levar a cabo este ato covarde e arbitrário. A própria legalidade da remoção é questionável, já que os gatos do CASS se enquadram perfeitamente na definição de animais comunitários, sendo bem alimentados e bem cuidados, apesar da contínua sabotagem da administração.

Diz a Lei: “Fica considerado como animal comunitário aquele que, apesar de não ter proprietário definido e único, estabeleceu com membros da população do local onde vive vínculos de afeto, dependência e manutenção.” Ver a prefeitura ir frontalmente contra uma lei municipal não é o que se possa chamar de exemplo de cidadania.

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A colônia do CASS existe há mais de 15 anos. Ela começou como começam todas as colônias urbanas: com o abandono irresponsável de animais. Cresceu a princípio desordenadamente, mas logo foi adotada por funcionários da prefeitura, que passaram a cuidar dos bichinhos com atenção e amor. Hoje eles são alimentados com ração premium, são castrados e tratados em clínicas veterinárias quando adoecem. As despesas saem do bolso dos protetores e protetoras, que fazem o trabalho que o estado deveria fazer.

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No papel, a ação da prefeitura parece inofensiva. Na prática, é um ato de enorme violência, a começar pela captura dos animais, que são feridos, têm membros quebrados e frequentemente morrem atropelados ao fugir de ações deste tipo. Mais grave ainda, porém, é a destruição do equilíbrio em que vivem. Numa colônia antiga como a do CASS, há animais que nasceram e cresceram no mesmo lugar, obedecendo a uma “cultura” de hierarquias formada por grupos e famílias que aprenderam, ao longo dos anos, a dividir o espaço entre si.

Tudo isso já seria bastante grave se os gatinhos fossem levados para um espaço adequado; mas não é o que vai acontecer. Seu destino é o Gatil São Francisco de Assis, que não tem espaço sequer para os animais que para lá foram transferidos originariamente do Campo de Santana. Elogiei este gatil na época em que foi inaugurado, mas me arrependi do elogio poucos meses depois, quando os gatos tiveram que ser abrigados na Fazenda Modelo (que de modelo não tem nada) por causa da queima de fogos durante o desfile das escolas de samba: pelo menos cinquenta não voltaram desse retiro forçado.

Nenhum abrigo público do Rio de Janeiro tem um mínimo de condições para oferecer uma vida digna aos animais. No papel eles podem ser muito bons e muito bonitos, mas na vida real são meros depósitos de bichos, com falta de veterinários, sem equipes especializadas e com as famosas “escalas vermelhas”, em que os animais sadios adoecem e os doentes morrem.

“Escala vermelha”, aprendi recentemente, são aqueles fins de semana e feriados em que todo mundo falta. Precisa chegar às oito? Ora, tanto faz, chega-se ao meio-dia. É para sair às cinco? Sai-se às duas, que ninguém é de ferro. E daí se os bichos ficarem sem comer? E que diferença faz se os doentes não tomarem os remédios? São apenas gatos… Há pouco tempo uma protetora encontrou um dos siameses do gatil agonizando numa gaiola da Fazenda Modelo, esquálido, espetado num frasco de soro vazio. Este será o destino dos gatinhos do CASS, que a prefeitura quer tirar das mãos das pessoas que os alimentam regularmente, chova ou faça sol, e que não deixam de medicá-los, quando precisam.

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Recebi um pedido de socorro das protetoras, desesperadas com a decisão da prefeitura. Ele veio com fotos de 31 gatinhos, identificados pelos respectivos nomes — mas há muitas outras fotos, e cada um dos animais não só é conhecido pelo nome, como pela sua história. Nos abrigos os nomes se perdem junto com a história, e os bichos deixam de ser indivíduos para se tornarem estorvos, criaturas inconvenientes das quais a prefeitura só quer distância.

O pior é que a remoção de colônias já se provou inútil em todas as partes do mundo. A forma de lidar com animais de rua é controlando a sua população através de castração, adoção e campanhas educativas para coibir o abandono. Hoje se retiram 150 animais; amanhã serão abandonados outros tantos.

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O problema dos bichos abandonados não vai ser resolvido, no Rio, enquanto a prefeitura não tiver um plano a longo prazo. Não se resolve uma questão grave como o abandono, por exemplo, com a remoção de animais para depósitos insalubres onde deixam de ofender a sensibilidade de quem não gosta de peludos.

A Sepda, Secretaria Especial de Promoção e Defesa dos Animais, não é sequer uma secretaria de verdade; não tem orçamento, depende de favores daqui e dali e do humor do prefeito e de seus assessores. Faz castrações de animais, é verdade, mas em número muito inferior ao que seria necessário, e não tem cacife para combater as más intenções da subsecretaria de Vigilância, Fiscalização Sanitária e Controle de Zoonoses, que só enxerga nos animais uma ameaça à saúde pública. Mais um pouco, e vamos ver carrocinhas circulando novamente pela cidade.

Para dizer a verdade, com o desprezo que a nossa atual administração devota aos bichos, não sei como isso ainda não aconteceu.

(O Globo, Segundo Caderno, 3.7.2014)

Anna Clara Herrmann e o talento para garimpar joalheiros

Quando Anna Clara Hermann fez 15 anos, ganhou um delicado colarzinho de ouro, comprado com sacrifício pelos pais, funcionários públicos. Ele foi o seu orgulho durante quase dois anos, até ser roubado num assalto. Traumatizada, decidiu, naquele momento, que nunca mais usaria joias. Decisão radical de garota assustada, e história tão comum que poderia ser definida um clássico carioca — se a vida não a tivesse levado, logo depois, aos braços de um moço talentoso chamado Antônio Bernardo, que viria a se tornar seu marido e, com o correr dos anos, um dos mais renomados joalheiros do país; e não a tivesse transformado na criadora e curadora da principal vitrine da joia brasileira, o Joia Brasil, responsável pelo lançamento de tantos designers.

É claro que a decisão de nunca mais usar joias não durou muito ao lado do marido joalheiro; mas ainda hoje, apesar de ter passado as três décadas seguintes literalmente cercada por pedras e materiais preciosos, ela conserva um jeito despojado de se enfeitar. Nós nos encontramos para esta entrevista no seu apartamento, localizado num prédio tombado do Jardim Botânico. Era um daqueles dias de trânsito infernal; o trajeto que eu faria em vinte minutos me tomou mais de uma hora, mas quando cheguei, Anna Clara ainda estava presa no caminho.

Ela chegou pouco tempo depois, esbaforida porém elegante. Vinha de um almoço com clientes do Fashion Mall, com quem percorrera a exposição que acabara de montar lá. Eu, que esperava uma usuária de jóias importantes, me surpreendi com os brincos minimalistas e a discretíssima pulseirinha de ouro. Fiz uma observação qualquer nesse sentido; foi quando ouvi a história do antigo colarzinho.

– Eu tinha acabado de passar no vestibular de Direito para a UERJ, ainda não tinha 17 anos e estava toda feliz voltando para casa quando um cara se sentou ao meu lado no ônibus vazio, encostou uma faca no meu pescoço… e lá se foram os meus trocados e o meu colar tão lindinho!

Na época, ela sonhava ser diplomata e estudava francês, inglês e alemão; mas mal começou as aulas na UERJ quando o pai foi trabalhar em São Paulo.

– Como adorei aquela cidade! Fiz prova, passei para a USP, frequentava encantada a Faculdade do Largo de São Francisco; mas eis que meu pai se desentendeu com o governador, que na época era o Maluf, e lá viemos nós de volta para o Rio. Eu passei daquele espetáculo que era a Faculdade de Direito da USP, onde tinha aula com gente como o Dalmo Dallari, para a UFRJ, onde os professores viviam em greve, os alunos viviam na rua e o prédio vivia interditado, porque o teto estava caindo — enfim, mais ou menos como hoje.

A desilusão acadêmica durou pouco, mais exatamente até a festa do casamento de uma amiga, onde conheceu o futuro marido. Escola de direito, Itamaraty, inglês, francês, alemão, tudo ficou para trás; ela só tinha olhos para ele. Literalmente: anos depois, numa outra festa, ao ser apresentada ao jornalista e escritor Edney Silvestre, ela lhe disse que ambos já se conheciam de antigos carnavais em Angra. Silvestre não se lembrava. Anna Clara identificou-se então como ex de Antônio Bernardo e ele levou um susto: “Mas você era tão quietinha! Vivia colada nele, nunca dizia nada…”

Não precisava; estava ao lado do seu príncipe encantado e ele era tudo o que ela queria. Os dois tiveram duas filhas, Barbara e Alexia (hoje com 30 anos e 27 anos, respectivamente, ambas trabalhando com o pai) e só não foram felizes para sempre porque a vida real, como a gente sabe, não é um conto de fadas. Mas a paixão deixou marcas fortes e, sobretudo, uma guinada profissional radical. De tanto acompanhar produções de moda, ela descobriu uma vocação inesperada. Foi assim que, em 1990, veio parar aqui no GLOBO, trabalhando com Patrícia Veiga e Mara Caballero, sempre como responsável pelas jóias nas produções do Ela. Foi a partir deste posto de observação privilegiado que descobriu um contingente de designers extraordinários e de pequenos joalheiros, que não tinham como mostrar a sua produção.

Uma de suas “descobertas” foi Bia Vasconcellos, artista plástica que faz jóias grandes, lindas e multicoloridas, e que tem uma história parecida com a sua: um dia, a empregada eficiente, simpática e recém contratada foi embora… levando consigo todas as joias da patroa.

– Fiquei tão traumatizada que passei dias chorando, em estado de choque, — relembra Bia. — Aí, como a Anna Clara, decidi que nunca mais teria joias, com exceção de três anéis que decidi fazer para mim mesma, quase como terapia. Aconteceu, então, de algumas clientes se apaixonarem pelos anéis e me pedirem para fazer peças para elas também. Eu concordei. E foi aí que apareceu a Anna Clara, que viu algumas pessoas usando joias minhas, gostou, e me pediu uma entrevista. E me deu página inteira! Mais tarde, quando fez o primeiro Jóia Brasil, me chamou. De modo que, se me tornei essencialmente joalheira, devo isso a ela.

A história se repete com muitos e muitos profissionais, que atribuem a Anna Clara e à sua persistência em levar adiante o Jóia Brasil a visibilidade que passaram a ter.

Tudo começou em 2002, quando Eloyza Simão, então responsável pelo Fashion Rio, fez uma reunião informal com as jornalistas da área para ouvir as suas propostas em relação ao evento. Anna Clara propôs um espaço especial para joias, foi voto vencido mas, quanto mais pensava na ideia, melhor ela lhe parecia; de modo que resolveu tocar o projeto sozinha. Convocou os designers, com eles alugou o restaurante do MAM para um almoço fechado e chamou a imprensa, sobretudo estrangeira. O sucesso foi tão grande, e os resultados tão bons, que, no semestre seguinte, o Joia Brasil estreou em espaço próprio, na Sala Lygia Clark. Resultado: Anna Clara deixou o jornal, e mergulhou de cabeça na produção e curadoria do salão.

– A grande invenção da Anna Clara foi criar uma vitrine para os pequenos ateliers e para os designers em geral numa época em que a joia brasileira era definida pelos grandes fabricantes — diz Francisca Bastos, designer hoje reconhecida internacionalmente, e que participa do Joia Brasil desde aquela primeira exposição. — Essa projeção foi muito importante para o estabelecimento de uma identidade autoral em relação às joias brasileiras, não só aqui, como no exterior.

Francisca observa que, ao mesmo tempo em que apresentava as joias ao público, o Joia Brasil apresentava também os designers de todo o país uns aos outros.

– O nosso trabalho é normalmente muito solitário, ainda mais quando temos ateliers de portas fechadas, como é o meu caso. Cada qual trabalha para o seu lado. De repente, você está numa exposição ao lado de pessoas que usam os mesmos materiais que você usa, usam as mesmas pedras, mas produzem peças completamente diferentes… Até por este contato e essa troca, não dá para subestimar a importância do trabalho da Anna Clara. Imagina tantos anos disso, contra todas as adversidades e mudanças de lugar, mas sempre com a maior receptividade; imagina quanta gente não passou por essas exposições, entre público e designers. E imagina quanta gente não descobriu um mundo que nem sabia que existia.

o O o

Como todo mundo que faz alguma coisa no Brasil, Anna Clara vem se especializando, cada vez mais, no jogo de cintura. Ela tem que lidar com as dificuldades habituais dos empreendedores brasileiros e, de quebra, com alguns fatores muito peculiares da sua área. O país tem uma relação ambivalente com joias, vistas como celebração, por um lado, e, por outro, como ostentação e excesso; a violência piora a situação, porque ninguém tem mais coragem de sair com nada na rua. Isso para não falar no famigerado custo Brasil, que, de uns anos para cá, tem dificultado enormemente as exposições no exterior: o público de lá vê os nossos preços e cai na gargalhada.

O Jóia Brasil sobreviveu galhardamente aos solavancos e às mudanças do Fashion Rio, mas, paralelamente, Anna Clara está sempre em busca de novos espaços. Ela consegue abrir janelas onde menos se imaginaria encontrar uma vitrine de joias, como no Casa Cor, por exemplo, ou em festivais de cinema brasileiro, e é expert em descobrir associações no mínimo inesperadas: a exposição da qual voltava no dia em que nos encontramos unia jóia e, imaginem, gastronomia — e foi um tremendo sucesso!

A organizadora do Jóia Brasil também sobreviveu à sua cota de solavancos pessoais. Há pouco mais de cinco anos, num exame de rotina, descobriu um câncer. Esteve muito, muito mal, até hoje sente o gosto da quimio na boca quando fala no assunto, mas em nenhum momento deixou de trabalhar. Há dois meses, enfim, recebeu a notícia que tanto queria ouvir: está curada.

De cabelos novamente longos, pronta para novas batalhas, sonda o horizonte em busca de espaços a conquistar. E, se alguém lhe pergunta como vão as coisas, responde, com a ironia do óbvio:

– Tudo jóia!

(O Globo, Rio, 22.6.2014)