Lumia 530: nas nuvens

Olhei para baixo. No gramado da Hípica de Santo Amaro, em São Paulo, dois cavalinhos, montados pelos respectivos cavaleiros, faziam evoluções. Estavam longe, não se viam muitos detalhes; confesso que eu também não conseguia olhar com atenção. É que eu estava a 50 metros do chão, sentada numa cadeira que, em tese, flutuava na atmosfera enquanto eu almoçava. Só em tese. Na prática, ela fazia parte de uma estrutura de ferro, muito solidamente implementada, que unia uma grande mesa a 22 cadeiras; mas não havia chão sob os meus pés, e uma das várias coisas que me angustiavam era o medo de que os meus sapatos caíssem lá de cima. Medos, como sabemos, são frequentemente irracionais; os mocassins que eu estava usando só saem dos pés se forem propositadamente descalçados. Mas desconfio que, mesmo que estivesse de botas muito bem amarradas, eu sentiria a mesma sensação.

Vivi essa experiência esquisita com um grupo de colegas convidados pela Microsoft para o lançamento do Lumia 530, pequeno e poderoso smartphone que acaba de chegar às lojas. Almoçamos nas nuvens, suspensos por um guindaste, em homenagem aos 15GB de espaço no OneDrive que ele oferece, gratuitamente, aos seus usuários. E ainda há quem diga que a tecnologia não é uma área de emoções fortes…

Mas, lançamento criativo ou não, o fato é que a Microsoft tem todos os motivos para festejar este aparelho: ele é o primeiro smartphone dual chip competente e atualizado a custar menos de RS 400 (o preço oficial, de R$ 399, ainda deve cair nas promoções das operadoras). Rodando o WP 8.1, que só agora começa a chegar aos demais aparelhos da plataforma, e com tela LCD de 4″, câmera de 5MP, 512MB RAM, 4GB de memória interna (expansíveis até 128GB com cartão SD), processador Qualcomm Snapdragon 200 de 1,2GHz, ótima bateria e aplicativos importantes como o Office e o Here Maps pré-instalados, ele tem especificações técnicas surpreendentes para a faixa de preço, e é muito bonitinho e bem acabado.

Seu antecessor 520, que custava 25% a mais na época do lançamento, há cerca de um ano, fez tanto sucesso, mas tanto sucesso, que acabou sendo um dos grandes responsáveis pela expansão do Windows Phone no país: a plataforma móvel da Microsoft, atualmente em segundo lugar na preferência dos brasileiros, superou em volume de vendas o iOS da Apple. O Lumia 530 deve ampliar a vantagem por uma boa margem, já que a concorrência direta, os Androids da mesma faixa de preço, não chegam aos seus pés nem no visual, nem no desempenho.

A estratégia da Microsft está à altura dessa belezinha de aparelho. O ponto fraco do Windows Phone ainda é a loja de aplicativos, e ela só poderá fazer frente às lojas da Apple e do Android quando tiver uma base de usuários suficientemente grande para convencer os desenvolvedores a criarem versões WP para os seus produtos. Ora, essa base não se cria só com topos de linha. A extraordinária expansão do Android, que hoje domina o universo dos smartphones, aconteceu graças à oferta de aparelhos em todas as faixas de preço: uma pesquisa rápida no Buscapé mostra LGs, Samsungs e Orions a partir de R$ 200. Sim, é verdade que eles têm câmeras de 2MP e sistemas operacionais inteiramente desatualizados, mas estão aí, são vendidos e é através deles que muitas pessoas descobrem o mundo maravilhoso dos smartphones. Quando elas estiverem prontas para fazer upgrade, é provável que busquem outros Androids, até para não perderem os aplicativos eventualmente adquiridos.

(O Globo, Sociedade, 29.8.2014)

Livros, livros, livros

Até outro dia as provas dos livros enviadas antecipamente para jornalistas vinham em cópias xerox encadernadas naquelas capinhas de plástico com espiral, e era preciso um interesse muito grande pela obra para encarar a difícil leitura. De uns tempos para cá, porém, algumas editoras têm antecipado seus lançamentos mais importantes em exemplares muito bonitinhos, quase iguais à versão final que chegará às livrarias. Eles vêm frequentemente com a capa definitiva, mas não têm orelhas, e trazem, na capa ou nas primeiras páginas, a informação de que são apenas provas, sujeitas ainda a eventuais erros de revisão.

Foi nesse formato para poucos que li “Tempos extremos”, o fantástico romance da Miriam Leitão (ainda não leram? pois corram imediatamente à livraria mais próxima!) e “A verdade sobre o caso Harry Quebert”, de Joël Dicker (um policial tão incensado pela crítica europeia que acabou me desapontando por ser apenas bom), e é nele que estou às volta com “O pintassilgo”, de Donna Tartt. Os dois primeiros são lançamentos da Intrinseca, o terceiro é da Companhia das Letras. Faz sentido: ambas são grandes casas, que cuidam exemplarmente dos seus lançamentos.

Comecei a ler “O pintassilgo”, que acaba de chegar às livrarias brasileiras, pouco antes de viajar para Montreal. Embora leia muito rápido, 720 páginas são 720 páginas; dois dias antes de embarcar, eu mal havia lido cem delas. Assim, pela primeira vez na vida me vi diante de um caso de Kindle agudo: não fazia nenhum sentido levar aquele tijolão na viagem. Mas eis que, por conta da briga da Amazon com a Hachette, não havia versão digital à venda; de modo que, muito a contragosto, interrompi a leitura.

Passamos duas semanas longe um do outro, o livro e eu. Situação perigosa: um intervalo desses é suficiente para interromper qualquer leitura para sempre. “O pintassilgo” tem, no entanto, tudo o que eu gosto num livro. Tem uma história envolvente, tem personagens interessantes, tem ritmo, tem referências culturais na medida certa e, finalmente, tem tamanho: adoro livros grandes, que me oferecem mundos para explorar por muitos e muitos dias. Nesse momento, vou mais ou menos a meio do romance. Ainda falta um bocado para chegar ao fim mas, pelo menos até aqui, está valendo cada palavra.

o O o

Estou gostando também da tradução de Sara Grünhagen, embora já tenha esbarrado duas vezes num problema que sempre me aflige em traduções de ficção: nomes de pássaros e plantas, comuns ou simples no país de origem, que acabam soando pedantes em todas as línguas que leio, e ganhando um destaque que não têm no original. Por exemplo: logo no começo, Theo Decker, o narrador, descreve a mãe como “um elegante chupim-do-brejo”.

Ora, eu amo pássaros, conheço os nomes de vários deles, mas tive que ir ao wikiaves para ver de quem se tratava: uma ave engraçadinha, mas sem nada de particularmente característico. E aí fiquei pensando, como sempre fico nesses casos, se não teria sido melhor trair o original, substituindo o chupim-do-brejo por um outro passarinho de nome menos esdrúxulo, em prol de uma leitura mais fluida (no original, Theo se refere a um “long elegant marsh-bird”, ótimo nome que já traz a explicação, “bird”, incluída no pacote — e que ainda assim é suficientemente simples para não dar-lhe ares de ornitologista ou observador de aves).

OK, OK. Eu sei que “O pintassilgo” deve ter bem umas 400 mil palavras, calculando por baixo, e eu aqui implicando com nome de passarinho. Mas não é pessoal: é que há tempos venho matutando sobre essa questão.

Pronto, passou.

o O o

Outra questão que me pega volta e meia: o “prazo de validade” dos livros. Acho triste que sejam lançados, comentados durante um breve período, e depois desapareçam no mundo. Sei que são milhares, que a fila anda e que é preciso abrir espaço para as novidades, mas — e quando o momento em que estamos prontos para a leitura não coincide com o momento do lançamento? Digo isso porque alguns dos livros que mais me encantaram este ano, e que recomendo de coração, não são lançamentos recentes. “River Town”, de Peter Hessler, de que já falei aqui, foi publicado em 2001; “Baghdad without a map”, de Tony Horwitz, que estou lendo paralelamente a “O pintassilgo”, é de 1991; “A casa do califa”, de Tahir Shah — sim, há uma edição em português, da Roça Nova Editora — mais recente, já tem, mesmo assim, oito anos. Mas há oito anos eu não sabia que ele existia, e nessa ignorância permaneci até ir ao Marrocos no começo deste ano e começar a procurar livros sobre o país…

“A casa do califa” é a deliciosa memória da reforma e da ocupação de uma casa cheia de personalidade e de assombrações em Casablanca, e fiquei triste de não tê-lo descoberto antes de viajar, porque certamente teria visto a cidade com outros olhos. O livro foi comparado pelo mundo afora com “Um ano na Provence”, de Peter Mayle, e com “Sob o sol da Toscana”, de Frances Mayes, mas acho que é mais rico e divertido do que os dois, até porque a cultura marroquina é bem mais exótica para nós, brasileiros, do que as suas equivalentes francesa e italiana. Se eu tivesse que compará-lo com algum outro livro, seria com mais um grande favorito meu, “A city of djinns”, em que o escocês William Dalrymple conta as aventuras da sua chegada a Nova Delhi — outro livro “velhinho”, que há dez anos faz a alegria dos seus leitores.

(O Globo, Segundo Caderno, 28.8.2014)

Adeus ao blogtequim

Hoje fechei o blog a comentários. Era mais ou menos inevitável, desde que a blogosfera, como costumava ser chamada, se transferiu para o Facebook, o über blog coletivo do nosso tempo. Lá estão os outros blogueiros, os leitores, as áreas de comentários vibrantes, a ação. 

A animada caixa de diálogos do internetc., o “blogtequim” dos velhos tempos, onde conheci tanta gente legal — e onde tantas pessoas legais se conheceram umas às outras — já não vivia mais. Arrastava-se, coitada, movida a uns poucos comentários, em geral repetindo o que amigos já haviam escrito no Facebook. Já há alguns meses os comentários estavam sujeitos à moderação, porque infelizmente, na internet, o segredo de uma área de discussão legível é a eterna vigilância, e não consigo manter essa vigilância em tantas frentes ao mesmo tempo. 

Em suma, o pobre internetc. tinha se tornado uma obrigação, e não o prazer que sempre foi:

– Socorro, — pensava eu com os meus botões. — Preciso ver como andam as coisas lá no blog!

Não, não é essa a relação que quero ter com a minha vida digital.

Agradeço muito a todos vocês que, desde 2001, me deram tantas alegrias, e fizeram deste blog um acontecimento. Foi um tempo maravilhoso, e me senti muito contente por participar de forma tão viva do crescimento da rede.

O internetc. continua no ar, é claro, agora como o que, oficiosamente, já vinha sendo nos últimos anos: um arquivo das minhas colunas do Globo e, eventualmente, de outros escritos. 

Valeu, turma!

Secret: o fim de uma linda ideia 

O Secret, ao que parece, foi removido ontem da AppStore brasileira, em obediência a uma ordem judicial. O aplicativo, um dos mais divertidos dos últimos tempos, tinha tudo para dar certo — #sqn. A ideia é ótima, ainda que não seja de todo original: um ambiente onde se podem postar confissões no anonimato. As frases brancas sobre fotos ou fundos de cores diversas, que podem ser mudadas com o deslizar do dedo, compõem um visual lindo, interrompido aqui e ali por mensagens de pessoas que querem ir direto ao assunto e usam o velho preto no branco. Dois iconezinhos na margem inferior direita marcam curtidas e comentários. O problema é que mesmo ferramentas criadas por pessoas de bem, cheias das melhores intenções, acabam caindo nas mãos de pessoas rudes e más. As pequenas mensagens, que deveriam em tese conter dúvidas, ideias e segredos, viraram um festival de baixaria, em que imperam calúnias e ciberbullying. Mas não era para ser assim.

“Não abro a geladeira há duas semanas, porque sei que tem um leite que azedou lá dentro. Estou tentando desesperadamente evitar aquele cheiro.”  

“Não importa quão velho ou ‘legal’ eu esteja; se vejo um tira, logo penso que vou ser preso.” 

 “Sempre que vejo pessoas sentadas sozinhas num bar converso com elas até seus amigos chegarem, ou as convido para a minha mesa. Na metade do tempo elas acham que sou maluco… Não me incomodo com isso.  O que me mata é vê-las olharem umas para as outras e conversarem, e eu ali, arrasado por estar sozinho.” 

 “Um dia, depois que nós nos casarmos, vamos fazer tatuagens gêmeas com os números de telefone que tínhamos quando éramos crianças.” 

Esses são alguns segredos estampados, em inglês, na página de abertura do Secret.ly, o website do aplicativo. Eles são o ideal, a teoria que, na prática, virou pesadelo. No Brasil, é preciso passar por muita besteira de adolescente, muito conteúdo sexual e muito, mas muito mau português, até chegar a alguma coisa que compense o tempo perdido. 

 Se fosse só isso, seria fácil, ainda que triste, ver um brinquedo dessa qualidade destruído por boçais. Mas é impossível ignorar um aplicativo que está causando tanto sofrimento. A maldade e a vulgaridade que tomaram o Secret de assalto não são problema exclusivamente brasileiro. As opiniões na página de download do aplicativo na Appstore americana adquirem, com frequência, um tom desesperado: 

 “Não baixem o Secret!!!” implorava, ontem, uma usuária. “O bullying virou uma praga, e aplicativos horríveis como esse só fazem estimular a prática!” 

 “Leiam isso!”, pedia outro usuário. “Esse aplicativo seria ótimo para pessoas maduras, mas adolescentes estão postando fotos de garotas peladas e pessoas já querem se suicidar. Este app deve ser tirado de circulação! Sinto muito por quem está curtindo, mas o app está levando muita gente à loucura, não podemos postar nada sem sermos julgados e xingados de nomes horríveis! Lamento, mas cansei de ver pessoas dizendo que querem ser matar e gente anônima respondendo para irem em frente.”

 Pois é. E a ideia por trás do Secret, que só ganhou o mundo em maio, era tão boa: seus criadores queriam oferecer um contraponto às personas perfeitas, felizes e editadas das redes sociais, onde ninguém realmente se abre. 

“Construímos o Secret para que as pessoas possam ser elas mesmas e compartilharem qualquer coisa que estejam pensando ou sentindo, sem julgamentos”, — escreveram por ocasião do lançamento. “Fizemos isso eliminando fotos e nomes dos perfis, e pondo a ênfase unicamente nas palavras e imagens compartilhadas. Assim, as pessoas podem se expressar livremente, sem restrições.” 

 Mas aí, justamente, está o X do problema: o ser humano não é um animal de confiança. Que pena. 

 

(O Globo, Sociedade, 22.8.2014)

Volta ao lar

Montreal é uma festa para quem gosta de mídia. A cidade tem quase 30 estações de rádio, nove estações de TV, quatro jornais diários (“La Presse”, “Le Journal de Montréal” e “Le Devoir”, em francês, e “The Gazette”, em inglês), três tablóides gratuitos e uma infinidade de publicações menores com periodicidade semanal, quinzenal ou mensal, do “The Suburban”, maior semanário do Quebec, com 145 mil exemplares, ao -“Corriere Italiano”, que circula entre cerca de 14 mil famílias de oriundi.

Mas, se sobram jornais, falta notícia. Para quem vem do Brasil, onde escândalos políticos, crimes e tragédias se sucedem com tal velocidade que ninguém consegue acompanhar direito o noticiário, a especialidade da imprensa canadense parece ser tirar leite de pedra. A intensa vida cultural da cidade recebe grande cobertura, e o clima, compreensivelmente, ganha manchetes e longas matérias; mas, tirando isso, há muito pouco enredo. A civilizada vida do Quebec, fraquíssima em emoções fortes, gera jornais tão anêmicos quanto o café local.  

Por exemplo, entre as notícias mais lidas no site do “The Gazette”, anteontem, estavam o caso de um web designer que conseguiu prender um menor que lhe vendeu um celular falsificado graças ao Google Maps, e o incrível roubo de 16 mil barris de xarope de bordo, o famoso maple syrup que faz a alegria de quem vai ao Canadá, estimados em 20 milhões de dólares.

Não sei se conseguiria viver no país, que é reserva natural da Kibon, mas com certeza conseguiria viver com essas notícias.

o O o.

Primeiro domingo de volta ao Rio, e lá fui eu com uma amiga ao cinema. Quando saímos do Estação Ipanema, o fim de tarde estava bonito e resolvemos voltar a pé pela Visconde de Pirajá. Caminhamos dois quarteirões, olhamos vitrines, tomamos café num botequim e nos indagamos o que faziam dois helicópteros sobrevoando a área. De repente, na altura do Bob’s, demos com a rua fechada e com uns carros de polícia. Fomos assuntar, e ficamos sabendo que um ladrão havia entrado na igreja da Praça Nossa Senhora da Paz e feito o padre refém, depois de assaltar uma farmácia e a loja da Nike, e trocar tiros com policiais.

Ficamos mais curiosas do que surpresas ou assustadas. As pessoas com quem cruzávamos na rua trocavam informações conosco sem sobressalto, amáveis vizinhos vivendo o cotidiano do bairro. Em frente à igreja, isolada com aquelas fitas amarelas e pretas de cena de crime, havia homens armados, mais viaturas e uma pequena multidão. Àquela altura, já sabíamos que o refém não era o padre, que o assaltante se refugiara na igreja mais ou menos à hora em que nos refugiáramos no cinema, e que a loja da Nike havia sido apenas alvejada, mas não assaltada.

Alguns gringos de bermuda e sandália havaiana olhavam de longe, muito impressionados. Eles haviam lido sobre a violência no Rio, acharam que era exagero dos guias de viagem e vieram mesmo assim. Esperavam tudo, menos uma cena de faroeste num domingo à tarde. Vão ter uma história e tanto para contar quando voltarem para casa.

O clima entre os moradores era de curiosidade e de revolta. Todo mundo queria ver no que ia dar aquele reality show, que só não era mais familiar porque ninguém se lembrava de jamais ter visto assaltante invadindo igreja. Já a revolta era dirigida ao governo e ao judiciário, unanimemente condenado por soltar os bandidos que a polícia prende.

– E olha que estamos em Ipanema, a vitrine da cidade — me disse uma moça que vinha da padaria. — Imagina o resto como não está…

– Isso não é nada, minha filha: imagina como não vai ficar tudo com esses candidatos que temos! — lembrou uma senhora que havia estado naquela missa fatídica, azedando de vez o humor de quem ainda mantinha alguma esportiva.

Como não podíamos seguir em frente, desistimos de voltar a pé. Minha amiga mora a três prédios de mim e, quando nos aproximamos do nosso destino, pedimos ao motorista para parar um pouco antes, para pegar um casal que esperava táxi na nossa rua.

– Muito obrigado pelo táxi! — agradeceu o rapaz. — Evitem ir a Ipanema, porque há um assaltante refugiado na igreja, e há polícia por todos os lados.

– Nós sabemos. Estamos vindo de lá, justamente.

– Nossa! Que risco vocês correram…

– Pois é: cenas da vida carioca.

o O o

E qual era o filme que fomos assistir? Era “Chef”, de Jon Favreau, que foi ao mesmo tempo roteirista, produtor, diretor e protagonista desse  suculento petisco. Favreau é Carl Casper, o badalado chef de um restaurante chique que, um dia, recebe uma crítica demolidora de um blogueiro de gastronomia. A partir daí — e com um bom empurrão das redes sociais — a sua vida se transforma. Não gostei muito do visual dos pratos preparados pelo chef, em geral pesados e gordurosos demais, mas, em compensação, adorei a história, leve e perfeita para quem quer ir ao cinema e deixar o mundo lá fora durante o tempo de uma sessão.

 

(O Globo, Segundo Caderno,  21.8.2014)

 

Clássicos para viagem

“Quando fui dar uma atualizada no velho WorldMate, excelente companheiro de viagem para usuários de PDAs, descobri que acaba de ser lançado em versão Symbian, quer dizer, compatível com certos modelos de celular — entre os quais meu fiel Nokia 7650″, escrevi em maio de 2004. “O programinha é um primor. Me dá o horário de cinco diferentes cidades simultaneamente, mostra num mapa onde é dia e onde é noite sobre a terra, oferece o tempo em todas as cidades do mundo em conexão direta com o Weather Channel e, maravilha das maravilhas, tem um conversor instantâneo que me diz automaticamente a quantos dólares ou reais equivalem os euros que vou gastar.”

Dez anos depois, continuo fã do Worldmate, um dos meus aplicativos de viagem favoritos. De lá para cá, ele passou por muitas mudanças — nem todas para melhor. O mapa mundi em que se podia ver dia e noite sobre a terra, por exemplo, não existe mais, assim como o relojinho com o horário de cinco diferentes cidades. Por outro lado, hoje ele cria sozinho um plano de viagem bem detalhado a partir dos emails de confirmação de voos e de reservas de hotéis ou de aluguel de automóveis recebidos pelo usuário, mostra os horários dos voos na agenda e permite acompanhar o seu status através de informações das companhias aéreas. Já não é o único na sua categoria, mas continua sendo uma ferramenta indispensável para quem viaja. Seu maior concorrente direto é o Tripit, mas continuo achando o Worldmate mais competente. Minha única queixa é que a sua versão para Windows Phone traz apenas o básico, ou seja, o plano de viagem. Ah, sim: os PDAs a que me referia no primeiro parágrafo eram os “Personal Digital Assistants”, categoria na qual se enquadrava o velho Palm. Quem se lembra?

O SeatGuru é outro clássico que vem dos velhos tempos pré-smartphone. Como tantos bons recursos da internet, ele também começou meio ao acaso, em 2001, quando um moço chamado Matthew Daimler resolveu dividir com outros viajantes informações sobre a disposição e os tipos de assento nas aeronaves. A página se tornou, em pouco tempo, fonte de consulta obrigatória para quem acha que “janela” e “corredor” são dados insuficientes para fazer uma escolha. Comprada pelo TripAdvisor em 2007, ganhou versões para iOS e para Android, e continua como base de dados colaborativa, mas cresceu e hoje funciona também como app para marcar passagens e estudar as melhores ofertas e itinerários.

Quando viajo, consulto o TripAdvisor (que comprou o SeatGuru, entre outras 17 empresas relacionadas a viagens) como verdadeira bíblia do turismo. Lá encontro opiniões recentes de outros viajantes a respeito de restaurantes, hotéis, atrações, voos, destinos. Alguns desconfiados suspeitam do sistema, usado hoje por mais de 32 milhões de viajantes em todo o mundo, achando que opiniões positivas podem ser plantadas pelos estabelecimentos; ao mesmo tempo, ele é alvo de polêmicas entre profissionais do setor hoteleiro, que às vezes se sentem injustamente avaliados ou sabotados por concorrentes.

Na minha experiência, porém, o TripAdvisor é bastante confiável, desde que se saiba consultá-lo. Cada viajante tem seus gostos e idiossincrasias, e é importante não considerar como defeito rotineiro algo que eventualmente aconteceu com outra pessoa. Eu, por exemplo, não presto muita atenção a reclamações sobre serviço — desde que não haja unanimidade em relação à má qualidade — porque sei que muita gente faz por merecer o mau serviço que recebe; mas levo sempre em conta aspectos menos subjetivos como localização e espaço.

Errata: escrevi errado o nome do tablet da Nokia a respeito do qual falei semana passada. Ele é o 2520, e não o 2025, que nem existe. Mil perdões!

(O Globo, Sociedade, 15.8.2014)

 

Winter is coming

Durante os dez dias que Mamãe, eu e as sereias vintage passamos em Montréal, um dos nossos programas favoritos era, ao fim dos dias de competição, sair para jantar nas cercanias do hotel — qualquer hotel, fosse o abominável Travelodge dos primeiros dias, ou o simpático Gouverneur, no coração do bairro gay, onde tivemos a sorte de conseguir um quarto para um final de temporada delicioso. As noites estavam lindas e frescas e fomos até premiadas com aquela super lua que tanto brilhou no hit parade.

Montréal é uma cidade calma e segura, e sinto dizer que, como cariocas, estranhamos quase tudo, a começar pelas calçadas limpas e bem conservadas, onde podíamos andar sem olhar para o chão. Estranhamos a segurança: saíamos com nossos relógios e nossas câmeras, andávamos sem pressa e sem sobressaltos, parávamos na rua para apreciar o movimento e tirar fotos, e em nenhum momento nos sentimos sequer vagamente ameaçadas. Estranhamos também a educação: os jovens sempre nos davam lugar no metrô, ninguém falava aos gritos em lugar nenhum, ninguém berrava palavrões nas ruas. Almoçamos e jantamos sem, uma única vez, ouvir o que era dito nas mesas vizinhas; e em quase todas as lojas e restaurantes reparamos, aliviadas, na ausência da música permanente que, no Brasil, faz da poluição sonora mais uma das irritações do cotidiano.

o O o

Encontramos a cidade no seu melhor. O sol se punha tarde, havia festivais acontecendo por toda a parte e havia até uma praia artificial montada no Porto, com areia e tudo, tal como fazem em Paris. Os canadenses exibiam pernas e braços muito brancos e aproveitavam cada segundo de calor. O verão caiu na semana que passamos em Montréal — e isso não é piada. Em junho choveu duas vezes mais do que o esperado, julho foi mais frio do que de costume, e já chovia torrencialmente quando o avião em que parti se preparava para decolar.

“Uma prévia do outono”, dizia a manchete de terça-feira do “Le Journal de Montréal”. No alto da página, a tragédia anunciada: dos ótimos 26 graus em que permanecera nos últimos dias, o termômetro cairia para 21 graus na quarta-feira, e depois para 18 graus, com previsão de chuvas e trovoadas. “Não é preciso entrar em desespero”, dizia a reportagem. “O outono ainda não veio para ficar, já que o sol e o calor voltam no domingo”. O meteorologista consultado tranquilizou a população: “É um parênteses mais fresco e chuvoso, mas vamos reencontrar o nosso verão. Não há motivo para inquietação.”

o O o

Mesmo no auge do verão, o inverno está sempre presente em Montréal. Ele pode ser visto nas portas duplas e pesadas das lojas, nas janelas que não se abrem, na busca incessante pela luz, sempre estranha para quem, como nós, vem de lugares que, ao contrário, anseiam por sombra. Bares e restaurantes têm paredes inteiras envidraçadas, para que a clientela que em breve se refugiará do frio possa aproveitar ao máximo as poucas horas de claridade.

Mamãe e eu ficamos muito bem impressionadas com a forma como as luzes fazem parte da arquitetura local. À noite os prédios têm detalhes iluminados, painéis coloridos, paredes lavadas em luz. No último dia é que nos demos  conta de que provavelmente isso não acontece para tornar as noites mais bonitas, mas sim para alegrar os dias curtos do inverno, quando o sol se põe no meio da tarde.

Por baixo das ruas que percorremos, há uma malha de ruas e espaços públicos subterrâneos; as saídas do metrô desembocam em galerias de loja, hotéis, cinemas e teatros. Tudo o que um ser humano precisa pode ser encontrado nessa outra cidade, construída ao abrigo das tempestades de neve.

Chegamos a pegar 30 graus em Montréal, mas esse calor, como o nosso frio, tinha um quê de irreal, de piada interna. O sol e o calor canadenses são elementos tão frágeis que a impressão que eu tenho é que se alguém matar uma borboleta na China, o inverno chega com tudo.

Winter is coming. Fato.

o O o

O inverno é só a parte mais visível do lado escuro de Montréal, uma cidade com muitas pontas soltas. O movimento separatista do Quebec, que nas últimas décadas comprometeu o desenvolvimento econômico da cidade, criou uma ditadura da língua francesa da qual os imigrantes com que conversei se ressentem, entre outras coisas porque seus filhos não podem estudar inglês nas escolas públicas.

Ao mesmo tempo, toda a civilização que se vê pelas ruas da cidade não é suficiente para dar a seus habitantes um mínimo de respeito pelos animais. Montréal cresceu graças ao comércio de peles, que continua firme e forte, travestido, agora, de “característica cultural”. Nas lojas que circundam a catedral, há porões repletos de casacos, estolas e tapetes. Um urso polar empalhado pode ser comprado por 45 mil dólares. A situação não é melhor para bichos domésticos: o estado do Quebec tem o pior histórico de maus tratos a animais no Canadá.

 

(O Globo, Segundo Caderno, 14.8.2014)