O rei do pedaço — ou quase

Para o jornal The Guardian, ele é “o melhor Windows Phone até hoje”; a revista Forbes faz coro, e repete a manchete com as mesmas palavras; o site Know your mobile diz que é “o rei dos Windows Phones”, enquanto o Engadget afirma que se trata, “simplesmente, do topo da pilha entre os Windows Phones”. O tom se repete em todas as análises publicadas até agora; as (poucas) restrições ficam por conta da vida da bateria, que realmente poderia durar um pouco mais, do sistema operacional e do ecossistema de aplicativos.

O Lumia 930, nova joia da Microsoft, merece mesmo o entusiasmo com que vem sendo recebido. É um aparelho excepcional, elegante e bem construído. Mas, talvez pela primeira vez, discordo em alguns pontos dos meus colegas no que tange a um topo de linha Nokia. É que, apesar de estar usando o Lumia 930 há coisa de três semanas, ainda não tenho certeza se gosto mais dele do que do Lumia 1020, lançado no ano passado.

É bem verdade que o 930 e o 1020 pertencem a famílias diferentes, mas, para mim, o trunfo da câmera de 41 megapixels do Lumia 1020 e o seu design matador, com laterais arredondadas em policarbonato (versus o look anguloso e metálico do 930), ainda são imbatíveis; não tenho coragem de tirar dele a coroa de “Rei dos Windows Phones”. Por outro lado, a tela do 930 e a sua velocidade humilham o 1020. Quem sabe não reinam juntos?

A tela de 5″ do Lumia 930, que tem uma ligeira curvatura nas laterais, suja menos do que a do 1020, e é, disparado, a mais agradável ao toque que já vi em qualquer aparelho, seja smartphone ou tablet. Quando vocês estiverem numa operadora, confiram isso — é tão interessante! A câmera, com lentes Zeiss, estabilização de imagem e 21 MP, é quase tão boa quanto a do 1020, perdendo para ela apenas em más condições de luz — mas aí é covardia, já que o sensor do 1020 só pode ser comparado aos de câmeras digitais compactas. Fotos e vídeos são, como seria de se esperar, um forte deste aparelho sólido e robusto, que tem uma outra característica de que gosto muito, o carregamento sem fio.

A maior desvantagem que encontro nele em relação a seu irmão mais velho é um detalhe pequeno, a respeito do qual, estranhamente, não vi reclamações até agora. O Lumia 1020 tem, como outros Nokia, um recurso chamado Glance: mesmo em standby, ele mostra data e hora na tela. Adoro esta herança, que ainda vem do tempo dos velhos celulares; agora mesmo, enquanto digito, os dois, 930 e 1020, estão lado a lado na escrivaninha. Mas enquanto na tela do 930 não se vê nada, na do 1020 fico sabendo que dia é e que horas são. Para obter as mesmas informações do 930, preciso dar um toque no aparelho, como em qualquer outro smartphone. Não sei por que a Microsoft não implementou esta característica no Lumia 930, mas realmente sinto falta dela.

Independentemente deste detalhe, o Lumia 930 é, com certeza, um dos melhores aparelhos lançados este ano, em qualquer sistema operacional. Já escrevi várias vezes, e esta não será a última, que considero o Windows Phone, especialmente na sua atual versão 8,1, o mais bonito, flexível e inteligente dos sistemas operacionais; a sensação que tenho ao usar o iOS, ou mesmo o Android, é de downgrade, por melhores e mais variados que sejam os seus aplicativos.

(O Globo, Sociedade, 10.10.2014)

Adeus, Iêmen

Não é incomum que os países que eu gosto de visitar apareçam cheios de avisos aos navegantes nos guias de viagem e na internet. No fim do ano passado, porém, buscando hotéis no Trip Advisor, esbarrei, pela primeira vez, com uma advertência oficial que recomendava aos viajantes não só não ir como, estando, sair o mais rápido possível. Isso eu ainda não tinha visto.

“O Departamento de Estado dos EUA adverte os cidadãos americanos do alerta de segurança máximo no Iêmen devido a atividades terroristas e distúrbios civis. O Departamento exorta os cidadãos americanos a adiarem viagens ao Iêmen, e aos que lá se encontram atualmente a partir.”

Não sou americana nem sou de levar muito a sério recomendações de burocratas sentados a quilômetros de distância, mas ignorar algo tão enfático não chega a ser uma atitude inteligente, de modo que lá se foi o meu antigo sonho de viagem para a prateleira dos destinos perdidos, junto com tantos outros países e cidades cujos simples nomes bastam para evocar séculos de encanto e de histórias, como Bagdá, Timbuctu, Peshawar, Kandahar, Mogadishu…

Assim como Timbuctu, hoje reduzida a 15 mil habitantes e se desfazendo nas areias do Sahara, Sanaa, a capital do Iêmen, também foi declarada Patrimônio Mundial da Unesco. As construções mais antigas e pitorescas das duas cidades não são exatamente parecidas, mas têm um certo sotaque de deserto em comum, e uma beleza tão original que chega a tirar o fôlego até em cartão postal. Em Sanaa elas podem ter nove andares, e são decoradas com pinturas que já chamavam a atenção dos visitantes no Século X.

Além dessa cidade fascinante, eu sonhava conhecer Socotra, uma espécie de Galápagos do Oceano Índico, que parece outro planeta com as suas árvores que não existem em nenhum outro lugar do mundo — mas está mesmo difícil.

Há coisa de duas semanas, Sanaa foi tomada por militantes Houthis, que assinaram um acordo de paz com o governo. Nem por isso a situação parece perto de se resolver. Os rebeldes ainda ocupam vários pontos da capital e controlam as suas vias de acesso, disputando espaço com a franquia mais violenta da Al Qaeda, natural do país. O site da nossa embaixada vai direto ao ponto:

“A situação de conflitos internos não recomenda o turismo.”

o O o

O que faz alguém que descobre que tão cedo não vai ao Iêmen? Manda vir livros, evidentemente. Assim é que me peguei lendo Freya Stark pela primeira vez.

Esta é uma daquelas personagens excêntricas produzidas com tanta regularidade pelo antigo Império Britânico: nascida na França e educada na Itália, viveu cem anos e foi agente do governo, fotógrafa, historiadora e exploradora, na época em que a acepção dessa palavra ainda era positiva. Falava árabe e persa fluentemente e casou-se em 1947, aos 54 anos de idade, com um diplomata e historiador homossexual, do qual separou-se em 1952. Entre uma coisa e outra ainda arranjou tempo para escrever duas dúzias de títulos autobiográficos e de viagens, embora hoje seja menos lida do que festejada como exemplo de mulher que não se curvou às restrições sociais.

Alguns dos seus livros mais conhecidos continuam sendo editados nos países de língua inglesa mas, ao que eu saiba, nenhum chegou a ser publicado no Brasil. Comecei com “A winter in Arabia”, um inverno na Arábia, escrito em 1937 durante uma viagem pelo Iêmen. Não foi paixão à primeira vista.

“Observada do alto, a borda tripla, preguiçosa e rendada das ondas avançava lentamente; elas não quebravam de uma vez, mas se desenrolavam de ponta a ponta num movimento em espiral, como se fossem o coração de uma concha se desenrodilhando. Nosso avião pairava sobre o azul do mundo com asas de prata.”

Ahn? Ondas rendadas? Azul do mundo? Asas de prata? E ainda estávamos na página 1! Não, aquela leitura não prometia ir longe. Mas insisti um pouco; afinal, em 1937 aviões ainda eram suficientemente raros para justificar certos voos literários. E não é que valeu à pena? Quando não se preocupa em fazer literatura, Freya Stark é uma ótima companhia: é destemida, observadora, aprecia gente e não tem frescuras. Gosto sobretudo da irritação que manifesta em relação a uma insuportável arqueóloga com quem faz parte da viagem, e das descrições do cotidiano nas pequenas aldeias. Sua abordagem em relação às condições de higiene locais continua valendo: tomar as precauções possíveis para evitar desastres, mas sem estresse e sem deixar de aproveitar a boa comida que se encontra pelo caminho.

O mundo que ela percorre parece estar a muitos séculos de nós. Ainda havia escravos no Iêmen de 1937, e as mulheres, que passavam a vida trancadas em casa, não podiam ir a parte alguma sem estar acompanhadas por pai, marido ou irmão. Agora já não há escravos no país, pelo menos não oficialmente, mas a situação das mulheres continua a mesma, se não pior. O fato é que, há 77 anos, Freya Stark circulava sozinha pelo interior e conversava cordialmente com os homens e mulheres que encontrava, coisa que hoje já não seria possível.

Pensando bem — o que mesmo é que eu ia fazer lá, hein?

(O Globo, Segundo Caderno, 9.10.2014)

Celulares e aviões

Ontem a Tam me mandou um desses questionários de satisfação de clientes, querendo saber o que achei do último voo que fiz para São Paulo. Timing perfeito! Eu estava mesmo querendo desabafar, e fiquei muito contente com a oportunidade oferecida. É que já não aguento mais o obscurantismo tecnológico que continua obrigando passageiros brasileiros a desligarem seus aparelhos eletrônicos durante pousos e decolagens, mesmo que esses aparelhos sejam inócuos como Kindles, câmeras digitais ou smartphones em modo avião.

Vocês leram a notícia aqui mesmo no jornal, há alguns dias — até a União Europeia, sempre tão prudente e conservadora, já liberou o seu uso; nos Estados Unidos, isso já acontece há pelo menos um ano. A decisão foi tomada com base no relatório final produzido por uma comissão de 28 membros representando companhias aéreas, fabricantes de aeronaves e de gadgets, pilotos e comissários de bordo. Mas, nos aviões da Tam, continua valendo a lenda urbana que reza que aparelhos eletrônicos derrubam aviões.

Reclamei disso há alguns dias, e a pequena nota que escrevi deu panos para as mangas. A maioria das pessoas não entendeu a minha postura em relação ao problema. Não é que eu ou qualquer outro passageiro não possamos passar algum tempo sem celular; é que a proibição, nos moldes em que é feita hoje, é ofensiva à inteligência de qualquer um que tenha dedicado um mínimo de reflexão ao assunto.

Se smartphones representassem qualquer perigo aos voos seriam simplesmente proibidos a bordo. É claro que não seriam jogados fora, como as indefesas tesourinhas de unha, mas seriam recolhidos antes do embarque e entregues aos passageiros depois do desembarque: isso acontece regularmente na Índia, por exemplo, com as facas dos passageiros sikhs, obrigados a carregá-las consigo por questões religiosas.

Muita gente apoia a proibição com medo de que os voos passem a ficar mais insuportáveis do que já são, com todos os passageiros falando ao mesmo tempo; mas essa é outra questão, que cabe decidir de outra maneira. Nos Estados Unidos o FCC proíbe conversas ao telefone durante toda a duração do voo, o que garante a (possível) paz a bordo, mas não impede que os passageiros leiam ebooks, trabalhem no computador, brinquem com seus joguinhos ou fotografem os pousos e decolagens.

o O o

Estamos a seis anos de uma marca histórica: em 2020, nosso consumo de dados poderá atingir 1GB por dia, o equivalente a dois filmes full HD. Isso será 122 vezes mais do que hoje, mil vezes mais do que em 2010. A previsão é da Nokia Networks, aquela parte da Nokia que não foi comprada pela MIcrosoft, e que continua funcionando firme e forte em Espoo, na Finlândia.

Faz sentido. Basta observarmos a forma como usamos os nossos smartphones, cada vez menos telefones e cada vez mais aparelhos multimídia para conexão e transferência de imagens, músicas, filmes. Mesmo os dados de quem não sabe fazer upload, e que teria dificuldade em explicar o que exatamente é “a nuvem”, são transferidos, imperceptivelmente, quando a opção de backup automático é ativada nos celulares. Com câmeras cada vez mais potentes, capazes de produzir vídeos e imagens cada vez mais pesados, não chega a ser difícil perceber como chegaremos, rápido, ao gigabyte universal.

A demanda de uso da internet móvel, aliás, promete ser um dos grandes temas da Futurecom, grande pajelança tecnológica que acontece este mês em São Paulo, reunindo o “quem é quem” da área de telecomunicações. A feira costuma ser grande e cansativa, mas é uma excelente oportunidade para se descobrir a quantas anda o mercado, e quais são as novidades que estão no forno.

(O Globo, Sociedade, 3.10.2014)

O Fiat, o contrabandista e a mãe de santo

“– Sempre achei que essa história seria bem compreendida no Brasil, onde os rituais do candomblé são tão parecidos com os dos exorcistas marroquinos” — concluiu Tahir Shah (depois de contar como livrou a Casa do Califa de uma infestação de espíritos). Eu estava pronta para contestar, do alto do meu ateísmo e da minha descrença universal, quando me lembrei de um caso que me aconteceu há muitos e muitos anos, e que envolveu um Fiat 147, um contrabandista e uma mãe de santo. Eu contaria essa história agora com o maior prazer, mas como o espaço já está no fim, ela fica para a semana que vem.”

Assim terminou a crônica da semana passada. Cumpro a promessa:

O caso aconteceu há muito tempo, no começo de um ano de que não lembro mais. Eu havia passado o Réveillon no sítio, em Nova Friburgo, e já no dia primeiro estava na estrada, sozinha, a bordo do meu Fiat 147, voltando para o batente. Vinha distraída numa reta quando fui parada por um grupo de pessoas nervosas:

– Para! Para!

– Um desastre!

– Dois carros!

– Uma família inteira…

– As crianças, coitadas!

– Muito sangue!

– Uma desgraça, uma desgraça!

Todos falavam ao mesmo tempo. Ali na frente, a poucos metros, os dois veículos destruídos, uma figura que eu não sabia se estava viva ou morta no meio da estrada, mais adiante um carro branco com as portas abertas, cercado por outras pessoas.

É curioso como funcionam as nossas lembranças: eu não me lembro de ter registrado se o corpo na estrada era de homem ou de mulher, mas me lembro do carro branco em detalhes, um adesivo horizontal no vidro traseiro. Também me lembro de ter me perguntado de onde havia saído aquela gente toda, já que além dos carros envolvidos no acidente não havia nada na estrada a não ser o tal carro branco, mas logo percebi uma birosca na beira do mato e umas casinhas miúdas.

– Moça, você leva a mulher do carro, que está muito mal.

Não era uma pergunta. Também não era uma ordem. Era apenas a conclusão a que alguém havia chegado a respeito do que devia ser feito. Antes que eu pudesse responder, a porta traseira do Fiat já estava sendo aberta, e uma senhora, que sangrava muito, foi deitada no banco. Um dos homens que a havia trazido bateu a porta e me mandou correr.

– Ali adiante tem um hospital, não fica longe.

Pode até ser que ficasse perto, mas o tempo de chegar me pareceu uma eternidade. Era evidente até para mim, que nunca havia visto uma pessoa agonizante, que a pobre mulher estava morrendo: respirava em bolhas, fazendo um barulho surdo, terrível. Depois de um tempo o barulho acabou, mas o silêncio era ainda pior. No meio do caminho, um carro da polícia havia emparelhado com o meu, e sinalizado para que o seguisse. Os policiais me escoltaram até o hospital, tomaram todas as providências necessárias e me disseram que eu não precisava me preocupar com mais nada: meu nome não constaria do BO.

Cheguei ao Rio moída, as lembranças horríveis martelando na cabeça. Não consegui dormir. No dia seguinte bem cedo fui até o posto para lavar o Fiat, mas quando viram aquela sangueira toda os funcionários se recusaram a tocar no carro. Percorri os outros postos da vizinhança, e em todos encontrei a mesma reação. Finalmente voltei para casa e o porteiro cuidou do assunto.

Mas o carro ficou esquisito; algo continuava errado. Mandei lavá-lo num lavajato. Não adiantou. Levei-o ao posto que, segundo meus amigos, fazia a limpeza mais bacana da cidade. Troquei os tapetes. E nada. Passei a me sentir muito mal dentro do querido Fiat e, muito a contragosto, decidi vendê-lo.

– Mas vai vender o carro novinho, que acabou de comprar? — perguntou o My
Friend, meu amigo contrabandista. — Por que?

Contei o que havia acontecido.

– É, a energia ficou pesada, — constatou. — Liga para a Mãe Deocleciana, ela pode dar um jeito nisso.

Fazia sentido. Com quem mais eu poderia resolver um problema daqueles? De modo que, no dia seguinte, liguei para o número que ele me havia dado. Mãe Deocleciana atendeu do outro lado, muito gentil. Eu disse quem era, falei do My Friend e contei a história.

– Que coisa, minha filha. Você tem um bom advogado?

– Tenho sim.

– Perfeito, perfeito. Isso é o mais importante. Pessoa morta, sangue no carro, não se pode facilitar com essas coisas… Agora você vai levar esse carro numa encruzilhada, vai acender uma vela em cada esquina e vai queimar uma buchinha de café dentro dele, viu?

Ela me ensinou como fazer a tal buchinha e, na calada da noite, lá fui eu para uma encruzilhada no Andaraí, morta de medo de ser vista por algum amigo. Cumpri as instruções, envergonhadíssima por ter embarcado naquela bobagem.

Mas, no dia seguinte, quando peguei o carro para levá-lo à revendedora, ele estava curado: voltara a ser o meu lindo Fiat 147, com as boas vibrações de sempre. Continuamos juntos e felizes ainda por vários anos. Quando liguei para Mãe Deocleciana para agradecer e para perguntar quanto lhe devia, ela respondeu que não era nada, ora essa. E despediu-se com um conselho:

– Cuidado na estrada!

(O Globo, Segundo Caderno, 2.10.2014)

A nova versão de um grande sucesso

No ano passado, a Motorola lançou um dos maiores sucessos da sua história: o simpático e competente Moto G, um smartphone tão bem resolvido, em termos de beleza, preço e eficiência, que acabou se tornando o seu aparelho mais vendido. A ideia por trás desse lançamento — um aparelho feito não para impressionar engenheiros, mas para dar ao usuário a melhor experiência de uso possível — funcionou tão bem que, este ano, a empresa viu-se diante de um desafio inusitado: como competir consigo mesma?

A resposta se materializou no começo do mês, na forma do novo Moto G. O próprio nome do aparelho, aliás, que continua igual, mostra a saia justa em que a Motorola se meteu — como mudar uma marca que caiu de tal forma nas graças do consumidor? Assim é que, mesmo correndo o risco de causar confusão nas lojas, o Moto G continua Moto G em 2014, assim como seu irmão mais parrudo Moto X continua Moto X.

O smartphone em si mudou pouco: a edição de 2014 não é uma revolução, mas uma evolução da de 2013. Seguindo a tendência geral do mercado, o novo Moto G cresceu, e em vez da tela de 4,5″ tem, agora, uma de 5″, igualmente protegida por Gorilla Glass. Esta é a mudança mais óbvia e mais visível; mas há outras diferenças, a mais prática, a meu ver, sendo um slot para cartão SD de até 32GB. Além disso, ele tem som estéreo frontal, melhores câmeras (agora com 8MP e 2MP) e TV Digital, uma característica exclusiva para o mercado brasileiro. Como seu irmão mais novo, ele também aceita dois chips, e vem com capinhas coloridas fáceis de mudar. O sistema operacional é o Android 4.4 KitKat, limpo e livre de bobagens adicionais.

O design, muito parecido com o do velho Moto G, é outro de seus pontos fortes: a Motorola realmente acertou ao fazer esses aparelhos elegantes e bem acabados, tão confortáveis de pegar. Isso para não falar nos preços, entre R$ 699 e R$ 799 (o modelo com TV). A única desvantagem em relação ao Moto G “antigo” é a ausência de LTE, que já existe num dos modelos do ano passado — mas, considerando-se a qualidade do nosso 4G, não sei se ela chega a ser relevante. Usei um novo Moto G ao longo da semana e não senti falta.

Uma boa característica invisível é a resistência a água. “Resistência”, reparem, não significa que o aparelho seja à prova d’água; não é, já que para isso precisaria ser hermeticamente vedável. Mas um produto o reveste, tanto por dentro quanto por fora, e faz com que aguente bem a água com que ocasionalmente um smartphone pode se deparar — e que, num modelo sem preparo adequado, pode ser fatal. Chuva, vapor do banheiro onde alguém toma banho quente, eventuais respingos da pia, a mão molhada de quem sai do mar ou da piscina. É possível até que escape da causa mortis mais comum entre os celulares, o fatídico mergulho na privada, já que sobreviveu a um teste de internet em que passou meia hora debaixo d’água.

Aliás, quando fui apresentada ao Moto G na sede da Motorola, em Chicago, uma das coisas interessantes que vi foi justamente esse produto de revestimento, em ação num lenço de papel. O lenço, igualzinho a outro qualquer, recusava-se a absorver a água que lhe derramavam em cima. Há um pequeno vídeo no YouTube que mostra um repelente de água em ação; não sei se é o utilizado pela Motorola, mas funciona da mesma forma. Confira aqui em baixo.

(O Globo, Sociedade, 26.9.2014)

O escritor e os exorcistas

Quando, numa fria tarde londrina, Tahir Shah perguntou à mulher o que ela achava de mudarem-se de armas e bagagens para o Marrocos, a resposta foi tão calorosa, e tão cheia de entusiasmo, que ele atirou-se imediatamente à procura de uma casa. Sua alegria, porém, durou pouco. Em vez de “Morocco”, nome do país em inglês, Rachana tinha entendido “Monaco”; e, quando ela passou a estranhar as suas constantes referências a Casablanca, Fez e Marrakech, ele se deu conta de que estava diante de um sério caso de ruído na comunicação. Assim começou uma aventura que já dura dez anos, e que deu origem a um dos melhores livros que li ultimamente, “A casa do califa” — aquele mesmo que recomendei há algumas semanas.

Descobri Tahir Shah assim que voltei do Marrocos, no começo deste ano. Fiquei tão encantada com o país que decidi aprender mais a seu respeito, e mandei vir uma quantidade de livros da Amazon. Comecei com “A house in Fez”, em que a neo-zelandesa Suzana Clarke conta como comprou e reformou uma casa na fantástica citadela medieval, mas este livrinho, ainda que bem escrito, não chegou a me cativar. Parti então para “A casa do califa”, de que gostei tanto que, ainda no segundo capítulo, fui novamente ao site da Amazon, para pedir o que mais o autor houvesse escrito.

Nem precisava ter ido tão longe: além de “A casa…”, a editora Roça Nova também já publicou aqui “Nas noites árabes”, uma espécie de continuação do primeiro, em que às histórias da adaptação da família à vida em Casablanca misturam-se contos das “Mil e uma noites”. Este foi outro volume que devorei em dois tempos, e do qual custei a me separar. Mesmo depois de terminada a leitura, voltei várias vezes ao livro, um capítulo aqui, outro ali, para reencontrar o Oriente mágico dos meus sonhos, infelizmente cada vez mais distante na vida real.

Eu ainda estava nesse namoro quando uma amiga me mandou um email perguntando se eu gostaria de bater papo com Tahir Shah na Livraria da Travessa. Ora, como não! Assim foi que, na segunda-feira passada, lá estávamos os dois, conversando sobre viagens, travel writing — aquele gênero literário que ainda não tem tradução adequada em português — e, claro, a famosa casa do califa. Para mim, foi como se Tahir Shah tivesse se materializado por um passe de mágica, ou saído de uma lâmpada maravilhosa. Afinal, quais são as probabilidades de que o autor que você mal acabou de descobrir esteja de viagem marcada para a sua cidade?

Como sabem os que leram o livro, a velha casa, que passara uma década desabitada, estava caindo aos pedaços quando Tahir, Rochana e seus filhos Ariane e Timur se mudaram para lá. Tudo precisava ser refeito, rejuntado, repintado. Este tipo de obra é uma dor de cabeça em qualquer lugar do mundo, mas no Marrocos, como em boa parte do mundo árabe, há um problema adicional: os djinns, espíritos que, supostamente, habitam todos os cantos. Ora, segundo os guardiões de Dhar Khalifa, a casa estava infestada deles, que precisavam ser despachados para que ela se tornasse de novo habitável. De início, ninguém deu muita bola à advertência, mas logo coisas estranhas começaram a acontecer. Objetos sumiam, manchas surgiam nas paredes do nada, móveis mudavam de lugar. Um dia, os gatos da família apareceram mortos.

Para mim, isso teria bastado para atravessar o oceano e nunca mais pôr os pés na vizinhança — não sem antes demitir os empregados! –, mas Tahir Shah é do tipo que não desiste nunca. Ele chamou os seus funcionários, que já viviam na casa há gerações, e perguntou o que é que achavam que devia ser feito para resolver o problema. E seguiu o seu conselho:

– Se eu morasse em Londres ou em Paris teria tido muita dificuldade para encontrar exorcistas, — contou ele, durante a nossa conversa. — Mas achar exorcistas no Marrocos não chega a ser um problema, e sai até bastante em conta. De modo que contratei vinte exorcistas, que trouxeram outros quatro de lambuja. Durante vários dias e várias noites eles ocuparam a casa, fazendo barulhos, dançando, tocando instrumentos. Sacrificaram diversas cabras, que depois comeram com gosto. A casa ficou ensopada de sangue. Minha mulher estava histérica, queria que os mandasse embora imediatamente; mas eles disseram que só iriam quando tivessem terminado o serviço. Concordei, até porque estava fascinado com aqueles rituais. Um belo dia, sem quê nem por que, os exorcistas entraram no caminhão em que haviam chegado e foram embora. Antes de partir, me entregaram uma folha de papel vagabundo rabiscada à mão: era um certificado de conclusão dos trabalhos, atestando que a casa estava livre de djinns pelos próximos vinte anos. Desde então, não tivemos mais problemas com eles.

– Sempre achei que essa história seria bem compreendida no Brasil, onde os rituais do candomblé são tão parecidos com os dos exorcistas marroquinos, — concluiu nosso herói. Eu estava pronta para contestar, do alto do meu ateísmo e da minha descrença universal, quando me lembrei de um caso que me aconteceu há muitos e muitos anos, e que envolveu um Fiat 147, um contrabandista e uma mãe de santo.

Eu contaria essa história agora com o maior prazer, mas como o espaço já está no fim, ela fica para a semana que vem.

(O Globo, Segundo Caderno, 25.9.2014)

O mês dos smartphones

E, aos poucos, a alta estação dos smartphones vai chegando ao fim. Esta foi uma temporada rica em lançamentos e, mais importante, rica em lançamentos bons. A escalação para o Natal está pronta, e está tinindo: temos novos Lumias, Sonys, LGs, Samsungs, Motorolas e iPhones, para não falar num cardume inteiro de relógios inteligentes. Mas… será que precisamos mesmo deles? Será que os nossos smartphones do ano passado não são suficientemente bons?

Como vocês podem imaginar, esta é uma pergunta que me fazem com razoável frequência, às vezes com um viés de raiva e revolta; é também uma pergunta que, às vezes, eu mesma me faço, especialmente quando ando brigada com o consumismo frenético em que vivemos mergulhados: será que precisamos mesmo trocar de telefone todo ano? A resposta — Claro que não! — é óbvia. Mas aí me dou conta de que nem a pergunta é essa, e nem é essa a resposta que faz sentido.

Precisar, precisar, só precisamos de muito poucas coisas, e um smartphone topo de linha certamente não é uma delas. No último fim de semana, por exemplo, saí com um amigo que causou sensação com o seu Bang & Olufsen Serene de 2005, que ainda funciona perfeitamente e continua sendo um dos aparelhos mais lindos já fabricados, por dumbphone que seja; mas é inegável que as nossas vidas ficam mais fáceis e divertidas quando temos boas ferramentas e bons brinquedos, e é sob este ponto de vista que os novos lançamentos devem ser encarados.

Enfim: usemos nossos celulares enquanto estivermos contentes e bem servidos, trocando-os apenas quando pudermos ou se fizer necessário. Simples, não é?

o O o

Vários aparelhos muito interessantes passaram pelas minhas mãos ao longo deste mês; um deles foi o LG G3, um topo de linha Android KitKat muito, muito fino, cheio de personalidade e de detalhes únicos. Os primeiros a me chamarem a atenção foram o botão liga/desliga e o controle de volume, que ficam na traseira, perto da câmera; como não tenho familiaridade com os LG, levei vários minutos até descobri-los. Apesar de ter usado o G3 durante duas semanas, até agora não sei se gostei ou não dessa peculiaridade; mas gostei muito das outras, que fui descobrindo com o uso, da segurança às notificações, passando pelo teclado, pela interface elegante e pelo aplicativo de fitness.

O G3 é o primeiro smartphone do mundo com tela quad HD (5″5). Ainda nem existe conteúdo para resolução tão alta, mas que ela é um espetáculo lá isso é, e impressiona sobretudo na hora de se rever as fotos ou vídeos que fizemos. A câmera de 13MP está, sem dúvida, entre as melhores do mercado: tem boas cores, estabilizador de imagem e o foco mais rápido que já vi. Já a câmera frontal, de 2,1MP, tira selfies a um simples gesto de mão, e dispõe de um “flash” virtual feito com a iluminação da tela.

Para quem gosta de capinhas flip, o G3 tem a campeã da categoria, chamada Quick Circle, vendida separadamente, que exibe relógios com vários desenhos diferentes, permite o acesso a diversas funções sem que se precise destravar o aparelho e, ainda por cima, tem um set de aplicativos especiais, para não falar num game desenvolvido só para ela. Outro detalhe de que gostei muito é o carregamento por indução, sem fio, e o prático suporte para isso que já vem incluído na embalagem.

O LG G3 custa R$ 2.300, e a capinha Quick Circle R$ 220.

(O Globo, Sociedade, 19.9.2014)